Sexta-feira, 10 de Fevereiro de 2012

Não interessa que Fabio Capello tenha sido o seleccionador inglês com melhor percentagem de resultados durante o seu mandato. Inglaterra celebra hoje a saída do italiano. A quatro meses de um Europeu o que podia ser um drama parece ter-se convertido numa risonha perspectiva de futuro. O portfolio e perfil de Capello chocaram directamente com a austera e exigente tradição inglesa. E ninguém parece lamentar o ponto final neste casamento de conveniência.

 

Pode ser (ou talvez não) pura coincidência.

No mesmo dia em que Harry Redknapp, o único treinador inglês realmente popular e bem sucedido da última década, foi absolvido da acusação de fraude fiscal, a FA comunicou a demissão voluntária de Fabio Capello por divergências de gestão. O adepto inglês, pouco amante de estatistica, nunca gostou da figura de Capello.

O facto do italiano ser o mais bem sucedido seleccionador em percentagem de vitórias conta pouco quando no último Mundial os Pross sairam pela porta pequena com apenas uma vitória em quatro jogos. O historial pretérito de Capello, imaculado por onde quer que passou (AC Milan, Real Madrid, AS Roma, Juventus), contou pouco quando o seu método italiano não encontrou respaldo nos directivos, jogadores e imprensa na Old Albion. Capello foi contratado para ganhar e como todos os treinadores que cimentam a sua carreira em obter resultados rapidamente, a sua prestação foi vista como um fracasso.

Uma realidade que para os ingleses não é nova. Desde 1990 que a selecção inglesa não chega às meias-finais de um Mundial e desde 1996 não logra estar nos últimos quatro participantes de um Europeu. Pelo meio muita expectativa e muita desilusão que puderam com as carreiras de Robson, Taylor, Venables, Hoddle, Keegan, Erikson, McClaren e agora Capello. Mas o italiano sempre jogou com a faca ao pescoço. Desde o primeiro minuto demarcou-se de forma absoluta da cultura britânica. Recusou-se a aprender mais do que o pouco inglês que sabia. Passou largos meses em férias pagas pelo milionário salário de 7 mihões anuais e obrigou os jogadores a uma politica colectiva que mais se assemelhava ao asfixiante ritiro de Helenio Herrera do que ao universo de tabloides e wags que os ingleses estavam habituados. O seu curriculum permitiu-lhe certa tolerância mas o fracasso da experiência na África do Sul despertou uma bomba relógio destinada a explodir mais tarde ou mais cedo.

 

O evento que despoletou a (aplaudida) decisão de Capello espelha bem a idiossincrasia do futebol inglês e a encruzilhada em que se move eternamente. Por um lado a vontade de ganhar e de acabar com uma malapata de meio século. Por outro os velhos ideais que transformavam o berço do jogo no local mais atrasado e avesso às inovações técnicas, tácticas e sociais. O caso Terry reflecte bem esse caminho de ervas daninhas de que a Inglaterra não se consegue livrar, muito por culpa do peso mediático de jogadores que se transformaram em cancros no interior do balneário.

Terry é o mais conflictivo e problemático jogador do futebol inglês. Sob muitos dos critérios que a FA sempre defendeu o seu tempo com os três leões ao peito devia ter terminado mas Capello quis fazer dele o seu sargento. Contra tudo e contra todos.

A impopularidade do capitão do Chelsea no balneário é de sobra conhecida, a sua péssima imagem pública nunca ajudou a convencer o público e a postura quase imperial de Capello fez o resto. Quando o jogador foi acusado de insultos racistas a Anton Ferdinand, irmão mais novo do anterior capitão Rio, a FA manteve-se fiel à sua imagem de espelho público e anunciou que lhe seria retirada a baraçadeira. Capello interpretou isso como um insulto à sua liderança omnipotente, mas a verdade é que há muito que o técnico via o seu futuro longe da vida milionária que levava em Londres. Evitando assim uma possível debacle em Junho, Capello preferiu sair antes da batalha e deixou um vazio que será menos dificil de preencher do que pode parecer à partida.

Tacticamente o italiano é um dos melhores técnicos do mundo mas o seu sistema é tão distinto ao que a maioria dos jogadores utiliza nos seus clubes que os poucos dias de trabalho diário que tem acabam por não surtir o mesmo efeito que conseguiu sempre nas suas passagens por clubes em Itália e Espanha. A sua cultura táctica entrou em choque, primeiro com a herança cultural inglesa e depois com a necessidade forçada de renovar o esqueleto da selecção. De um 4-4-1-1 passou a um timido 4-3-3, mas sempre com mais precauções defensivas do que intenções de ataque. Sem Rooney para os dois jogos inaugurais do próximo Euro, o cenário parecia trazer mais dores de cabeça do que soluções tanto para o técnico como para uma FA que já sabia que a partir de Julho o futuro seleccionador seria um homem da casa, popular entre os adeptos e a imprensa e, sobretudo, entre os jogadores. Antecipar um divorcio anunciado não só parecia inevitável como a largo prazo pode resultar benéfico.

 

Harry Redknapp é tudo aquilo que Fabio Capello não é. O italiano pertence a uma raça de treinadores que funcionam claramente melhor no seu ambiente (no seu caso, clubes latinos) do que em realidades que não logram assimilar. Redknapp não terá esse problema. Desde Terry Venables que a selecção inglesa não tem ao seu dispor um técnico bem sucedido a nivel interno, com um bom reportório táctico, motivador, disciplinador e, sobretudo, consciente da complexidade do cargo. Sem que exista ainda confirmação oficial (a notável época do Tottenham pode ser um problema a resolver com um trabalho part-time até Junho), é possível imaginar que, em lugar da descaracterizada Inglaterra de Capello, na Polónia se apresente uma Inglaterra fiel a si mesma. Redknapp tem nas mãos a possibilidade de reverter uma tendência destructiva e lançar as bases de uma geração com tremendo potencial para a próxima década. Da última vez que os ingleses tiveram essa possibilidade, Erikson tomou o caminho mais conservador. A “Arry” pede-se o oposto, a temeridade. Face ao historial recente inglês talvez esse seja mesmo o caminho a seguir.



Miguel Lourenço Pereira às 12:51 | link do post | comentar

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