Domingo, 31 de Julho de 2011

A ressaca do sucesso do escrete canarinho no Mundial de 1970 durou uma década. Até 1980 o Brasil andou sem rumo, perdido entre o sucesso individual de 70 e a certeza de que essa geração tinha-se tornado num mito irrepetivel. Telé Santana encontrou a chave do futuro e desenhou um sistema capaz de emular o modelo de jogo das camisolas amarelas de Pelé e companhia. O Quadrilátero Mágico brasileiro tornou-se a chave da europeização do futebol brasileiro até aos dias de hoje, mas na sua concepção foi um último piscar de olhos a uma realidade mitológica que nunca mais ninguém foi capaz de repetir.

O golo de Carlos Alberto que culminou o triunfo mais espectacular de uma equipa na final de um torneio internacional marcou o fim de uma era.

Não só a geração de 70 era única no talento e na entrega como as condições em que se formou o projecto de Zagallo acabaram por se revelar tremendamente circunstanciais e, portanto, irrepetíveis. Um Mundial de altitude que asfixiou, à partida, qualquer ideia de pressing que começava a tornar-se popular na Europa e, sobretudo, um Mundial onde as equipas, pela última vez, prestaram mais atenção ao homem e menos ao espaço. O 4-2-3-1 que Zagallo desenhou para albergar tantos génios só funcionou porque nenhum dos rivais que o Brasil encontrou, nem mesmo a Itália, se preocuparam minimamente em aplicar um pressing eficaz. Gerson, Clodoaldo, Pelé e Rivelino tiveram a eternidade nos pés e tempo e espaço para desenvolver o seu melhor futebol. Mas esse espirito livre e romântico do jogo já tinha os dias contados antes do Mundial e depois o desmoronar do projecto brasileiro acabou por ser inevitável. O Mundial de 74 confirmou a mudança de guarda no histórico duelo com a Holanda e quatro anos depois o Brasil esteve perto de chegar à final de uma forma timida e absolutamente imerecida. Tanto Zagallo como Coutinho continuavam a acreditar que os individuos superavam o sistema mas ambos tentaram instituir um sistema europeizado que acabou por ir contra o próprio modelo de jogo individual dos seus principais astros. Numa década onde a qualidade do futebol brasileiro decaiu, a selecção foi incapaz de aguentar o futebol mais musculado, temporizado e, sobretudo, pressionante, dos conjuntos europeus. Parecia inevitável que o Brasil procurasse uma fórmula que permitisse recuperar o tempo perdido. Mas havia também uma imensa nostalgia com os dias gloriosos do Tri que ninguém queria perder. Telé Santana, então maestro do Fluminense, chegou a Espanha em 1982 com o modelo ideal na sua cabeça. Um modelo que não funcionou mas que iria forçosamente condicionar o futuro do futebol brasileiro nos 30 anos seguintes.

 

O Quadrilátero Mágico de Santana resumia os principios da geração de 70 (jogam os melhores jogadores com total liberdade) com a aplicação do ideário do Futebol Total (pressing, movimentação no terreno de jogo, verticalidade e velocidade).

O sistema táctico idealizado pelo brasileiro acentava num claro 4-2-2-2 abdicando totalmente do jogo de extremos, uma ideia já defendida por Maslov e Ramsey nos anos 60 e que Zagallo adaptou ao transformar dois avançados, Jairzinho e Rivelino, em falsos extremos. Em 1982 o futebol brasileiro tinha uma grande variedade de médios centro e uma profunda escassez de dianteiros de renome. Em lugar de emular Zagallo, o técnico nacional optou por dar total liberdade a Sócrates e Zico, com Serginho e Éder à frente e Toninho Cerezo e Dirceu como médios mais recuados. As alas eram entregues a dois laterais rápidos, na escola de Nilton Santos, Leandro e Júnior que tinham a função de abrir o campo e cercar as defesas contrárias. Um modelo que garantia pressing no miolo com um quarteto de luxo, dois dianteiros móveis (que só jogaram porque Careca, lesionado, e Dinamite, fora de forma, não estavam em condições) e laterais ofensivos. O plano resultou na fase de grupos (com Falcão a "roubar" o posto a Toninho) e a vitória clara sobre a Argentina deu a sensação de que a equipa tinha encontrado o equilibrio necessário. Não foi assim.

Contra a Itália o sistema bateu o individuo e marcou o fim de uma era. O Brasil nunca soube controlar os tempos do jogo, viu-se prejudicado pela concentração massiva de jogadores no meio-campo e deixou as alas abertas às investidas de Cabrini e Tardelli. A derrota significou o fim do futebol-arte brasileiro (nunca mais repetido a esse nivel) e reforçou a ideia da europeização do jogo. No entanto, o 4-2-2-2 manteve-se como o santo graal. Quatro anos depois Santana repetiu o esquema e voltou a fracassar frente a uma equipa com um esquema táctico similar, a França, nos penaltys. Em 1990 Carpeggiani decidiu emular o billardismo argentino e fracassou ainda mais estrepitosamente levando o seu sucessor, Carlos Alberto Parreira a regressar ao 4-2-2-2. Com Jorginho e Branco nas alas, Dunga e Mauro Silva no miolo, Bebeto e Romário no ataque e atrás de si uma dupla móvel de criativos, Zinho e Mazinho. Uma equipa sem brilhantismo mas com a eficácia europeia que faltou aos génios de 82. O sucesso do Quadrilatero levou Zagallo, o homem que tinha liderado a geração de 70, a não mudar no esquema para 98, trocando Romário por Ronaldo e Zinho e Mazinho por Rivaldo e Leonardo. A equipa brasileira voltou a uma final mas saiu derrotada, por uma França que soube anular o 4-2-2-2 ocupando o meio-campo de forma mais organizada num 4-5-1 letal. Scolari voltou ao billardismo (e com sucesso porque, tal como o argentino, contou na frente com um jogador inspirado, Ronaldo) mas Parreira decidiu recuperar o Quadrilatera para o Mundial de 2006. Um erro absoluto porque emulou o ideário de 1982 (grandes jogadores, total liberdade, desorganização táctica) e não o de 1994. O falhanço levou os brasileiros a questionar a eficácia de um modelo que, para o bem e para o mal tinha moldado o futebol brasileiro mas quando Dunga decidiu repetir a dose em 2010, com Robinho e Fabiano diante de Kaká e Elano que por sua vez jogavam com Melo e Gilberto a proteger a medular, o Brasil entrou em desespero. O insucesso da campanha do escrete canarinho significou também o fim do Quadrilatero. Mano Menezes entendeu que não havia nenhuma possibilidade de alterar o ciclo vicioso sem abdicar de uma profunda mutação táctica. O técnico apostou num 4-2-3-1, recuperou o jogo de extremos com Robinho, Neymar ou Lucas e na figura solitária do ponta-de-lança, tão de voga na Europa. Mas nem isso lhe valeu, talvez por culpa mais dos rostos do que, propriamente, do sistema.

 

A metamorfose táctica do país que inventou o 4-2-4, explorou o 4-3-3 e consolidou o 4-2-2-2 continua agora numa normalização com o resto do planeta futebol em que o homem passa a ser apenas parte da engrenagem táctica. A falta de tempo e espaço no futebol de alta competição acabou com o espirito malandro dos grandes "malandros" brasileiros que durante anos fizeram a delicia do público. Hoje não há tempo nem paciência para fenómenos individuais se não existe antes e depois uma forte contundência colectiva. O Brasil, o mais individualista dos amantes do futebol, ainda não conseguiu verdadeiro unir método e homem num só esquema. Perdeu a magia de antes, a eficácia de antes e o ritmo cadente de titulos de antes. O que ainda não perdeu foi o sonho utópico de juntar a mestria dos génios individuais com as necessidades tácticas do futebol moderno. Talvez algum dia o escrete canarinho descubra o que todos já desistiram de procurar...



Miguel Lourenço Pereira às 14:16 | link do post | comentar

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Ya existe Avenida Eusebio, Estadio da Luz; NO EXIS...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO