Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

poucos países que apelam tanto à veia nacionalista quando a bola começa a rolar sobre o terreno de jogo. Duas selecções que desde há 15 anos que vêm lançando a ideia de que estão perto de dar o salto para outro patamar mas que acabam sempre por escorregar no momento mais inoportuno. Há três anos e meio Croácia e Turquia disputavam um lugar nas meias-finais do Europeu de 2008. Agora um deles ficará de fora. E o outro fará da gesta mais uma demonstração de espírito nacional. Como em nenhum outro sitio.

O inferno turco é uma realidade que nenhuma equipa pode ignorar.

Para clubes e selecções viajar até ao ponto do união de dois continentes é um verdadeiro martírio. Não só pela qualidade futebolística - tremenda em alguns casos - mas sobretudo pelo ambiente que se recria, do vetusta Ali Semin ao espectacular Ataturk. Jogar na Turquia é jogar contra 72 milhões de pessoas. Uma nação que vive com um pé num laicismo contido e com outro num fanatismo religioso que utiliza o futebol como mais uma de muitas ferramentas para reforçar o cariz de união nacional. Como os alemães sabem, jogar com a Turquia é também jogar com a população turca espalhada por esse mundo fora - e na Croácia há bastantes - e com essa ideia de estado-nação que começa a fazer cada vez menos sentido no contexto dessas organizações plurinacionais que tanto estão na moda. A Turquia é provavelmente uma das potências futebolísticas com melhor futuro pela frente. E no entanto este mesmo discurso, por muito verdadeiro que o seja, já o temos ouvido desde há muito. Exceptuando 2002 - e a memorável campanha no Mundial - e o último campeonato da Europa - derrotados também nas meias-finais num dos jogos mais apaixonantes da prova - o futebol turco nunca registou grandes resultados. E dá sempre a sensação de ser capaz de algo mais. Algo que fica por dar.

O grito dos 72 milhões transforma os jogos em Istambul num verdadeiro inferno, numa parada militar imponente e assustadora, mas fora de portas os turcos continuam a ser uma selecção mentalmente frágil. É certo que cair no mesmo grupo que a Alemanha - hoje, a par da Espanha, a mais forte selecção do Mundo - é um sério handicaap, mas os tropeções dos otomanos deixaram quase até ao último dia a sensação de esperança para uma Bélgica reencontrada. E é essa ferida que o exército croata, essa milicia modriciana, vai tentar explorar.

 

Se os turcos roçam a histeria nacionalista, os croatas levam essa realidade a outros extremos.

País com 20 anos de vida, sofreram na pele a dureza de libertar-se da Jugoslávia e desde então agarraram-se como poucos países nos Balcâs a uma fervorosa paixão por eles mesmos, por uma nação historicamente real mas politicamente ainda muito tenra. O idealismo da extrema direita de Tudjman foi transportado ao futebol - o vermelho e branco axadrezado eram, sobretudo, as cores da bandeira do partido nacionalista que liderou a secessão - e à forma dos croatas entender o jogo e as performances da sua selecção. Tal como os turcos, a Croácia falhou a viagem à África do Sul por muito pouco e em 2008 foi diante dos otomanos que caíram, sem pena nem glória. Depois de uma fase de grupos de altíssimo nível, em que lograram arrebatar a liderança do grupo à finalista Alemanha, algo falhou na cabeça dos Modric e companhia nesse primeiro jogo a eliminar. E os velhos fantasmas voltaram para nunca mais abandonar o céu azul de Zagreb.

A Croácia surpreendeu os mais desatentos no Europeu de 1996 - esquecendo muitos que a maioria das estrelas da geração jugoslava de 1987 vinham do país do Adriático - e fez ainda melhor dois anos depois no Mundial de França, arrebatando um terceiro lugar que valeu para os croatas talvez mais do que o Mundial ganho pelos franceses. Significou, sobretudo, o sucesso de um projecto de nação diante do mundo. Os sucessivos fracassos até 2008 deixaram a sensação que aquele era um fenómeno pontual de uma geração inimitável mas quando Krankjcar juntou as jovens estrelas que deram forma à equipa que viajou à Suiça, um sentimento de esperança renasceu no coração de um país que faz de cada jogo uma batalha sem tréguas. Falhar 2012 para os croatas é um golpe mais duro do que se possa supor.

A nação croata continua a sonhar com a sua integração europeia - tal como os turcos - e o sucesso desportivo é o atalho mais próximo para lográ-lo segundo a opinião generalizada. A presença do Dynamo Zagreb na fase de grupos da Champions League despertou o futebol croata de clubes de uma longa letargia e agora muitos esperam transportar esse momentum para o sucesso da equipa nacional. Durante quatro jornadas os croatas estiveram perto de assegurar o apuramento directo mas nas horas finais claudicaram diante da Grécia de Fernando Santos. 180 minutos serão muito longos mas também são a última esperança para não cair no esquecimento.

 

Pensando que selecções com muito menos qualidade individual como a Irlanda vs Estónia ou a República Checa vs Montenegro irão lograr dois lugares num torneio onde certamente quer croatas quer turcos irão fazer muita falta deveria obrigar a UEFA a rever de uma vez por todas os seus critérios de selecção para play-offs como este. Já se sabe que a partir de 2016 o Europeu será muito mais acessível a qualquer nação mas é curioso pensar que a Irlanda tenha uma posição como cabeça de serie - mais pelo drama criado à volta da polémica mão de Henry há dois anos - e uma selecção com registos notáveis como os turcos sejam relegados para um sofrimento talvez desnecessário. Nenhuma das oito selecções merece passar por este suplicio, mas talvez as duas equipas que mais mereciam estar na Ucrânia e Polónia tenham de se matar, qual gladiadores, num combate à morte. A bem da (respectiva) nação!



Miguel Lourenço Pereira às 09:42 | link do post | comentar

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