Sexta-feira, 9 de Dezembro de 2011

Numa semana em que a gestão da UEFA de Platini deveria estar debaixo de um sentido coro de aplausos, o organismo que gere o futebol europeu voltou a demonstrou o seu autismo na relação directa com os escândalos arbitrais que gerem a sua prova rainha. O apuramento "histórico" do Olympique de Lyon abre de novo as portas a todos aqueles que acreditam que a Champions League há muito que deixou de ser uma competição limpa.

No rescaldo da conferência de imprensa, a polémica conferência de imprensa, de José Mourinho depois da derrota por 0-2 diante do Barcelona, nas meias-finais da Champions League, um coro de virgens histéricas condenaram o técnico português por questionar a honestidade da UEFA. Defenderam que a prova europeia por excelência era mais limpa que um lençol por estrear e que só aqueles que viviam em cápsulas submergidas debaixo da terra podiam acreditar que os árbitros nomeados pela UEFA e a direcção do organismo, presidido por Michel Platini, tivessem alguma agenda escura com outros interesses por detrás. Claro que a Mourinho, sancionado por cinco jogos lhe retiraram um depois deste alegar, com provas na mão, toda uma colecção de erros intencionados que tiveram lugar na prova nos últimos cinco anos. O eco foi infinitamente menor mas deixou claro que a própria UEFA sabe com que teia se cose o seu grande troféu.

Esse mesmo coro talvez pense agora duas vezes depois de assistir a um jogo que nos faz voltar atrás no tempo, aos dias difíceis da ditadura militar argentina que, com o apoio de João Havelange, organizaram o Mundial de 1978. Na segunda fase de grupos - passo prévio à final - a equipa da casa, neutralizada pelo Brasil, precisava de vencer por cinco golos ao excelente Peru de Teófilo Cubillas. E venceu por seis. Num dos jogos mais tristes da história dos Mundiais ficou claro que tinha havido mais de uma mão a manobrar o resultado. Poucas duvidas ficaram também ao final dos 90 minutos de Zagreb e Amsterdam, por muito que Platini defende, uma vez mais, o indefensável.

Não está em causa a debilidade evidente demonstrada pelo Dinamo Zagreb - que contra o Real Madrid efectuou, em casa, um jogo impecável perdendo apenas por 0-1 - que ainda para mais não jogava nada a não ser a sua honra e prestigio. Nem sequer o potencial do Olympique Lyon, uma equipa com um historial europeu imaculado na última década e que, com este apuramento, consegue a sua nona classificação consecutiva para a próxima fase. E no entanto quando uma equipa necessita recuperar uma diferença de sete golos num goal-average para se qualificar e o consegue, o futebol entra numa espécie de twlight zone.

 

Nunca nenhuma equipa tinha marcado sete golos fora num duelo da Champions League.

Aliás, nunca nenhuma equipa tinha recuperado de um goal-averege desfavorável de quatro golos na última ronda, quanto muito sete, quase o dobro. E no entanto, ela move-se, pensaram os jogadores do Ajax quando souberam do que se passava à distância de um pesadelo. Claro que os holandeses sentiram na pele e em primeira pessoa o tratamento de luxo que a UEFA costuma aplicar nestes casos. Numa arbitragem lamentável, dessas que definem uma carreira, o árbitro português Jorge Sousa anulou dois golos perfeitamente válidos ao conjunto ajaccied que teriam significado, primeiro o empate a 1 e depois o 2-1 frente ao Real Madrid, versão low cost, que se apresentou no Arena. Um resultado que podia ter significado muito e que acabou por fazer muito mais sentido quando o outro duelo terminou.

Estes dois golos anulados que garantiram a validez de uma reviravolta a todos os títulos histórica e, sem nenhuma dúvida, suspeita desde o primeiro ao último segundo. O Zagreb, a tal equipa que não jogava nada mais que a honra, até ia a vencer por 1-0 ao intervalo, dando a entender que as contas do apuramento estavam fechadas a favor dos holandeses. Mas um piscar de olhos matreiro e sete golos em vinte e oito minutos (uma média de um golo cada quatro minutos) permitiram aos Gonnes relegar o tetracampeão europeu para a Europe League. Claro que poucos se lembraram que o clube croata já esteve sob suspeita em 2009 por vender o resultado num duelo também na Champions frente ao Arsenal. Ou que o seu presidente, o sempre polémico Zdravko Mamic, seja uma conhecida figura do submundo croata, ligado às máfias de Zagreb e a uma rede de apostadores ilegais que controlam todas as apostas desportivas do país. Talvez isso soe estranho a tantos, menos a Platini que chamado a intervir pelo Ajax se prenunciou, como sempre, a favor de respeitar com o que se passa no terreno de jogo, justificando mesmo a reviravolta dos seus compatriotas como uma consequência natural da imprevisibilidade que faz do futebol um desporto mágico.

E no entanto nunca ninguém logrou sequer algo similar ao conseguido por um Lyon que é, a todos os títulos, o mais fraco da última década. Não se tratam apenas dos sete golos marcados (algo que só o Liverpool, Valencia, Marseille, Arsenal, AS Monaco, Real Madrid e Juventus lograram nesta fase da competição) mas o time frame em que os eventos se desenrolaram. Dos dois golos anulados em Amesterdam ao séptimo, e decisivo tento, apontado em Zagreb vai meia hora. Nunca em tão pouco tempo se decidiu algo tão complexo. A atitude dos franceses lembrou, e muito, a dos alemães naquele mítico acordo de cavalheiros contra a Áustria em 1982. Não se tratou de um ou dois erros pontuais que podem passar em qualquer jogo (mas que nas provas da UEFA curiosamente passam sempre aos mesmos) mas sim de uma clara manipulação de resultados que pelo caminho deve ter feito alguns homens bastante mais ricos. Nas casas de apostas online o apuramento do Lyon era o mais improvável de todos aqueles ainda em disputa à entrada da última ronda. E claro, o que provocou mais dividendos.

 

Conhecendo a UEFA é fácil perceber que o dossier Zagreb-Lyon será guardado habilmente numa caixa de cartão, escondido na arrecadação da sede da organização e atirado para o esquecimento como tantos outros jogos suspeitos nas provas europeias. No final do ano poucos se irão lembrar deste curioso caso que no entanto deixa a nu a relação entre o organismo que gere o futebol europeu e o submundo que rodeia a sua principal prova. Os franceses seguem em frente, os holandeses têm forçosamente de se resignar e os croatas limitam-se a despedir um técnico condenado e a piscar o olho, de bolsos cheios. Ninguém, fora do mundo do futebol, tem legitimas dúvidas de que entre Zagreb e Amsterdam houve mais do que um jogo de futebol. Infelizmente por isso mesmo a UEFA Champions League continua o seu penoso via crucis, um caminho árido, triste e cinzento que desde a chegada de monsieur Platini tem levantado mais do uma boa suspeita.



Miguel Lourenço Pereira às 08:33 | link do post | comentar

12 comentários:
De Vitor Zenha a 9 de Dezembro de 2011 às 11:15
Uma vergonha, mais este episódio que se passou nas barbas da UEFA.
Deveria haver uma autoridade independente das Uefas e Fifas para julgar estes casos..
Agora quando todos comem do mesmo tacho, é normal haver estas ocasionalidades... e muitas mais virão.

Cada vez me desinteressa mais o futebol...
Daqui a pouco (se já não é) torna-se com o Wrestling americano em que antes de entrarem para o "combate" já sabem o que se têm de fazer e qual o resultado final.

Uma vergonha.

Abraço

P.S.: É amanha que o Mourinho vai tratar do Barça!!


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Dezembro de 2011 às 11:49
Vitor,

A UEFA e a FIFA sempre foram assim, lavar a roupa suja em casa e varrer os cacos para debaixo do tapete. Na maioria das vezes são casos dificeis de afirmar, com toda a certeza, que houve ali algo mais do que verdade desportiva. Mas quando o desespero leva a coisas como esta, fica claro como está o futebol europeu.

Um abraço

PS: Sobretudo, espero que seja frontal como em Agosto e não retraído como em Abril, três pontos (possivelmente seis) dão para muita coisa!


De Constantino a 9 de Dezembro de 2011 às 13:04
Caro Miguel,

Pegando em todo o "processo lyon", equipa cujo presidente tem grandes afinidades pessoais com pinto da costa e andando o filme todo para trás, será que a nomeação do Jorge Sousa terá sido assim tão causal? Não se trata de teorias da conspiração, mas a verdade é que há um laço muito forte entre os membros do g14 (ou 15 ou 16, ja nem sei quantos são), grupo elitista que de há uns anos a esta parte, domina o futebol europeu sem permitir entrada de novos membros, indepndentemente do crescimento de outros clubes ou do enfraquecimento dos seus membros. Penso que ver um tipo que conseguiu garantir que o principal rival interno do fcporto só ganhasse 1!?! dos primeiros 15!?! jogos por ele arbitrado dá-me a impressão que as coincidências no futebol são coisa que não existe. De qualquer forma, esperemos pelos proximos 2 defesos para ver quantos cissokos trocam de casa.

Na verdade, ao contrário do que muitos possam pensar, esta situação também afecta o Benfica, por via das nomeação para a madeira. Haverá alguem que possa garantir que Jorge sousa estara com minimas condições técnicas e psicologicas para arbitrar o jogo grande da 12ª jornada?

Abraço.


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Dezembro de 2011 às 14:12
Constantino,

A relação entre a UEFA e o G14, agora Associação de Clubes Europeus, anda pelas ruas da amargura e precisamente esse foi um dos pontos que apontei aquando da polémica arbitral do Barcelona-Madrid da época passada.

Na Europa os elementos fortes do G14 têm perdido muito poder face aos clubes mais afins à instituição UEFA e isso nota-se bem nas arbitragens de alguns duelos decisivos. O Real Madrid, o Chelsea ou Bayern Munchen, os principais defensores da Liga Europeia, já pagaram a ousadia de muitas maneiras ao contrário de Barcelona e United, clubes muito mais afins ao ideário institucional uefeiro.

O caso do Lyon não me parece que entre nessa dinâmica - porque se joga em campos muito diferentes para conseguir algo assim - mas as boas relações de Aulas com Platini e o historial de jogos comprados e vendidos entre clubes em França e na Croácia deixam antever outro tipo de realidade paralela fora dos duelos entre esses dois pesos institucionais.

um abraço


De Anónimo a 9 de Dezembro de 2011 às 14:01
O Marselha marcou sete golos no terreno do Zilina, em 2010. E o Monaco (8-3 ao Corunha, em 2003) e a Juventus (7-0 ao Olympiacos, também 2003)) também marcaram sete ou mais golos na Champions. Abraço.

Tiago.


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Dezembro de 2011 às 14:08
Tiago,

Obrigado. Tens toda a razão em referir estes três casos e outros mais como os do Valencia ao Genk, os sete que o Arsenal marcou ao Slavia e na fase a eliminar os que o Man Utd e Bayern marcaram ao Roma e Sporting respectivamente.

Mas em nenhum dos casos todos os golos de uma equipa foram marcados na mesma parte do encontro ;-)

um abraço


De Joao a 9 de Dezembro de 2011 às 19:11
Quem não se lembra do Espanha 11-1 Malta, num jogo em que os espanhois tinham que ganhar por 10...

Isto não é de agora, vai muito para além do Platini...

É por estas e por outras que começo a perder o interesse no futebol e a seguir outros desportos onde o auxilio tecnológico está presente. Não é por nada que a FIFA continua a rejeitar a tecnologia no futebol, não é por tirar intensidade ao jogo como eles refutam, mas sim, para terem liberdade de continuar a trapacear sem ninguém poder sequer questionar.


De Miguel Lourenço Pereira a 11 de Dezembro de 2011 às 17:46
João,

O guarda-redes de Malta antes do jogo aventurou que ninguém lhe metia oito golos, quando mais doze. Enganou-se bem.

O futebol actual levanta, legitimamente, demasiadas suspeitas.

um abraço


De filomeno a 11 de Dezembro de 2011 às 10:27
Concordo 100 por 100 com o post. Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 11 de Dezembro de 2011 às 17:46
Filomeno,

Obrigado!

um abraço


De filomeno a 11 de Dezembro de 2011 às 10:30
España 12; Malta 1; diciembre de 1983


De xapac a 11 de Dezembro de 2011 às 17:19
Há muito tempo que a FIFA e UEFA trabalham para que os resultados dentro do campo sejam aqueles que eles mais desejam fora dele. E os franceses são quase sempre um dos grande beneficiados. Mais do que a questão do Zagreb, e por ser mais difícil de controlar esse tipo de jogadas exteriores, a verdade é que uma arbitragem moderna e atual, como acontece no rugby, iria evitar que o Ajax tivesse tido aqueles golos anulados. Enquanto no rugby vemos e ouvimos aquilo que um arbitro fala com o 4º árbitro (não sei se é assim que se chama) e quem está em casa ouve as dúvidas e as decisões tomadas, no futebol continuamos a ver os árbitros a tapar a boca quando falam entre si. É um bom exemplo da diferença de atitude.
Em relação ao nº de golos e do espaço de tempo, na minha memória perdura uma das mais fantásticas recuperações que eu já vi no futebol, e penso ter sido nos primórdios da Liga dos Campeões. O Werder Bremen perdia em casa 0-3 com o Anderlecht até, creio eu, aos 20/25 mn da 2ª parte e acabou por ganhar 5-3. Mas aí, houve mesmo futebol! E não jogos sujos!


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