Quarta-feira, 13 de Julho de 2011

Pode um clube prender um jogador como se fosse um centro de detenção? Em Itália sim. E Federico Marchetti sabe-o bem, muito bem. Um ano de calvário que chega ao fim. Um ano perdido numa carreira absolutamente promissora. Em Roma o guardião que a Itália aprendeu a ver como sucessor do mítico Buffon vai voltar a sentir-se futebolista. Mas nunca esquecerá a sua prisão na Sardenha. A prisão de um futebolista que ninguém quis denunciar.

Quando Buffon não aguentou mais com as dores nas costas que se arrastavam à semanas, Marcello Lippi mandou chamar o seu suplente.

Marchetti, Federico Marchetti, entrou em campo com a determinação dos grandes jogadores. De um jogador que conhecia bem a sombra de gigante que o esperava no momento em que Buffon deixasse o posto que lhe pertencia por direito próprio há quase uma década. Talvez não imaginasse que fosse tão cedo mas na sua vida as coisas nunca correram como previsto. A Itália realizou o seu pior Mundial de sempre mas a culpa não foi do guardião de 27 anos. Tinha-se estreado um ano antes com a Azzurra e depois só tinha disputado um total de cinco jogos. Era carne para canhão. Mas portou-se como um guerreiro. Saiu da África do Sul com a cabeça erguida e a cotação em alta. Não imaginava o pesadelo que o esperava.

Quando voltou de férias Marchetti deu uma entrevista que lhe ia mudar a vida. Depois de declarar que pretendia abandonar o Cagliari para juntar-se a um clube com outros objectivos (tinha a Sampdoria na cabeça), o guardião tornou-se persona non grata.

No primeiro amigável da temporada foi assobiado e acossado pelos adeptos locais. O presidente, o sempre polémico Massimo Cellino, anunciou que deixaria sair o jogador em público mas secretamente rejeitou toda e cada uma das propostas. Marchetti passou de estrela do Mundial a terceiro guardião atrás de Agazzi e Pellizoli, veteranos do clube. Treinou sozinho, ficou fora de todas as convocatórias e viu mesmo o técnico, Roberto Donadoni, convocar guardiões dos juniores na ausência de algum dos seus dois colegas da primeira equipa. Até 31 de Agosto forçou de todas as forças sair do clube com quem tinha assinado no ano anterior depois de chegar do AlbinoLeffe. Não conseguiu. A partir desse momento decidiu-se a enfrentar o clube na justiça. Demorou oito meses mas ganhou a batalha. Agora, em Roma, é um jogador livre.

 

Marchetti está habituado a cenários complexos.

Começou a carreira no Torino e depois de uns anos entre empréstimos exigiu que o clube o deixasse sair. Os granota não facilitaram a saída mas entretanto o clube faliu, foi despromovido e o guardião teve direito à carta de liberdade. Assinou pelo AlbinoLeffe, equipa da Serie B, e no segundo ano ao serviço da equipa venceu em 2007 o prémio ao melhor guarda-redes da segunda divisão italiana. As exibições chamaram a atenção do Cagliari que o lançou para a ribalta levando mesmo Buffon a elege-lo como seu sucessor natural. Depois de dois anos ao mais alto nível na Sardenha, chegou o sonho do Mundial. E o posterior pesadelo prisional a que foi sujeito.

O guardião sobreviveu em 2005 a um terrível acidente de automóvel. Viajava com três amigos e dois deles faleceram no acto tal foi a brutalidade do choque. Marchetti esteve entre a vida e a morte. Recuperou e aqueles que imaginavam que a sua carreira desportiva estava acabada dificilmente imaginavam que cinco anos depois ele seria o guardião de moda da Serie A. Depois do sofrimento e da luta contra a morte, Marchetti encarou o duelo com o Cagliari como uma questão pessoal. Denunciou o clube por mobbing laboral (como fizera Pandev com a Lazio há dois anos) e depois de julgamentos e recursos conseguiu uma choruda indemnização. O clube foi igualmente forçado a facilitar a transferência para a AS Lazio, clube que acaba de perder o internacional uruguaio Muslera. Depois de um ano parado muitos estão curiosos para ver até que ponto Marchetti se encontra em forma. No ano em que esteve fora do activo surgiram outras promessas das redes italianas do jovem Emiliano Viviano do Bologna a Salvatore Sirigu do Palermo sem esquecer Antonio Mirante do Parma.

 

A luta para a sucessão de Buffon aperta-se ainda mais num país com enorme tradição de guarda-redes de máximo talento. No entanto Marchetti terá um prazer especial caso volte a vestir a camisola da Azzurra. Pela segunda vez encontrou-se com um drama pessoal fortíssimo e pela segunda vez venceu. Certamente que a confiança com que entre em campo a partir de Agosto será difícil de igualar por qualquer comum mortal...

 



Miguel Lourenço Pereira às 12:35 | link do post | comentar

2 comentários:
De manuel antonio a 17 de Julho de 2011 às 00:59
é mesmo triste quando ter um passe de um jogador é o mesmo que o tratar como gado... se fosse so este rapaz! Sabemos bem de muitos casos no futebol portugues, infelizmente em qualquer um dos grandes...


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Julho de 2011 às 13:33
Manel,

O futebol italiano utiliza habitualmente este tipo de jogadores para dar como exemplos aos contrários. Não é por acaso que só em Itália existe o modelo de co-propriedade onde um jogador fica até 3 anos sem saber a que clube pertence. Quando vem um outro clube a contrata-lo tem de negociar com dois, em vez de um clube. De loucos.

um abraço


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