Domingo, 8 de Janeiro de 2012

O ultimo suspiro real do poder futebolistico regional espanhol viveu-se na dobragem do cabo da década de 90. Antes do apogeu do projecto que Augusto César Lendoiro preparava na Coruña, o último grito de guerra dos pequenos chegou da Mancha mais profunda, com esse cheiro a pasto queimado pelo sol, a terra pisada com amor, a queijo mecanizado pela vontade indómita...

O sonho terminou em 1992. Mas enquanto durou foi verdadeiramente épico.

Andrés Iniesta, o pequeno Andrés Iniesta, cresceu na modesta Fuentealbilla a admirar profundamente aquela equipa de branco e negro de que hoje é dono. As voltas do destino. Um pequeno filho da terra elevou à glória o destino de uma nação que durante alguns anos viveu apaixonada pela qualidade do futebol que fazia do Carlos Belmonte um destino obrigatório para qualquer peregrino à procura da novidade.

Durante três temporadas o "Queso Mecânico", essa alcunha tão manchega como holandesa, foi o projecto de moda do futebol espanhol. Durou até onde podia durar, até à inevitável saida do seu técnico, ao desmembramento de um plantel sem estrelas mas com um elemento de união irrepetível e, sobretudo, até ao fim do apogeu do futebol regional de um país que em poucos anos deixaria de ouvir a bola rolar em Logroño, Burgos, Compostela, Alicante, Extremadura, Soria ou Albacete. O preço do sucesso da Liga de las Estrellas foi o fim do futebol regional. As equipas com dinheiro, as que podiam entrar a jogo, começaram a despontar nos grandes núcleos urbanos e a incapacidade dessas capitais de provincia de atrairem jogadores e patrocinadores pautou o principio do fim. Hoje, vinte anos depois, o Villareal é de certa forma o espelho rebelde desse mundo mas ninguém esquece que metade das equipas da liga espanhola joga à volta do circulo urbano das quatro cidades principais do país (4 em Madrid, 2 em Barcelona, 2 em Valencia e 2 em Sevilla).

 

A épica do Queso Mecânico arrancou nas divisões inferiores com a chegada de Benito Floro.

O jovem técnico (tinha apenas 29 anos quando pegou na equipa) era um verdadeiro estudioso do jogo, especialista em desbloquear jogos desde o banco, perito em armar golos de lances de bola parada e, sobretudo, com uma concepção atractiva do futebol que encantou a modesta afficion do Alba. Depois de subir em 1992 à Primeira Divisão espanhola, o Albacete surpreendeu tudo e todos ao realizar uma primeira época memorável que os deixou a só a um ponto de marcar presença nas provas europeias.

O Carlos Belmonte viveu noites épicas como a goleada histórica frente ao Athletic Bilbao (4-0 com três golos em cinco minutos antes da primeira parte) e o triunfo frente a um Atlético de Madrid de Paulo Futre que ainda ambicionava ainda disputar o titulo a Barcelona. Floro acreditava piamente na importância do trabalho de laboratório e o resultado era evidente. Um terço dos tentos apontados pelo clube durante a temporada resultaram como consequência de lances estudados onde predominava a figura decisiva de Zalazar.

O capitão uruguaio, antiga estrela do Cádiz (outro projecto heróico regional dos anos 80), era a alma, coração e cerebro de uma equipa sem nomes sonantes mas com várias promessas às quais Benito Floro soube sacar o máximo rendimento. O papel de Zalazar como médio mais ofensivo dava um plus de força e dinamismo à movimentação colectiva e permitia um jogo com dois avançados em constante movimentação (António, o Toro Aquino ou a jovem promessa Ismael Urzuaiz) e um posicionamento defensivo impecável do tridente de médios que actuava atrás do capitão, habitualmente composto por Soler, Menendez e Juarez.

O sucesso da campanha inaugural do Albacete na primeira viu-se interrompido pela surpreendente noticia que marcou o Verão de 1993. O Real Madrid, destroçado pelo Barcelona de Johan Cruyff e pelo Atlético de Gil y Gil, procurava alguém capaz de dar a volta a uma situação complexa que implicava uma profunda regeneração do plantel onde ainda predominava essencialmente a velha guarda da Quinta del Buitre. Floro foi o homem escolhido, na ascensão mais meteórica que o futebol espanhol conheceu, e apesar de ter perdido o titulo na última jornada em Tenerife (e por consequência não ter renovado), venceu a última Copa del Rey até à época passada e bateu o pé àquela que então era considerada, de forma unânime, como a melhor equipa do Mundo. Por outro lado o Albacete manteve-se fiel a si mesmo. Sem o seu timoneiro (com Victor Esparrago no seu lugar) o clube manteve-se cinco épocas mais na elite e em 1993/94 logrou mesmo chegar até às meias-finais da Copa del Rey, perdidas contra o Valencia.

 

O ocaso do Queso Mecânico significou uma profunda mutação do jogo no país vizinho. Se é verdade que durante os anos seguintes continuariam a existir equipas modestas capazes de entusiasmar uma afficion neutral (Deportivo, Celta de Vigo, Deportivo Alavés, Villareal, Getafe), nunca produziu o efeito surpresa de um projecto construido com meia dúzia de pesetas e um visionário capaz de ver um oásis onde outros apenas imaginavam um deserto. O regresso do Albacete à ribalta (por culpa da sua presença nos Oitavos da Copa del Rey, pela primeira vez em 18 anos) dificilmente prenuncia um regresso às origens mas serve para relembrar ao futebol espanhol que há vida (ou havia) para lá do habitual e enebriante duopólio Barça-Madrid, hoje mais sentido do que nunca.


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Miguel Lourenço Pereira às 07:30 | link do post | comentar

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