Quinta-feira, 28 de Maio de 2009

 

Se hoje decidisse retirar-se do mundo do futebol, Josep Guardiola seria o treinador mais eficaz de todos os tempos. No seu primeiro ano como técnico principal o treinador catalão venceu tudo o que havia para ganhar, tornando o seu Barcelona no primeiro clube espanhol a vencer as três competições mais importantes do ano. Mais, juntou-se ao restrito clube de cinco clubes (Celtic, Ajax, PSV e Man Utd) que foram capazes de o fazer. E tudo quando há um ano andava pelos campos da III Divisão B do futebol espanhol a treinar a equipa B do Barcelona. Depois de ter bebido a filosofia do seu maestro, o holandês Johan Cruyff que o lançou aos 16 anos para, o jovem que aos cinco anos era apanha bolas no Camp Nou é hoje a personagem do ano do mundo do desporto. Um autentico génio precoce, dentro e fora das quatro linhas.
 
Quando Cruyff chegou ao banco do Barcelona decidiu remodelar por completo a concepção de jogo e formação do clube catalão. Aplicou o 3-4-3 na equipa principal e obrigou que todas as equipas das camadas jovens jogassem sob a mesma metodologia. A ideia era preparar um jogador desde novo para poder integrar-se facilmente na primeira equipa. Assim nasceu o Dream Team e assim nasceu a fama de La Masia, o centro de formação do Barça. Foi daí que em 1991 o técnico holandês resgatou um jovem prodígio, que de pequeno fazia de apanha bolas no Camp Nou e era um autêntico fanático blaugrana. Deu-lhe o número 4 e mandou-o pautar o jogo de uma equipa que nascera para fazer história e que estava composta por vedetas internacionais (Koeman, Romario, Stoichkov e Laudrup) e espanholas (Ferrer, Bakera, Goikochea, Zubizarreta, Salinas, Amor, Begiristain, Eusébio). O lance arriscado de Cruyff foi um risco calculado porque o holandês sempre soube o que fazia. Josep “Pep” Guardiola sempre se adiantou ao seu tempo. Lia o jogo do primeiro ao último instante como ninguém e em campo era a voz do treinador. Entre passes curtos e desmarcações rápidas, Guardiola serviu de bússola para o Dream Team que marcaria o futebol europeu da primeira metade dos anos 90. Tecnicamente perfeito, tacticamente superior a qualquer outro, Guardiola passou sempre desapercebido, muito por culpa da sua humildade, mas também por não produzir os lances espantosos dos seus colegas do ataque. Venceu várias ligas, taças e provas europeias com o Barcelona antes de decidir partir para Itália e experimentar um futebol ainda mais táctico. Por Roma não teve sorte e em Brescia explicou melhor o seu futebol mas acabou acusado pela justiça italiana de se dopar. No mesmo dia entrou nos tribunais e seis anos depois ganhou o julgamento. Foi a sua última vitória como jogador.

 

Terminada a carreira de forma aparentemente desapercebida, aquele que foi provavelmente o mais genial jogador espanhol da história, decidiu que devia contar a pensar o jogo, mas agora sentado no banco. Voltou a casa e sentou-se com a equipa B a preparar as bases de futuro. Queria tempo para recuperar o ideal perdido de Cruyff e aperfeiçoa-lo aos tempos modernos. Descobriu uma série de jovens jogadores talentosos cheios de sede de vitórias e quando Joan Laporta, presidente à beira da destituição depois de duas épocas desastrosas da outrora equipa maravilha de Rijkaard, o convidou para treinar a equipa principal, agarrou a oportunidade com as duas mãos. Ninguém, absolutamente ninguém, acreditava no sucesso do técnico. Inexperiente, incapaz de lidar com as estrelas do balneário, demasiado tecnicista, ouviu-se de tudo dentro e fora do clube. Guardiola guardou o que ouviu e continuou em frente. Fez com que Deco e Ronaldinho, consideradas as ovelhas negras, saíssem e tentou fazer o mesmo com Etoo. Acabou por reconciliar-se com o avançado oferecendo-lhe a oportunidade de fazer a época da sua vida. Cumpriu!

O Barça de Guardiola até começou mal. Foi o pior arranque da história. Foi uma lição. O treinador percebeu com quem podia contar e que sistema de jogo aplicar. Não arriscou tanto como Cruyff e manteve as bases do 4-3-3 das últimas épocas, mas com nuances fundamentais que fizeram da sua equipa a melhor da Europa.
 
O lateral direito Daniel Alves era responsável de todo o corredor, fazendo muitas vezes que a equipa se desdobrasse num 3-4-3 ofensivo, com o veterano Puyol, a revelação Pique (a grande sensação da temporada) e o francês Abidal fechassem atrás. No meio campo Guardiola pôde recuperar o seu estilo de jogo preferido: o toque e as transições rápidas com a bola colada aos pés, soltando-se entre os vários elementos do carroussel. Para tal beneficiou do talento de dois génios da casa, Xavi e Iniesta, que vinham de ganhar o Europeu a praticar exactamente esse estilo de jogo, e para protege-los utilizou dois tanques africanos (Toure e Keita) e o primeiro jovem que promoveu à equipa principal, Sérgio Busquets filho do seu antigo colega, Carlos Busquets.
O ataque demolidor do Barcelona (foi a equipa que mais golos marcou em todo o ano nas distintas provas) resultava do trabalho do meio campo, mas também do talento do trio de executantes. Guardiola ressuscitou Thierry Henry, deu outra oportunidade a Samuel Etoo e beneficiou do génio vagabundo de Messi, que solto da banda por Alves podia descair para o centro provocando desequilíbrios constantes. E fez a diferença!
  

Guardiola controlou egos, criou uma dinâmica de grupo e reforçou o espírito de equipas. Acabaram as largas concentrações com a equipa a viajar no dia do jogo, sem estágios. Reforçou o papel familiar e lançou vários jovens (só este anos se estrearam Busquets, Pedrito, Victor Sanchez, Thiago, Muniesa, Xavi, Olier) e sabe que tem mais alguns trunfos na manga para a próxima época. Conhece a cantera de Barcelona como ninguém e vive o clube com uma paixão louca que o faz saber tudo sobre todos. Ao mesmo tempo que é duro com os jogadores (impõem multas por atrasos de 1 minuto) também dá sempre o braço a torcer quando vê necessário. Com a imprensa é de uma humildade arrasadora e foge sempre do protagonismo. É um técnico distinto, um homem que sabe estar e sabe quando tem de aparecer para dizer presente. E agora sabe que colocou a fasquia mais alta na história do futebol para um técnico. Vencer tudo no primeiro ano significa que a colina é para baixo. Guardiola tentará o impossível. Sabe que cairá, mas sabe também que saberá pôr-se de novo de pé. Quer instaurar no Barcelona um longo mandato onde o espírito culé sobressai-a sobre os demais.

 

Está preparado para perder e por isso sabe que tem fortes probabilidades de voltar a ganhar!

 



Miguel Lourenço Pereira às 11:39 | link do post | comentar

2 comentários:
De Bruno Pinto a 28 de Maio de 2009 às 12:55
Sempre fui um apaixonado pelo futebol inteligente e esteticamente atractivo de Guardiola. Era a classe pura em forma de futebolista. Tenho uma camisola dele, que comprei numa das vezes que fui a Espanha. Agora como treinador, as suas ideias de jogo parece que se mantêm. Começou em grande com a 'tripleta' e promete não ficar por aqui. O futebol agradece.


De Miguel Lourenço Pereira a 29 de Maio de 2009 às 22:28
Há treinadores que marcam uma geração. Tenho a leve sensação que Guardiola marcará a minha!


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