Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011

Dez anos depois a liderança da liga espanhola volta a pertencer ao Bétis. Uma volta completa numa década de alegrias e tristezas, de extase e desespero, consumadas na sofrida vitória sobre o Zaragoza que deixou o conjunto andaluz só na frente de um campeonato que diziam ser coisa de dois. Heliopólis está em festa mesmo sabendo que provavelmente segunda-feira o lider seja outro. Mas quem desce aos infernos sabe bem o preço a pagar por ser o melhor nem que seja por breves instantes.

Um golo de penalti do português João Tomás colocou o Real Bétis de Juande Ramos à frente da Liga Espanhola.

Isso ocorreu há 10 anos, uma tarde de Outubro de 2001. Há muito tempo. Foi a última vez em dez anos que os béticos souberam o que era liderar uma prova que já venceram previamente. Nessa época o Bétis era, ainda, uma forma a ter em conta. Rivalizava directamente com Deportivo e Valencia na perseguição directa ao duo da frente. Dias de glória para um clube que desfrutava da amargura do Sevilla FC, então relegado à Segunda Divisão, e sobretudo da bonança prometida pelo polémico presidente Ruiz de Lopera.

A chegada de Denilson, un recorde para a época, abriu um perigoso precedente que o clube bético não soube manejar. O brasileiro dos regates impossíveis desiludiu desde o primeiro dia e acabou por ser o nigeriano Finidi a carregar com o peso do clube às costas. Uma relação de amor que tapava graves problemas estruturais de uma instituição que vivia debaixo do controlo férreo de Lopera, capaz de renomear o estádio Benitto Villamarin com o seu próprio nome para estupefação da familia bética. Como os resultados acompanhavam a megalomania do presidente, com presença histórica na fase de grupos da Champions League incluida, os adeptos limitavam-se a assobiar para o lado e a desfrutar do momento.

O preço a pagar viria depois.

 

Uma década é muito tempo na vida de qualquer clube. Mas os béticos, por muito que desfrutem agora desta éfemera liderança, sabem qual é a sua luta. Vêm de um longo e angustioso interregno na Liga Adelante e o medo de voltar a cair no poço é tão profundo que ninguém se atreve a celebrar. Heliópolis vive num estado kafkiano em que a realidade parece a mentira e a mentira corre o risco de tornar-se sempre no real.

Em quatro jogos a equipa venceu todos os encontros disputados, o único clube a lograr o pleno. Mas esses 12 pontos são apenas um terço do que necessitam quando chegar Maio. O objectivo do Bétis continua a ser a manutenção e o seu treinador, o sagaz Pepe Mel, não se cansa de o referir. Ele é um homem que percebe de frustrações.

Há duas épocas esteve perto de lograr um milagre com o modestissimo Rayo Vallecano e falhou a promoção no último dia. Saiu, debaixo de uma ovação, e aceitou o desafio de reerguer um Bétis já então em luta consigo mesmo, ou seja, em luta com a herança de Lopera. Destituido o presidente, saneadas as contas, pagas as dividas, era preciso apostar no futebol para trocar as misérias da liga de prata pelos milhões da liga das estrelas. A pressão foi constante do primeiro ao último dia mas Mel, consciente do que significa lutar por subir, manteve o plantel em forma. Apoiou-se no génio de Emaná, no talento de Ezequiel, na classe de Casto e nos golos certeiros de Pereira e Castro e sobretudo, no bom jogo. Ficou claro que a sua equipa tinha algo especial quando teve o todo o poderoso contra as cordas numa inconsequente segunda mão dos Oitavos de Final da Copa del Rey que esteve bem perto de se converter num maior pesadelo da carreira de Pep Guardiola.

Assegurada a promoção, o alivio. Agora, talvez, a incerteza.

O clube, sem dinheiro, soube mover-se no mercado sem cair nos gastos que precipitaram o seu final. A era de ouro do Villamarin acabou há muito e a nova gestão tem consciência que apesar do nome, hoje o Bétis não tem condições para ombrear com Valencia, Sevilla, Atlético de Madrid ou Villareal, equipas à bem pouco tempo do seu campeonato. O processo será longo e custoso mas este arranque surpreendeu até os mais positivos. As chegadas de Matilla, Santa Cruz, Jefferson Montero e Salva Sevilla dão mais profundidade a um plantel já de si equilibrado e brilhantemente gerido. O calendário ainda não se complicou para os béticos mas as importantes vitórias contra rivais directos na luta pela despromoção abrem a porta a um ano mais tranquilo do imaginado. Pepe Mel não conseguirá nunca acreditar nisso.

 

Talvez segunda-feira o todo poderoso Barcelona já tenha apanhado os béticos e o Valencia escapado como lider isolado. Ninguém se surpreenderia num campeonato onde a ineficácia do Real Madrid e os erros defensivos do Barcelona têm servido para paliar uma situação de claro duopólio. No meio desta luta titânica equipas como o Bétis têm pouco espaço para brilhar, para aparecer, para ser capa. Os festejos no Villamarin da passada noite relembram que o futebol é, ainda, um jogo de grandes e de pequenos, de ilusões e sonhos contra as evidências e os fados. O Bétis até pode descer, e esta crónica imaginada debaixo do calor angustioso de Sevilla perderá todo o sentido. Mas há uma brisa fresca que rasga a Giralda e permite sonhar aos verdiblancos. O viejo Béti continua a ser muscho Béti...e há coisas que simplesmente não mudam!


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Miguel Lourenço Pereira às 11:42 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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