Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

dois treinadores que definem a excelência do futebol francês. Um foi campeão do Mundo. O outro teve o Mundo a seus pés. Durante mais de duas décadas o bom gosto futebolistico gaulês era tão sinónimo de Albert Batteux como hoje sucede em Espanha com Josep Guardiola. Num país que sempre olhou para o futebol com um desprezo iluminado, o pioneirismo do filho pródigo de Reims lançou as bases para o sucesso multi-cultural da era moderna.

O país que inventou o Mundial e as provas europeias demorou décadas até conseguir os primeiros trófeus oficiais. Mas se houve alguém que esteve perto  de quebrar essa malapata quase antes de ter começado, esse alguém foi Albert Batteux.

O seu Stade Reims  não foi só o grande dominador do futebol francês da década de 50. Era também o percursor ideológico do popular foot-champagne que fez escola a partir da década de 80 com Platini e companhia. Quando o futebol em França continuava a ser um passatempo provinciano, são cidades como Lille e Reims que vão dictar sentença no pós-guerra. Batteux cresceu debaixo da catedral de Reims e nos anos 30 tornou-se num dos jogadores de moda do conjunto que trouxe para a liga gaulesa o conceito de profissionalismo pela primeira vez. A 2 Guerra Mundial acabou com a sua carreira como jogador, cortando anos preciosos que culminaram no final dos anos 40 com as suas oito internacionalizações e os primeiros titulos como capitão, na liga e taça de 1950. No final do jogo, sem o ter consultado previamente, o presidente do clube, Henri Germain, anuncia ao balneário que ele será o treinador da próxima época. Sem o saber, começava uma época de glória inesperada para o clube do nordeste.

 

A equipa do Reims nutria-se essencialmente de jogadores locais e de filhos de emigrantes que anos 20 e 30 tinham começado a chegar à zona, especialmente do leste europeu. O olho clinico do técnico permitiu-lhe rodear-se dos melhores profissionais da zona. Mas foi, sobretudo o seu conceito táctico, que afastou progressivamente o clube de um 2-3-5 ainda primário para um WM avançado que deu aos jogadores do Stade um plus de superioridade face aos seus rivais mais directos.

Ao colocar mais jogadores no sector defensivo, Batteux implantou uma cultura de toque curto, com a bola a sair a jogar sem os longos pontapés para os extremos que tinham sido o habitual até então. A explosão precoce de Robert Jonquet e Armand Penverne, adolescentes quando foram lançados como titulares, trouxe o rigor e precisão que o modelo necessitiva e que libertava o quarteto atacante para um jogo de ataque continuado confirmado com os espantosos números goleadores que o “Grand Reims” manteve ao longo de toda a década. Dez anos depois, sem cumprir 40 anos, os titulos, e sobretudo, a aceitação cultural de uma nação devotada sobretudo aos desportos individuais (ténis, ciclismo, natação) do que propriamente à febre futebolistica que já era uma realidade em todo o Mundo. 4 titulos de liga, 2 Taças de França, 1 Taça Latina e duas finais da Taça dos Campeões perdidas diante o Real Madrid (incluida a primeira final da história), reforçaram o cariz lendária do conjunto que então subsistia com a magia de Kopa e os golos de Just Fontaine. Foi precisamente na dupla que juntou em Reims que Batteux se apoiou quando a FFF o nomeou seleccionador nacional em 1955, com apenas 34 anos. O terceiro lugar no Mundial de 1958 foi recebido com surpresa num país habituado às desilusões e deixou no ar a ideia de que com pouco mais os gauleses podiam realmente desafiar os grandes do futebol internacional. Seria preciso esperar até 1998 para a França lograr um resultado melhor num Mundial.

Em 1963 Batteaux abandonou finalmente o Stade Reims.

Um  titulo mais e treze anos depois o técnico, então com 42 anos, sentiu que estava na hora de mudar de rumo. O esqueleto do seu projecto tinha-se desfeito com a idade e as exibições na Europa não tinham estado à altura dos seus melhores momentos. Depois de dois anos em Grenoble, onde passou relativamente despercebido, o técnico marchou para a pequena localidade do Massiço Central de Saint-Ettiene. No Geoffrey-Guichard pegou na herança deixada por outro grande técnico gaulês, Jean Snella, e transforma o grito “Allez lez Verts” no santo e senha para os amantes neutrais do futebol em França, que sempre fora a esmagadora maioria. Três ligas consecutivas entre 1968 e 1970 lançaram as bases para o sucesso esmagador do Saint-Ettiene na década seguinte.

 

Jovem ainda, Batteux tinha perdido a paixão inicial e em 1972, depois de um segundo ano sem vencer um só trofeu, cede o posto a Roland Herbin, nome nuclear na transição entre os técnicos clássicos e a geração de 80 dos bancos franceses. Ainda passa por Avignon, Nice e Marseille, mas em estâncias curtas e sem o mesmo impacto que a fama que lhe precedia sempre levantava. A doença minava-o já e em 2003, depois de uma longuissima luta, Batteux perdeu o seu último e decisivo jogo. O futebol francês vivia a sua era dourada, mas poucos se lembravam de realmente que tudo tinha começado com Albert a dar ordens no banco e a catedral mais emblemática de França a velar as suas costas.  



Miguel Lourenço Pereira às 14:15 | link do post | comentar

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