Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

Não deixa de ser curioso (ou preocupante) a infima quantidade de obras escritas que se debruçam sobre um desporto mais que centenário e um fenómeno global que hoje, mais do que nunca, é uma ferramente fundamental para perceber o Mundo. No entanto, entre as (insuficientes) grandes obras que versam sobre a magia que desprende o beautiful game não há um só livro que possa sequer ombrear com aquele que corre o sério risco de se tornar numa verdadeira biblia sagrada do jogo. Com Inverting the Pyramid o inglês Jonathan Wilson conseguiu muito mais do que um livro. Transformou a alma do futebol e plasmou-a no papel como da Vinci reinventou a pintura e Borges permitiu a todos sonhar um pouco mais...

Conta Jonathan Wilson que a ideia para Inverting the Pyramid surgiu num bar do Bairro Alto em Lisboa depois de uma acalorada discussão com os adeptos ingleses que acompanhou para presenciar o França-Inglaterra do Euro 2004. O jogo que definiu a classe dos gauleses e a falta de punch da Inglaterra de Erikson deixou o jovem escriba a reflectir sobre a verdadeira essência do jogo que o tinha capturado desde pequenos na cinzenta Sunderland. Colocou mãos à obra e como Tolstoi ou Miguel Ângelo, desafiou todas as leis.

Inverting the Pyramid é mais do que um livro, é um ser com vida própria.

Wilson analisa a evolução moral e estética do jogo através das suas metamorfoses tácticas. O titulo faz referência à mutação vivida do 2-3-5 do futebol desorganizado de principios de século ao 5-3-2 que algumas equipas, nomeadamente a Argentina de Billardo, aplicaram nos últimos anos como último recurso evolutivo num jogo que se dedicou a encontrar formas de anular a falta de ordem dos seus primórdios. Mas se essa mutação, factual e indismentível, é a base do trabalho, é no miolo das páginas que se encontra a verdadeira importância de uma obra que vale mais do que um manual de bolso para qualquer treinador de bancada.

A táctica, disposição das peças no tabuleiro, é o pretexto ideal para mergulhar nos ritmos, na evolução fisica e mental, na abordagem dos aspectos psicológicos e na emergência de nomes que a história preferiu esquecer, reciclando-se como lhe convém. O autor, hoje o consagrado colunista do The Guardian e editor do projecto online The Blizzard, utiliza a sua prosa eximia para chegar ao osso do esqueleto futebolistico quando a maioria dos autores se ficam pela superficie. Herrera, Michels, Lobanovsky, Cruyff e Chapman todos conhecem. Maslov, Zubeldía, Arkadiev ou Hogan nem por isso. E é nessas almas que o autor encarna a evolução real do jogo. Essa mutação em que a táctica foi forçada a acompanhar a sociedade contemporânea.

 

É dificil não ler Wilson - nesta ou outras obras - e não entender que ele é, hoje, provavelmente o autor mais esclarecido sobre os moldes em que se move e moveu o jogo durante o último século. A compreensão táctica é fascinante e certeira mas o estudo histórico e social transforma-se no verdadeiro vector da obra. Desde os dias em que os ingleses ainda exportavam o seu modelo de jogo até à formação de uma cultura intelectual futebolistica no centro de Europa que encontrou caminho rumo à América Latina e potenciou uma nova alma, mais genuina, somos convidados a conhecer épocas, personagens, momentos irrepetiveis.

O enfoque é dado, com naturalidade, aos elementos mais preponderantes do jogo de hoje. O pressing, erradamente atribuido ao Lobanovsky, o futebol total que a maioria dos estudiosos ainda acreditam ser obra e graça de Michels, o futebol directo da escola inglesa vs o futebol de passe da escola europeia, uma divisão que remonta a muito antes do que se possa imaginar e, inevitavelmente, a filosofia do não há nada mais a inventar de que tantos técnicos modernos se queixam.

Na evolução táctica do futebol o profissionalismo, a gritante melhoria das condições de treino, da alimentação e do próprio papel do jogador dentro de um desporto que passou do proletariado e colégios britânicos para as multinacionais e organismos internacionais há espaço para os acertos e os erros, as metamorfoses e e os passos atrás. Da magia de uma táctica que dependia sobretudo do individuo (como o Brasil de 70) para a cerebralidade de outra (como o Dynamo de Lobanovsky) que quase deixa de contar com o peso do individuo face ao poder colectivo, entendemos o porquê de ser tão legitimo falar de "futebóis" em lugar de "futebol".

Wilson desmonta teorias antigas, credos vigentes e fantasias assumidas por todos como realidades e demonstra que o jogo é hoje tão diverso como foi no passado e que as suas respectivas evoluções foram mais producto do momento do que, propriamente, inventos individuais absolutos. O futebol como modalidade social e colectiva ganha mais preponderância do que nunca numa obra que utiliza o individuo (e o seu génio) apenas como veículo narrativo, como se fosse a veia que faz circular o sangue por todo o corpo.

 

Ler Inverting the Pyramid é mais do que aprender o que levou o Brasil a imitar um 4-3-3 que já se utilizava anos antes na União Soviética ou pensar que a Inglaterra, o país que mais se agarrou à ideia dos extremos clássicos foi também o primeiro que acabou com eles de forma inequivoca. É olhar para o mapa mundi e saber ler como o único desporto que é capaz de parar o Mundo por completo cresceu, ganhou pernas e aprendeu a andar sozinho. A obra de Wilson, resumo perfeito do que é sentir as palpitações de uma qualquer final nos derradeiros instantes, agarra pelas entranhas o leitor e não o larga até que este chegue à conclusão que Sócrates estava certo. Cem anos depois continuamos a presumir muito e a saber muito pouco sobre o beautiful game...



Miguel Lourenço Pereira às 12:12 | link do post | comentar

2 comentários:
De Jorge a 25 de Outubro de 2011 às 11:03
li, como sabes, e adorei. sou um fã do Jonathan Wilson e é um deleite lê-lo e perceber um pouco mais sobre as dimensões sócio-políticas do mundo da bola. gosto também do seu sucessor lusitano...you know who...;)

abraço,
Jorge
Porta19


De Miguel Lourenço Pereira a 26 de Outubro de 2011 às 09:59
Grande Jorge,

Uma delicia em qualquer obra (já tenho pré-reservado o seu livro dedicado ao Clough) e nos artigos habituais na WS, no The Guardian e no Blizzard. Provavelmente ninguém escreve tão bem como ele sobre futebol na actualidade...quanto ao sucessor lusitano, nem imagino de quem falas ;-)

um abraço


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