Quinta-feira, 27 de Outubro de 2011

Ninguém espera que o ritmo se mantenha. Em algum momento o balão começará a perder ar e deixará de fintar as nuvens para voar rente ao chão. Mas enquanto deambula pelos céus, o Levante pode pela primeira vez sentir a sensação de olhar para baixo e ver todos os outros que o perseguem. Será um feito anedóctico, menos para os valencianos, mas este pobre Levante continua a mandar na liga dos mais ricos.

20 milhões de euros, nem um cêntimo mais, nem um cêntimo menos.

Um orçamento insignificante para os habituais padrões das ligas europeias. Mais ainda na espanhola, na chamada liga das estrelas, onde Real Madrid e Barcelona manejam, anualmente, orçamentos de 400 e 500 milhões de euros. Inferior ao que custou, para colocar apenas dois exemplos, Fábio Coentrão ao Real Madrid e Alexis Sanchez ao FC Barcelona. Mas o futebol é assim, um fenómeno previsivel repleto de pequenas surpresas. Isso sim, surpresas que não podem durar muito tempo. No final os davids sempre acabam vergados ao inevitável peso dos golias. E em Valencia sabem-no melhor do que ninguém. A sua guerra é outra.

O clube acabou a passada temporada num ritmo endiabrado. O promissor técnico Luis Garcia pegou na equipa já com um pé na Liga Adelante e graças a uma segunda volta espantosa quase que deixou os azulgrana de Valencia em postos europeus. O espirito de grupo de um plantel formado, sobretudo, por jogadores descartados por outros clubes ou sem contracto, tornou-se na grande arma de uma equipa sem um só nome sonante para o público mais desatento. As suas estrelas passam já a idade e não têm o perfil de vedetas. E no entanto tiveram capacidade para bater o Real Madrid e Villareal, duas equipas que marcam presença na Champions League deste ano, para à nona jornada seguir como lideres isolados da Liga BBVA. Um quarto de campeonato cumprido e com 23 pontos em 27 possíveis, os levantinos estão muito mais perto do seu objectivo real: a permanência.

 

Saiu Luis Garcia para o Getafe como seria de esperar e para o seu lugar a direcção do clube foi encontrar uma solução ainda mais surpreendente.

Antes de ser treinador de futebol, Juan Ignacio Martinez fez um pouco de tudo. Guarda-costas, vendedor de seguros, empregado numa gasolineira. Sabe o valor do trabalho como poucos e só este ano chegou ao futebol profissional. Na época passada treinava na 2º Divisão B e antes tinha andado pelos campeonatos regionais sem chamar demasiado à atenção.

Muitos suspeitavam da sua inexperiência mas Martinez fez disso uma força. É um dos técnicos que melhor estudo os rivais (os seus cadernos de apontamentos estão a ganhar fama de contornos miticos) e sobretudo, é um motivador nato. Numa equipa com muito coração mas pouquissimos recursos essa é uma arma que não pode ficar no coldre. Martinez, o "Guardiola dos pobres" como a imprensa espanhola o apelida, pegou nos veteranos Munua, Juanfran, Venta, Nano e, sobretudo, Salva Ballesteros, e transformou-os na defesa mais eficaz da liga. Cinco golos sofridos em nove jogos num quinteto cuja média de idade supera os 29 anos.

Se no final de 2011 os golos de Caicedo foram valiosos para garantir a permanência do clube valenciano na prova, em 2011-12 a equipa perdeu o seu dianteiro estelar mas ganhou, sobretudo, em eficácia. Juanlu é o rosto desse ar mais humilde e sincero de uma equipa em que os médios são tão eficaz diante da baliza contrária como os seus dianteiros.

Com estas armas tão modestas surpreende que o Levante não tenha perdido um só jogo até ao momento na prova. Depois de dois empates consecutivos contra rivais directos na luta pela permanência (Getafe e Racing), a vitória em casa sobre um apático Real Madrid abriu a corrida à liderança que inicialmente foi partilhada com Valencia, depois com Barcelona e por fim tornou-se num prazer pessoal e solitário. Rayo, Espanyol, Bétis, Málaga, Villareal e Real Sociedad foram as vitimas insuspeitas de uma história que nunca terá um final feliz. Pelo menos para os românticos que ainda acreditam em surpresas num mundo controlado do primeiro ao último minuto. O Levante sabe que necessita só mais 20 pontos, menos do dobro do que já acumulou, para cumprir o objectivo da permanência. Haverá quem sonhe no Ciutat de Valencia com um lugar europeu mas isso são contas de outro rosário. Poucos esperam que uma equipa com um plantel tão envelhecido consiga manter este ritmo durante muito tempo mas ninguém se atreve agora a subestimar o notável trabalho de Martinez no banco azulgrana.

 

No final do ano muitos certamente acabarão por esquecer-se deste brilhante arranque de época do Levante se a equipa acabar nos postos anónimos no meio da tabela classificativa. É a crueza de um desporto que vive dos resultados e que esquece, tantas vezes, a forma como são obtidos. Para este Levante dos 20 milhões qualquer coisa que não seja a despromoção é uma especie de titulo de liga. Qualquer coisa mais uma versão particular da sua Champions League. No final a missão heroica dos azulgrana de Valencia perduará na memória daqueles que não esquecem. Daqueles que sabem que o futebol é algo mais do que uma questão de bolas de ouro e titulos europeus.



Miguel Lourenço Pereira às 08:31 | link do post | comentar

9 comentários:
De ze luis a 27 de Outubro de 2011 às 13:15
Caro amigo,

por cá, após o 0-0 do Barça pelo penálti falhado pelo Messi, foi dito na tv e escrito em jornais por colunistas e pacotilha, que (kmportava destacar) o Real Madrid era líder. Só um dia depois notaram que só havia passado o Barcelona...

O Levante será um dos muitos e felizes casos que fazem enorme e deliciosa a História do Futebol a nem merecer nota de rodapé. E se nem há a admiração pelo muito que faz com tão pouco, significa que a ignorância continua a imperar e a desinformar dolosamente num meio onde o amadorismo já supera na net o profissionalismo dos OCS.


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Outubro de 2011 às 14:15
Zé Luis,

Absolutamente.

O Levante é um tremendo case-study de sucesso numa liga falida onde clubes como o Atlético de Madrid lavam dinheiro enquanto contratam estrelas internacionais e que só continua a ter um minimo de interesse público pelo emocionante duelo Madrid-Barça que, desde os anos 60, nunca estiveram tão igualados numa mesma época desportiva.

É igualmente um exemplo de gestão para o podre futebol português, incapaz de aprender dos modelos de gestão certeiros - e há exemplos em todas as ligas - e que continua a teimar em endividar-se de forma lamentável e que precipitará novos casos Boavista e Belenenses com o passar dos anos. O Vitória de Guimarães é só mais um exemplo.

A comunicação social portuguesa vive na ignorância absoluta sobre tudo o que se passa lá fora e vê o mundo com uma pala que só filtra o que lhe convém. Pergunta há maioria dos jornalistas portugueses de que cidade é o Levante e muitos deles se calhar respondem-te que é de...Levante.

um abraço


De Suplementos Desportivos a 27 de Outubro de 2011 às 19:17
É bom ver equipas teoricamente mais fracas a bater o pé aos grandes!


De Miguel Lourenço Pereira a 28 de Outubro de 2011 às 07:50
Suplementos,

É bom e nunca suficiente ;-)

um abraço


De ze luis a 27 de Outubro de 2011 às 23:51
Miguel, essa tem piada...

Estamos a chegar ao Natal, acreditando no milagre e só falta gritar que é um desígnio: Levante-te e anda!

Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 28 de Outubro de 2011 às 07:51
Zé,

Muito boa essa. Em Espanha estão todos admirados e, de certa forma, orgulhosos com a campanha do Levante. Se fosse por aí já começariam a contar os lances em que tinham sido beneficiados para aguar a festa alheia.

um abraço


De espanhol a 15 de Novembro de 2012 às 00:16
Roberto Gómez (Marca) periodista extremeño de Trujillo acaba de decir que DAVID NAVARRO (levante) y SERGIO BALLESTEROS (levante) debían ser expulsados del fútbol español......


De Miguel Lourenço Pereira a 15 de Novembro de 2012 às 10:31
Espanhol,

O Roberto Gomez não é bem um jornalista mas sim um homem que grita o que outros lhe suspiram. As suas palavras tomo-as sempre com uma boa dose de humor!

um abraço


De ze luis a 28 de Outubro de 2011 às 16:50
tal e qual.


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