Sexta-feira, 9 de Setembro de 2011

Durante largos anos o Europeu de Futebol foi considerado de forma unânime como a mais complexa e dificil competição de selecções. Este Junho isso sucederá pela última vez. As habituais manobras politicas de Michel Platini garantem que a partir de 2016, e do "seu" Europeu, nada voltará a ser como dantes no futebol internacional europeu. Mas é mesmo este tipo de Europeu que queremos?

 

Durante década e meia aos Europeus de futebol iam apenas as selecções de elite, o top 8 que representava la creme de la creme do futebol europeu.

Por isso equipas como Inglaterra, Espanha, França, Itália, Holanda, Portugal ou URSS eram, de tempos a tempos, ausências sonantes. Não havia espaço para todos. A queda do muro de Berlim e o desmantelamento da Europa de Leste quase que duplicou as associações federadas na UEFA e Leonardt Johansson percebeu que era inevitável aumentar o número de equipas na fase final do torneio. Inglaterra 96 abriu as hostilidades e de um total de 52 federações sairam 16 finalistas. Um número que duplicava o modelo anterior mas que, mesmo assim, garantia que o futuro podia albergar sempre uma que outra ausência surpreendente. Que o digam os ingleses (2008) ou os russos (2000).

Este modelo agradou a tudo e todos. As televisões agradeceram o aumento do número de jogos e receitas com a publicidade. Os paises organizadores o número de visitantes e as federações a possibilidade de aceder a uma prova habitualmente exclusiva da máxima elite europeia. Todos estavam de acordo que, num leque de cinco dezenas de países, este era um número que permitia filtrar muitas selecções que não faziam mais do que número na própria fase de qualificação para o torneio.

Mas esse modelo que tanto sucesso logrou nas suas quatro edições (falta a quinta, este Verão) tem as horas contadas. Graças a monsieur Platini, claro. O presidente da UEFA trazia esta ideia no bolso e defendeu-a durante a campanha eleitoral da sua surpreendente vitória há quatro anos atrás. Uma vitória conseguida graças aos votos dos países pequenos e médios que em troca pediam mais protagonismo. A primeira decisão foi ampliar o leque de equipas nas provas europeias para esses países. A segunda foi reformular o aclamado modelo dos Euros.

 

A táctica é velha. Platini aprendeu com Blatter, maestro neste tipo de jogadas.

O suiço era o braço direito de João Havelange quando este precisou dos votos das confederações mais pequenas nas eleições de 1978 para  manter-se no alto cargo da FIFA. A decisão de Havelange foi simples. Ampliar o Mundial de 16 para 24 países, distribuir vagas entre africanos, centro-americanos e asiáticos e reequilibrar a balança de poder das potências europeias, sempre desconfiadas do poder crescente do brasileiro. Em 1994 Josep Blatter repetiu a jogada, com o apoio do presidente ainda em funções, e patrocinou a ampliação do Mundial de França para 32 selecções. Platini, responsável pela organização do evento, passou a ser o homem de confiança do suiço depois do torneio e durante anos prepararam em conjunto o assalto do gaulês à sede da UEFA. A táctica preferida de Platini foi posicionar-se junto das federações sem poder histórico - quase todas apoiavam Johansson de forma categórica - mas cujos votos somados podiam fazer a diferença. E aí se começou a desenhar o novo modelo do torneio.

Depois de vencer as eleições o gaulês conseguiu fazer com o Europeu o mesmo que com a Champions League, agradar a gregos e troianos. Depois de patrocinar um Europeu nos emergentes países do leste, entregou o torneio seguinte de bandeja à sua França natal (contra a candidatura turca, favorita, a quem tinha prometido apoio na sua pré-campanha, e a italiana que apresentava argumentos mais sólidos que os franceses) enquanto piscou o olho aos mais pequenos anunciando a passagem a um modelo de 24 equipas. Um modelo que funcionou em quatro Mundiais e deu mais de um quebra cabeças à FIFA. Implica a criação de seis grupos de quatro em que se apuram para os Oitavos de Final (uma novidade) os primeiros, segundos e os quatro melhores terceiros. Muitas contas, muitos dramas e, sobretudo, muitas jogadas de bastidores (como a do mitico Alemanha-Austria de 1982) esperam os adeptos de futebol daqui a cinco anos. Mas, sobretudo, muda por completo a natureza do torneio.

Actualmente a UEFA conta com 53 associações onde se incluem países como Lieschenstein, Andorra, San Marino, Malta, Luxemburgo, Azerbeijão.. Isso significa, grosso modo, que metade dos países que hoje disputam as vagas de forma apaixonante até ao fim, estarão na prova. Basta olhar para o quadro actual das equipas que lutam para ainda marcar passagem para o torneio realizado na Ucrânia e Polónia. O sistema de qualificação permitiria a qualificação de todas as equipas em primeiro, segundo e terceiro lugar nas fases de qualificação. Isso incluia Bélgica, Arménia, Estónia, Bósnia Herzegovina, Israel, Hungria, Noruega, Escócia, Montenegro, Irlanda, Sérvia, Dinamarca, Républica Checa, Roménia, Suiça ou Grécia. Países que, agora, entre eles, disputam apenas três vagas.

Se haverá quem defende que uma maior abertura a nações com menos história mas com uma imensa ilusão de marcar presença nestas provas só pode beneficiar o futebol europeu, haverá quem relembre que presenças surpresa como as da Letónia em 2004, Escócia em 1996 ou as anfitriãs Bélgica (2000) e Austria (2008) deixaram evidente que há uma clara diferença entre a primeira e a segunda divisão europeia...quanto mais com a terceira. O torneio passará a sofrer do mesmo estigma dos Mundiais, com uma primeira fase sem grande tensão (mas com muita polémica garantida) e os jogos mais significativos guardados para o final. Platini importa-se pouco com os adeptos e muito com a sua popularidade junto daqueles que garantiram agora a sua renovação. O torneio garantirá mais beneficios às empresas que vivem do futebol, trará mais emoção a países historicamente deslocados do eixo central do futebol europeu e, sobretudo, fará da fase de qualificação um mero trâmite para o top 12 dos países europeus (que também agradecem). No meio quem perde é o futebol. A exigência e paixão de uma competição intensa e imprevisivel desde o primeiro dia desaparece. Algum dia poderá haver um Europeu com 32 equipas, com 20 automaticamente qualificadas por posição no ranking? Não se surpreendam!


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Miguel Lourenço Pereira às 12:04 | link do post | comentar

2 comentários:
De R_Matos a 9 de Setembro de 2011 às 15:53
É de facto um artigo fantástico e com toda a veracidade que caracteriza este blog (do qual sou leitor assíduo). Concordo na plenitude das palavras apresentadas, o futebol é cada vez mais um desporto de lucro, aproveitamento do seu potencial e dos benefícios do mesmo. 16 equipas num Euro são mais que suficientes, assim preservam-se as potencias do futebol, podendo haver uma surpresa por outra, sempre benéficas para o amante do desporto rei.

24 equipas pode dar azo a que, eventualmente, e se a fase de apuramento fosse a actual, que o jogo de abertura resultasse num Polónia - Arménia... Entre outros potenciais jogos que iriam dar protagonismo aos pequenos, mas que em termos competitivos seria quase que ridículo. A primeira fase cairia no esquecimento de muitos, algo que em competições anteriores está bem fresca na memória de quem gosta de futebol!

Benefícios extra neste aspecto, apenas aponto o facto de Portugal poder ter (finalmente) uma fase de apuramento sem necessitar de usar a calculadora =)

Bom trabalho


De Miguel Lourenço Pereira a 12 de Setembro de 2011 às 07:53
R_Matos,

Obrigado pelas suas palavras!

Uma das principais razões para que as grandes potências tenham permitido a Platini aplicar uma normativa como esta é, precisamente, as facilidades que lhe permite este modelo na fase classificatória. A partir de agora sabemos que só uma fatalidade impedirá as equipas do top 12 do ranking de falhar a presença no torneio. Isso significará menos jogos de qualificação, necessidade de menos jogadores de top, maior rotação nos convocados, clubes menos agraviados e muito menos emotividade.

um abraço


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