Segunda-feira, 19 de Dezembro de 2011

poucas fotos que conseguem encapsular o sentido de um jogo tão brutalmente complexo como o futebol. Nenhuma o faz tão bem como este momento em que o mundo - a bola - pára aos pés de um dos jogadores que melhor a souberam entender. À sua frente, o caos. E não um caos qualquer, uma desordem organizada, uma concessão ao desespero de um segundo que logo desaparece sobre um manto de rigor absoluto. A Argentina do "Pelusa" perdeu o jogo frente à melhor Bélgica de que há memória, pioneira na organização defensiva na década que redefiniu o conceito, mas ganhou a história com uma foto que perdura na memória.

 

Maradona recebe a bola. Só.

Diante de si, seis jogadores belgas. Seis jogadores de elite, vice-campeões europeus, totalmente desorientados pelo seu movimento de corpo. Pendentes do seu próximo movimento, da decisão que pode mudar o curso do jogo, da história. A bola cola-se aos pés do jovem astro argentino, debaixo do olhar quase impotente de homens que sabem encontrar-se com algo a que os gregos antigos simbolicamente chamavam de semi-deuses. Poucos jogadores individuais tiveram tanto impacto no jogo como Diego Armando Maradona. Poucos jogadores deram a sensação de surpresa e terror num rival como o Pelusa nesta imagem. Curiosamente, como os não golos de Pelé em 1970, esta imagem tornou-se mais representativa do seu génio do que muitos dos seus golos. O poder do individuo contra o colectivo.

Claro que o lance acabou imortalizado e foi desactivado poucos instantes depois. Não foi um desmarque impossível mas sim um livre indirecto e os homens belgas tinham formado uma barreira que rapidamente se desactivou diante do argentino que, no meio da floresta de homens de vermelho, acabou por perder a bola. Travado várias vezes em faltas (que hoje em dia valeriam mais do que uma expulsão), a exibição do menino que falhou o Mundial de 78 e que no ano seguinte se transformou em estrela precoce no Japão, foi catalogada como desapontante. Era o seu primeiro jogo no Camp Nou depois de ter assinado com o Barcelona e, sobretudo, o primeiro jogo importante com a Albiceleste vestida e o 10 estampado nas costas, como uma cruz. Maradona tentou, jogou e fez jogar, mas a foto acabou por contradizer o que se viveu nos 90 minutos.

 

O poder de uma imagem muitas vezes é suficiente para dar uma imagem oposta ao real.

Nunca em nenhum momento isso foi tão verdade como este frame. O aparente desnorte dos jogadores belgas dá a ideia de uma equipa sem ideais, sem estilo, sem disciplina, submetida ao génio de um só homem, de um poeta de chuteiras. A imagem que melhor imortaliza o papel do individuo entra em choque com um jogo onde se reforçou um conceito que faria escola nos anos 80: o papel táctico do colectivo.

A Bélgica de Guy This tinha-se tornado, desde o final dos anos 70, no exemplo perfeito do que é o futebol de hoje. O talento individual foi colocado ao serviço do bem colectivo, as estratégias defensivas de contenção, pressão e - sobretudo - do jogo com o fora-de-jogo (algo idealizado pelo belga Raymond Goethels, treinador do Anderlecth, durante a década) como armas preferenciais para desactivar o rival. Kempes, Maradona e companhia viram-se superados por essa defesa sempre pronta a dar um passo em frente neutralizando as diagonais dos homens das pampas. Apesar de contar com génios individuais como foram Eric Gerets, Jan Ceulemans, Vandereycken ou Coeck, todos submergiram num só elemento, quase indistinto, que basculou durante os 90 minutos em linhas compactas que anularam o jogo mais lento e previsível de uns campeões do Mundo que (como em 1990) chegaram com a convicção de que a sua superioridade técnica natural seria suficiente.

Mas a Bélgica não era uma equipa qualquer, como César Menotti devia bem saber. Vice-campeões europeus dois anos antes, os belgas representavam a corrente mais conservadora e eficaz do futebol europeu de então, o oposto do futebol espectáculo protagonizado pela França de Platini. Só uma Alemanha tão bem organizada mas com um Bernd Schuster implacável foi capaz de superar a espantosa organização colectiva dos belgas em Itália e neste Mundial de Espanha os belgas acabaram apenas por cair diante da eficaz Polónia de Lato e Boniek na segunda fase de grupos depois de um arranque memorável. O golo de van den Bergh silenciou um Camp Nou disposto a prestar vassalagem ao seu novo ídolo e demonstrou que, apesar de uma imagem valer mais do que mil palavras, um individuo não deixa de ser um variante inferior ao poder de um colectivo durante longos 90 minutos.

Maradona, qual guerreiro cercado pelas tropas rivais, teria dois anos depois a sua desforra, apontando os dois golos que bateram os belgas nas meias-finais (a organização voltou a ser a sua grande arma contra soviéticos e espanhóis) mas aí o número 10 contava atrás de si com um colectivo cujo o ideário billardista se aproximava, mais do que nunca, ao dos homens de Thys. No lance imortalizado há metade da equipa argentina sem marcação e não sabemos se estão de braços no ar a pedir a bola ou se admiram, estáticos, como todos, o momento. Ao ver o jogo, no entanto, entendemos que a realidade é sempre mais complexa do que parece. Maradona recebe a bola numa posição complicada, abandonado, e todos os que se encontram na sua linha de visão estão bem presos pela teia defensiva belga. O passe mais óbvio torna-se presa fácil dos rivais que roubam a bola, a voltam a perder e depois logram armar de forma perfeita a ratoeira do fora de jogo que tão bem  aperfeiçoaram.

Num dos duelos mais apaixonantes do torneio ficou clara a tendência táctica de um jogo que se começava a preocupar cada vez mais com o aspecto defensivo e que via extinguir-se figuras individuais capazes de decidir, aproveitando os espaços, jogos por si só. Nesse momento Maradona representa o eclipsar de uma era que só ele saberia prolongar durante uma década onde o futebol de ataque, despreocupado e inconsequente, foi desaparecendo gradualmente. O grande público lembra-se melhor da derrota de um Brasil inocente frente a uma Itália perfeita mas foi no primeiro jogo do torneio, neste duelo de abertura, que se anunciou o futuro. Por muito que o olhar de terror de Coeck, De Schrivjer, Vercauteren, Gerets, Milecamps e Baeck nos permita imaginar o contrário. Nesse jogo de ilusões que é o futebol às vezes isso é tudo o que precisamos para sonhar.



Miguel Lourenço Pereira às 09:03 | link do post | comentar

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