Quarta-feira, 30 de Novembro de 2011

Os filhos do Mediterrâneo profundamente católico aprenderam ao longo dos tempos a celebrar o dia do santo de quem herdaram o nome da mesma forma que celebram o seu próprio dia de aniversário. Talvez hoje existam muitos Andrés por esse lago fora a receber felicitações. A nossa vai para um santo muito especial, um homem que, em retrospectiva, foi provavelmente o melhor jogador de futebol que passou pelos relvados desse Mundo fora na última década. San Andrea...Pirlo!

Na passada noite nem o frio deixou em casa os mais incautos, desejosos de ver mais um duelo santoral, um verdadeiro confronto entre santos do Norte e do Sul desse país único e inexplicável que é Itália. O San Gennaro local, essa aura de invencibilidade que rodeia a equipa napolitana de Walter Mazzari, defrontava o San Andrea que o norte aprendeu a venerar nos últimos 10 anos. O santo de Pirlo, o arquitecto perfeito.

Hoje todos falam de Xavi e do Barcelona como a sumula perfeita do futebol de toque, da visão e leitura de jogo mas esses são os que se esquecem que o médio catalão - pretendido em 2003 pelo AC Milan de Ancelloti - foi um dos jogadores mais assobiados do Camp Nou até que em 2005 o talento de Ronaldinho iniciou uma mutação histórica na vida do conturbado Barça. Se o final da década confirmou o génio do filho favorito de Terrasa, os dez anos que definiram o arranque do novo milénio pertenceram totalmente a Andrea Pirlo.

O italiano pode não ter sido o jogador mais espectacular da década (esse titulo será eternamente de Ronaldinho) mas foi certamente o mais genialmente regular futebolista que os campos de futebol viram nos últimos dez anos. Aos títulos colectivos faltaram os individuais - mas nisso Pirlo, como Xavi, pertence a outro tipo de jogadores, muito menos preocupados com as capas de jornais - para que o grande público se desse realmente conta da sua importância. Porque Pirlo definiu o futebol de um país de uma forma que poucos jogadores podem reclamar.

Aprendeu dos melhores, criou expectativas como nenhum outro futebolista italiano nos últimos anos e teve de viver uma mutação táctica que o transformou num futebolista único e especial. Do Brescia à Juventus sentiu na pele o que é ser parte do esqueleto futebolístico de um país e agora, no ocaso da sua carreira, demonstra ter finalmente superado todos os fantasmas dos seus antecessores directos.

 

Assistir aos jogos da Juventus de Conte, como o disputado no San Paolo - aqui os santos estão por todos os lados - é um desses prazeres futebolísticos que o cinzento Calcio sempre guarda na manga. Sabendo que Pirlo está em campo transmite uma tranquilidade única que deita borda fora qualquer preconceito. O técnico bianconero montou o seu projecto à volta do genial centro-campista e logrou em três meses o que a Vechia Signora não conseguia desde os dias de Marcello Lippi: encantar.

Pirlo pensa, sente e ouve o jogo como nenhum outro futebolista. Enquanto alguns dos seus colegas arrancam em solos espantosos, o tempo musical de Pirlo é sempre constante, sempre intenso, sempre tranquilizante. Em Nápoles viu a sua equipa sofrer dois golos na primeira parte e arquitectou - ai essa palavra, sempre constante em cada um dos seus 507 jogos - uma reviravolta que terminou num inesquecível 3-3. Um resultado que serve perfeitamente para os transalpinos sonharem com um regresso aos títulos. Titulos é algo que não faltam no curriculum de Pirlo. Não só ao serviço do AC Milan (duas Champions, dois Scudettos) mas também com a Itália. Apesar do génio individual de Del Piero e Totti, apesar do Ballon D´Or de Cannavaro, a Itália de 2006 define-se num só jogador: Pirlo.

Quando o médio surgiu, a finais dos anos 90, ao serviço do modesto Brescia, todos elogiavam o futuro sucessor de Del Piero como o trequartista que iria continuar a saga de sucesso dos números 10 à italiana. O seu impacto no futebol de formação italiano foi tal - e nessa altura a Itália jovem era tremenda - que levou o Inter a resgatá-lo ao seu primeiro clube. Mas esses eram os dias da esquizofrenia morattiana e Andrea nunca sentiu a comodidade necessária a quem precisa de tempo e espaço para trabalhar. Em 2001 apareceu o AC Milan com um projecto de futuro e o jovem trocou o azul pelo vermelho do equipamento e continuou a sua formação. Dois anos depois, com Ancelloti como mentor, a sua mutação táctica tinha terminado. Jogar ao lado de Rui Costa (e mais tarde Kaká) permitiu-lhe trabalhar mais o sentido posicional do seu jogo e a pouco e pouco abandonou o histórico espaço do trequartista para dictar o tempo do jogo sobre a linha do meio-campo. E a definir-se como o jogador completo.

 

A destreza de Pirlo com a bola só é equiparável à sua capacidade de jogar sem ela.

Poucos jogadores sabem preencher os espaços defensivos como o filho de Flero, uma dessas pequenas localidades lombardas perdidas entre a bruma e o verde que descansam aos pés dos Alpes. A evolução táctica de Pirlo, da frente para trás, permitiu-lhe ampliar a sua visão de campo, a conectar directamente com a primeira linha defensiva e a saber manobrar, a régua e esquadro, os ritmos de jogo da equipa. Uma equipa que conta habitualmente com Pirlo e subitamente vê-se sem ele sente rapidamente a diferença. No AC Milan actual, de onde o jogador saiu depois de duas épocas onde sofreu, fisicamente, uma série de sete anos irrepetíveis (e desgastantes) não há quem pense o jogo com critério e a bola voa sem parar para dizer olá. A Juventus, espessa e impessoal como poucas equipas sobre o mandato de Del Neri ou Ferrara, é agora um conjunto tão resplandecente como a primavera italiana.

Ao contrário de Xavi, um playmaker clássico com uma vocação profundamente ofensiva, o médio italiano sente-se igualmente cómodo a atacar e defender. Com e sem a bola nos pés. Os seus passes são habitualmente letais mas os seus desarmes, tacklings controlados ao milésimo exacto, são igualmente fascinantes. Filho do Calcio como poucos jogadores, Pirlo agradaria tanto a Gianni Brera como a Arrigo Sacchi, os dois grandes patronos do futebol defensivo e ofensivo que transformam a liga italiana na competição tacticamente mais estimulante do Mundo. A final de Berlim - onde foi coroado como o melhor em campo - foi o exemplo perfeito da sua transmutação. Durante 120 minutos foi o futebolista total, algo que os franceses nunca conseguiram encontrar nem em Vieira, nem em Zidane, excelentes e únicos na sua posição mas incapazes de desdobrar-se em dois. Com Pirlo a Itália de Lippi jogava sempre com 12 no terreno de jogo. E esse é o melhor elogio que se pode fazer a qualquer jogador.

 

Os italianos têm sido habituados nas últimas décadas à eterna guerra entre os operários e os artistas, as prima-donas e os camponeses dos relvados. Um futebol onde por cada Baggio há um Baresi, por cada Totti um Gattuso. Com Pirlo não há discussão porque ele é a súmula perfeita de todas as grandes qualidades do futebolista transalpino. Profissional até à medula, não precisa de encarnar um ideal nacionalista como é habitual no discurso dogmático do genial Xavi Hernandez. Eficaz ao mesmo tempo que espectacular, determinante ao mesmo tempo que é low profile, Andrea Pirlo pode não ter sido tão espantoso como o inimitável Ronaldinho e não ter tido uma imprensa tão favorável como a que recebeu Xavi neste ocaso de carreira. Mas dificilmente encontrarão um futebolista tão completo, tão imprescindível e tão inimitável durante a década de 2000 que



Miguel Lourenço Pereira às 14:07 | link do post | comentar

2 comentários:
De XXX a 2 de Dezembro de 2011 às 12:38
Só lhe faltou dizer que contra o Napoles, Pirlo fez uma exibição miserável tendo culpa em 2 dos 3 golos do Napoles por ter perdido a bola em zona proibida.
Pirlo é bom, nada mais, melhores do que ele houve e há às dezenas!


De Miguel Lourenço Pereira a 2 de Dezembro de 2011 às 12:53
XXX,

As perdas de bola de Pirlo devem-se mais à ausência de zonas de passe pelos colegas do que, propriamente, por erro próprio. Na reviravolta da equipa foi imenso na forma como se desdobrou pelo terreno de jogo. Fará muita falta no próximo jogo da Juve e Conte sabe-o melhor que ninguém.

Quanto ao resto são opiniões mas eu consigo imaginar um futebol sem Messi ou Cristiano Ronaldo mas nunca sem Xavi ou Pirlo.

um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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