Segunda-feira, 11 de Julho de 2011

Hoje cumpre-se um ano. Um ano do dominio imperial. O futebol espanhol vive a sua era mais dourada e como os célebres lanceiros de Tercios de Carlos V e Filipe II, são a inveja do Mundo. Em três anos Espanha soube onde tinha de tocar para revolucionar o futebol mundial. Uma supremacia incontestável de um modelo de jogo que faz escola e recolhe admiração em todo o Mundo. Um Império dominante, autoritário e sem fim à vista. Hoje faz um ano em que Espanha acreditou definitivamente em si mesma. Um ano sem maldições que quebrar. Um ano de glória.

Foi sofrido. Desnecessariamente sofrido. Injustamente sofrido.

O jogo violento dos holandeses deveria ter acabado antes, com o primeiro vermelho a De Jong ainda o árbitro não tinha apitado para o intervalo. Mas Howard Webb contemporizou e os holandeses abusaram. Fisicamente deram cabo dos espanhóis. Mentalmente nunca os conseguiram vergar. Casillas foi o salvador de sempre, com dois desvios providenciais. O mesmo que parou o penalty com o Paraguai, que defendeu o remate de Ozil com a Alemanha. Ele queria subir àquele palco com um sorriso desconhecido. Iniesta fez-lhe o jeito naquele seu estilo simplório e profundamente humano. Marcou o golo que fez 48 milhões de espanhóis chorarem de alegria (e muitos estrangeiros aplaudirem de admiração). Nessa noite Madrid esteve silenciosa. Na manhã seguinte nem um sinal de euforia, apenas a sensação de alivio. A sensação de quem não tem de olhar para os outros de cabeça baixa. Desde há um ano que Espanha é campeã do Mundo de futebol. E essa estrela, que jornais portam orgulhosos na capa, nunca ninguém lhes poderá tirar. Essa é a grande conquista histórica, a grande licção. O Império adormecido acordou e não tem nenhuma intenção de voltar a dormir. O Império espanhol onde o sol nunca se punha transformou-se no Império espanhol futebolistico. O dominio clubistico de Barcelona, o poderio mediático do Real Madrid, as vitórias europeias de Sevilla e Atlético de Madrid, a admiração à volta do modelo do Villareal, o triunfo das selecções de formação. E esse titulo Mundial.

Em três anos Espanha soube o que era sentir-se grande. De verdade. Emulou um feito só logrado previamente pela RF Alemanha. Em 2008 Luis Aragonés pegou numa equipa em que ninguém acreditava. De tal forma que o técnico estava despedido à partida. Pegou nesses bajitos e disse-lhes que a bola era dele e com a bola o que eles faziam mais ninguém era capaz de fazer. Fê-los, como disse Xavi Hernandez vezes sem conta, acreditar neles próprios. Quando a bola começou a rolar, Espanha acreditou. "Podemos" ouvia-se em todo o lado. E puderam mesmo.

Ao triunfo da geração de Aragonés, esse tiki-taka ofensivo, com um jogo pensado no miolo - onde só Senna tinha ordens para manter a casa limpa - e com um jogo sem extremos e muita troca de bola no miolo, seguiu-se a geração de Del Bosque. O histórico técnico do Real Madrid (a sua saída é ainda hoje uma das páginas mais negras da história do clube merengue) herdou o trabalho de Aragonés e aproveitou-se do trabalho de Guardiola. Recrutou Pedro, Busquets e Pique para uma equipa já de si de primeiro nivel. Soube ser o gestor de balneário que Espanha precisava. Ajustou tacticamente a equipa, deu-lhe equilibrio no miolo com as entradas de Busquets e Alonso por Senna e entregou a Xavi e Iniesta a batuta. Chegou sob forte pressão à África do Sul e com a derrota com a Suiça perdeu margem de manobra. Foi honesto com todos. "Agora temos de ganhar todos os jogos". E ganharam, até à final. Todos. E acabaram com a maldição espanhola.

 

O titulo mundial espanhol é incontestável e espelha bem a autoridade com que os ibéricos dominam o panorama internacional.

Mas é apenas o elemento mais mediático de uma realidade muito mais profunda e esclarecedora. Espanha está a viver agora o fruto de um fortissimo investimento realizado a partir dos anos 90. O sucesso das Olimpiadas de Barcelona trouxe um ar de modernidade a um país ainda atado aos tradicionalismos regionais e traumas dictactoriais. A fortissima aposta no turismo e no desporto abriram a Espanha ao mundo e o mundo a Espanha. Os jogadores encontraram centros de formação de primeiro nivel (com La Masia e Lezama à cabeça), os clubes viveram uma bonança finaceira única e o conceito de selecção comum começou a ganhar força face à disputa de poder clubistico que se vivia eternamente no balneário. Espanha apostou fortemente na educação dos atletas (e esse dominio é visivel em todos os desportos onde entra) e na sua mentalização para uma nova realidade. O grande triunfo espanhol é mental, de atitude. Acabou-se a "furia", acabou-se o muro das lamentações. Esta geração, a dos Xavi, Casillas e companhia, foi educada para vencer. E para vencer jogando bem, sendo fiel à sua identidade.

Foi um processo longo (um processo que Portugal também começou e depois desaproveitou) e trouxe alguns dissabores. Mas quando a ideia amadureceu, quando os primeiros filhos da nova Espanha chegaram à idade mental e fisica ideal, Espanha estava destinada a quebrar a malapata. Em 2008 a maldição dos Quartos, a maldição dos penaltys e a maldição de Itália chegaram num só jogo. Com frieza Espanha superou o desafio. Desde essa noite o país já sabia que seria campeão da Europa. Dois anos depois, na África do Sul, a derrota no jogo inaugural doeu mas permitiu aos jogadores (e a del Bosque) mostrar que o desnorte porque se guiou o desporto espanhol tinha desaparecido. Espanha tornou-se uma equipa mais pragmática, mais italianizada, sem perder o seu ideário táctico e foi superando equipas que se limitavam a defender e esperar, esperar e esperar...sem perder a paciência foi resolvendo os jogos, nos últimos minutos, aqueles onde as pernas falham mas a cabeça tem de estar desperta. O Império faz-se de soldados corajosos e generais astutos. Espanha juntou os ingredientes e transformou-se numa equipa praticamente invencivel.

Mas essa realidade, esse processo de crescimento, deixa antecipar uma hegemonia longa e autoritária. Não que Espanha vença todas as provas ad infinitum (que a este ritmo é possível). Mas que tenha criado os mecanismos para manter-se na elite competitiva mundial. O triunfo espantoso da Rojita, a selecção de sub21 com um superlativo Thiago secundado por um leque de jogadores que teriam lugar na maioria das selecções do Mundo, seguido dos sucessos recentes das selecções mais jovens, deixam antever que o processo de maturação segue por um bom caminho. Quando se vá Casillas haverá De Gea. Quando digam adeus Puyol e Capdevilla, há Botia e Monreal. Quando Xavi se reforme, está aí Thiago. E Martinez, Herrera, Muniain, Adrian, Mata, Deulofeu, Rafinha, Sergi Robert, Sarabia, Femenia, Iago, Montoya, Morata e quantos mais saiam dessa máquina de produção espantosa em que se tornou o futebol espanhol.

 

Depois de vencer Europeu e Mundial, o sonho agora é prolongar o ritmo de triunfos e alcançar uma hegemonia histórica. Nunca nenhum país conseguiu vencer três provas consecutivas desse calibre. E no próximo Campeonato da Europa o favoritismo espanhol é inquestionável. A equipa contará com os seus melhores jogadores na máxima forma, na idade perfeita. E como demonstrou o sucesso recente dos sub21, com um fundo de armário notável. O império espanhol ameaça prolongar-se pela eternidade. Sempre que a bola continua a fluir com naturalidade, os jogadores deixem de lado os egos de estrelas e o pastor de homens que é Del Bosque saiba manter a nau na direcção certa é impossível apostar contra esta equipa. Espanha vence, convence e ensina a cada jogo que disputa. Oferece variáveis de jogo, explora realidades opostas, encontra caminhos invisiveis e consagra-se com a humildade dos campeões. Como sucedeu com a França de virar de século e como a Alemanha dos anos 70 ninguém questiona uma superioridade tão evidente porque ver jogar Espanha é entender as multiplas realidades do futebol. Em 2012 não há maldições a quebrar. Há um império por eternizar. E de impérios os espanhóis entendem algumas coisas.



Miguel Lourenço Pereira às 10:46 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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