Sexta-feira, 2 de Dezembro de 2011

Se o futebol fosse um jogo de pura sorte, Portugal podia ter razões de queixa. Uma selecção que começa a ser conhecida como a eterna candidata entalada num grupo com três campeãs europeias e duas das três máximas candidatas ao troféu. Mas se a sorte faz parte da linguagem do jogo também é verdade que sempre foi nos momentos mais complicados que Portugal mostrou a sua face mais competitiva. Com a embaixada mais débil dos últimos 16 anos, Portugal tentará contornar um destino que não só parece inevitável como é tremendamente lógico.

Brasil, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Bulgária, Hungria, Roménia, Dinamarca, Croácia, Costa do Marfim...

Selecções que á priori tinham todas as condições para eliminar Portugal numa qualquer fase prévia pretérita do historial luso. Todas foram surpreendidas por essa capacidade de resposta que, desde 1966, faz parte do ADN da selecção nacional. De 1966 a 2010 o desafio de um grupo complexo sempre foi um aliciante extra para os destinos de Portugal. Pelo contrário, grupos acessíveis, como os de 1986, 2002 e 2008, de certa forma, convidam a um relaxamento que já pregou demasiadas partidas. Pensando assim o sorteio do próximo Europeu pode ter sido um sorteio de sorte.

E no entanto olhamos para os futuros rivais da selecção portuguesa e é dificl pensar noutro cenário que não seja um adeus tão precoce como o de 2002, a última vez que Portugal ficou de fora na fase de grupos de uma prova internacional. As duas melhores selecções europeias da actualidade, equipas que podem verdadeiramente desafiar a hegemonia de uma Espanha que no último ano foi perdendo gás mas que continua a ser a grande favorita. E uma equipa que nos últimos dois torneios venceu o grupo de qualificação em que Portugal ficou inserido, com vitórias claras e uma superioridade de jogo inequívoca. Portugal pode ter melhores individualidades que a Dinamarca, mas desde 2008 que parece incapaz de o demonstrar num confronto directo. Não era um rival apetecível. E no entanto será o mais importante.

A partida inaugural frente a super-favorita Alemanha - provavelmente a melhor equipa do mundo da actualidade - não será determinante. O duelo com os nórdicos sim. Qualquer resultado que não passe pela vitória pode significar um adeus precoce. Uma vitória e o duelo directo com a Holanda pode ser verdadeiramente apaixonante. As tulipas são a grande incógnita do torneio. Finalista do último Mundial, grandes figuras da fase de grupo do último Europeu (antes de cair diante de uma surpreendente Rússia nos Quartos), é uma equipa de altos e baixos. Um rival com as caracteristicas que tanto estimulam o histórico português.

 

Paulo Bento tem consciência das limitações do seu quadro.

A sua politica como seleccionador reduziu ainda mais a margem de manobra ao abdicar de José Bosingwa de forma unilateral e por isso qualquer lesão ou problema físico até Junho pode ser um problema mais sério do que parece á primeira vista. Contra a Bósnia viu-se o melhor rosto de Portugal, um jogo de transições rápidas onde a velocidade de Nani e Ronaldo e o trabalho no miolo de Moutinho e Meireles, e sobretudo Veloso, faz sentido. Essa será a melhor arma frente a duas equipas tecnicamente mais poderosas como os teutões e holandeses mas frente á Dinamarca a equipa de Bento terá de se preocupar em ter a bola e saber fazê-la circular como foi incapaz em Copenhaga no passado mês de Outubro. E aí faz falta um jogador de outras características para o meio-campo. Um jogador que não existe no leque de seleccionáveis. E que ajuda a perceber porque é que Portugal, neste Grupo da Morte mediático, é o elo mais fraco.

A lógica ditará que os lusos terminem em último lugar do grupo e no entanto essa perspectiva foi a mesma que marcou o arranque do Euro 2000 (onde também defrontamos uma Roménia capaz de bater Portugal na qualificação para ser derrotada por um golo de Costinha) onde a equipa inglesa era vista como máxima candidata e a Alemanha não deixava de ser...a Alemanha.

Claro que não há João Pinto, Rui Costa, Figo e Nuno Gomes, que realizaram aquele que foi talvez o melhor torneio do historial luso. Mas essa pressão de favorito, que tanto pesou dois anos depois, não existia e o futebol dos lusos foi muito mais fluido e preciso talvez porque a mente dos jogadores estava tranquila. Será a missão principal do seleccionador, imitar o feito de Humberto Coelho e desaparecer por detrás dos jogadores para dar-lhes essa dose de confiança de quem não tem nada a perder.

 

Se o futebol fosse um jogo só de sorte, Portugal podia aspirar a ser campeã da Europa. Mas não o é e por isso os números jogam um papel importante e dictam que os lusos são hoje um dia um rival simpático. Mas como a sorte, tal como os números, não sobe ao relvado, a relatividade de um desporto que faz disso a sua principal arma de sedução permite a Portugal aspirar a tudo sabendo que o mais provável é que saia sem nada. O mérito de qualificação para um torneio como este é tremendo porque melhores equipas ficaram pelo caminho. O público português tem direito ao sonho mas também tem forçosamente de sentir a chapada na cara da realidade. Talvez seja esse o click necessário para inverter o destino de uma bola que entra no momento exacto e nos convida a ficar, só um pouco mais.

 

PS: Em relação aos restantes grupos, deixarei para o mês de Maio uma análise mais cuidada. No entanto ficou claro que a politica de ranking da UEFA permite a existência de um grupo como o A - talvez o mais fraco de toda a história dos Europeus de Futebol - e um grupo como o D onde suecos, franceses, ingleses e ucranianos partem ao mesmo nível no verdadeiro Grupo da Morte. Quanto á Espanha, que pode fazer um tri histórico, terá Trapatonni, Modric e, sobretudo, a sua besta negra, a Itália, pela frente. Junho promete ser um mês inesquecível!



Miguel Lourenço Pereira às 20:36 | link do post | comentar

8 comentários:
De xapac a 3 de Dezembro de 2011 às 08:55
Já tinha percebido que não eras grande fã do Scolari e Paulo Bento. Mas a história não pode ser alterada por nós apenas e só porque gostamos mais deste ou daquele. Eu não vou dizer que gosto mais deste ou daquele. Analiso apenas os factos. E facto um, não foi Paulo Bento que abdicou unilateralmente de José Bosingwa , foi José Bosingwa que claramente disse que com Paulo Bento não voltava à seleção . Facto dois, por muito bonito, romântico e apaixonante que tenha sido o futebol da nossa seleção com Humberto Coelho, esse europeu não foi o melhor torneio do historial luso. Porque uma presença na final, mesmo que em casa, continua a ser melhor que umas meias finais, e porque umas meias finais num mundial, continua a ser mais valioso do que uma meia final num europeu. Isto não são opiniões. São factos. E não podem ser alterados.


De Miguel Lourenço Pereira a 3 de Dezembro de 2011 às 12:41
Xapac,

Como podes considerar como facto uma coisa tão subjectiva como uma meia-final de uma prova valer mais do que outra? O Europeu a 16 equipas sempre foi considerado, em todo o Mundo, como a prova de elite de selecções, a mais equilibrada e complexa a ponto de que o Mundial seja, em muitos sítios, conhecido como o Europeu mais o Brasil e Argentina.

O Euro 2000 foi o melhor torneio pós anos 80 e esse ideia não é só minha mas da maioria de técnicos, jogadores e analistas e chegar a uma meia-final com o percurso realizado para mim vale muito mais do que a final de um torneio em que se jogou em casa (primeira selecção que perdeu um torneio que organizou na final desde o Suécia 58) e onde se perdeu por duas vezes com a mesma equipa.

A mais completa selecção portuguesa foi sem duvida a de 2000, seguida seguramente pela de 66, antes do mandato Scolari, Oliveira, Queiroz ou Bento.

Quanto ao caso Bosingwa, a cobardia habitual do seleccionador - que herdou essa tradição de Scolari efectivamente - manteve uma omissão durante mais de um ano a um jogador por um motivo quando, depois de garantir o apuramento, explicou finalmente que o motivo sempre foi outro e que não passava mais de uma vendetta pessoal. Não sei se o Bosingwa simulou uma lesão para não jogar um amigável com a Argentina, se calhar até o fez. O que sei é que Danny, Cristiano Ronaldo, Pepe e Coentrão fizeram isso durante o último ano mais do que uma vez (comprovado por jogarem com o clube 3 dias depois de cada jogo pela selecção que falharam) e ninguém se escandalizou. Muito menos o seleccionador.

Espero que Paulo Bento saiba encarar este Europeu como ele realmente é, um espelho da situação real de Portugal no panorama competitivo, e que utilize precisamente isso para contrariar a frieza dos números. Só a Irlanda parece, à priori, ter menos opções de chegar à próxima fase. Se o fizer, serei o primeiro a aplaudir. Se não, não serei o primeiro a crucificá-lo, como muitos farão, porque à distância já previ o que pode suceder.

um abraço


De xapac a 5 de Dezembro de 2011 às 11:18
"O Europeu a 16 equipas sempre foi considerado, em todo o Mundo, como a prova de elite de selecções"

Depois deste teu comentário, pouco mais tenho a dizer. Fiquei hoje a saber que o Europeu é a mais importante prova a nível de seleções. Eu estava convencido que era o mundial. Aliás basta ver o que é mais difícil de vencer. Dos campeões mundiais europeus, só a Inglaterra nunca venceu um europeu. No entanto há 5 campeões europeus que nunca foram campeões mundiais.


De Miguel Lourenço Pereira a 5 de Dezembro de 2011 às 16:48
Xapac,

Escapa-me totalmente a correlação desse raciocinio, como se fosse possível analisar provas sem qualquer tipo de ligação. Por isso tive o cuidado de juntar a adenda do Brasil e Argentina, que, excepção feita ao excelente Uruguai de 30 e 50, somam 7 titulos mundiais no lugar desses cinco campeões europeus que menciona.

E sim, em dificuldade, um Europeu supera a exigência de um Mundial. Qualquer seleccionador europeu diz o mesmo, basta ler as reações aos sorteios dos ultimos torneios continentais ;-)

um abraço


De xapac a 5 de Dezembro de 2011 às 20:07
Eu diria que pergunta a qualquer selecionador e a qualquer jogador se prefere ser campeão europeu ou campeão mundial e também todos dirão o mesmo...


De Miguel Lourenço Pereira a 6 de Dezembro de 2011 às 11:50
Xapac,

Claro que sim, porque juntam á exigência do Europeu jogar contra uma ou duas potencias sul-americanas e uma ocasional potencia africana. Se isso faz de um Mundial uma prova mais exigente do que o Europeu estamos a defender que um 5 a 10% vale de diferença vale mais do que um 90 a 95% de exigência. Ok, são gostos.

um abraço


De Aposta Online a 6 de Dezembro de 2011 às 16:54
sim sim mas se veem futebol... Alemanha está fortissima, Holanda so perdeu com Alemanha em jogo de treino... vai ser complicado mas sempre apoiar clarooooo!!! nao digam é que os outros sao fraquinhos...


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Dezembro de 2011 às 11:02
Aposta,

Alemanha e Holanda são, com a Espanha, parte do trio que hoje em dia define o padrão de qualidade no Mundo do futebol. Fraquinhos impossível, se a lógica fizesse sentido um deles estará na final, possivelmente os dois (dependendo do que faça a Espanha). Logo, o mais normal, é que Portugal fique pelo caminho.

Mas o futebol está sempre cheio de surpresas e poucos se atreveriam a dizer que a França e a Itália nem passariam dos Grupos no último Mundial ou que o Uruguai chegaria às meias-finais. É a esses espirito a que se tem de agarrar Portugal.

um abraço


Comentar post

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Ya existe Avenida Eusebio, Estadio da Luz; NO EXIS...
¡Suerte....!
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO