Quinta-feira, 7 de Julho de 2011

Depois dos técnicos low-profile e da aposta na formação o Sporting procura uma fórmula mágia que permita recuperar o atraso considerável face aos seus historicais rivais na luta pelo titulo. O leão reinventa-se com os nomes responsáveis pelos últimos titulos de volta aos escritórios de Alvalade e com um técnico que quer vencer o seu primeiro titulo para confirmar-se, também ele, como um dos grandes de Portugal.

A Domingos Pacicência falta um titulo. Ao Sporting também, há muito tempo. Demasiado.

Hoje falar do Sporting é questionar a própria ideia de Três Grandes que fez parte da cultura do futebol português durante 80 anos. Afinal, os leões foram responsáveis pelo delapidar do seu projecto desportivo, pela falência do seu ideário económico e pela falta de ideias e projecção para colmar o imenso buraco que se abriu entre eles, o renascido SL Benfica e o constante FC Porto. Na última década os leões e as águias partilham o mesmo número de titulos (2 contra 7 do FC Porto) mas a distância emocional entre ambos os clubes nunca foi tão grande. Mesmo no largo hiato de 19 anos sem vencer um troféu, nunca o clube de Alvalade deu tantas mostras de impotência e desnorte. A saída de Paulo Bento, responsável em grande parte pelo paliar de uma situação que se agravava às escondidas dos próprios adeptos, precipitou a queda do clube. A ascensão do Braga, a emular o logrado pelo Boavista há dez anos atrás, condenou ainda mais os leões ao exilio de grandeza que sempre almejaram. A situação critica exigia medidas desesperadas. Um murro na mesa. Uma autêntica reinvenção.

Luis Duque, o homem por detrás do sucesso da era Dias da Cunha, tornou-se na aposta pessoal de Godinho Lopes, o presidente eleito em Abril que garantia, de certa forma, uma especie de status quo directivo longe de uma presidencia mais populista (e talvez mais interessada em conhecer o real estado das contas do clube). Num clube com problemas financeiros tão graves como aqueles que vive o clube verdi e branco é surpreendente descobrir que os leões são um dos clubes europeus mais activos no mercado de transferência. Sem os milhões do Málaga ou da Juventus, o Sporting já conseguiu os serviços de onze novos jogadores e esperam-se novidades nos próximos dias. O plantel à disposição de Domingos estará mais perto da casa dos 30 atletas do que dos recomendáveis 20 nomes. Um problema de escoamento que terá, forçosamente, de ser resolvido nos próximos dias e que dará tantas ou mais dores de cabeça à equipa directiva - onde também está Carlos Freitas, que o técnico conhece bem de Braga - do que a chegada de ilustres desconhecidos que o técnico leceiro terá de saber potenciar.

 

Depois de dois anos desportivos para esquecer Domingos Paciência surge como uma lufada de ar fresco.

Não tem o baixo perfil de Carvalhal, Couceiro e Paulo Sérgio e traz consigo a fome do primeiro titulo, algo que lhe escapou nas suas duas notáveis épocas em Braga. Domingos, técnico forjada na escola das Antas, traz também organização defensiva (a sua principal arma no Minho), inteligência de jogo e, sobretudo, a velocidade que tem faltado a um Sporting sempre previsivel, dependente e inofensivo.

Depois de anos e anos a apostar quase exclusivamente na formação (com incursões desastrosas no mercado internacional), o Sporting de Domingos terá pouco impacto do trabalho desenvolvido em Alcochete e será, sobretudo, um work in progress entre o técnico e as jovens promessas contratadas a um preço de mercado acessível (mas mesmo assim incomportável para um clube que, supostamente, vive à beira da bancarrota há largos anos).

Se Turan, Arias e Carrillo são promessas com muito caminho pela frente, já do bulgaro Valeri Bojinov, uma das grandes promessas do futebol europeu desde há vários anos e, sobretudo, de van Wolfswinkel espera-se golos. Especialmente no caso do holandês, que no modesto Utrechet rompeu as estatisticas com um faro de golo apuradíssimo. Poucos dianteiros na Europa se dão tão bem com as balizas contrárias como o dianteiro holandês o que numa equipa onde as restantes opções de ataque são Djaló e Postiga, dois dianteiros reconhecidos pela pouca atracção que têm com o golo, é de se agradecer. Mas se Domingos Paciência foi avançado (e dos bons) e sabe quanto vale um golo, a sua faceta de treinador tem evidenciado mais ainda o quão importante é não sofrê-lo. É na defesa que o nivel do Sporting deverá melhorar a olhos vistos. Evaldo, depois de uma época para esquecer, reencontra-se como o técnico que o potenciou. Onyewu e Rodriguez são duas figuras de peso para dar solvência e segurança defensiva a Rui Patricio (ou a Marcelo Boeck, se se confirmam os rumores da saída do jovem guardião para o Atlético Madrid). E a isso há que juntar ainda Daniel Carriço, capitão e eixo central do projecto leonino, que pode ocupar posições na defesa e meio-campo onde estará acompanhado por André Santos (outro dos poucos sobreviventes de Alcochete) e os recém-chegados Schaars, Rinaudo e Luis Aguiar (outro homem de confiança do técnico).

No processo de chegadas e saídas (que não deve ficar por aqui), a grande jogada da dupla Duque e Freitas está na relação com os elevados salários que alguns dos jogadores do projecto anterior auferiam. Pedro Mendes, Maniche, Abel, Zapater, Grimi e companhia têm guia de marcha e a sua troca por jogadores mais novos (e com salários bem inferiores) têm por objectivo reduzir directamente os gastos do clube com a carga salarial do plantel. Uma ideia que entra no espirito do fair play financeiro da UEFA mas que precisa de sucesso no terreno de jogo para funcionar.

 

O grande trunfo do Sporting está no seu próprio insucesso recente. Dos leões poucos esperam que bata a pé a um Benfica hiper-reforçado e um FC Porto que acaba de coroar-se como um dos reis da Europa. Talvez por isso - e provavelmente pela fortissima aposta na Liga Sagres em detrimento das provas a eliminar - este Sporting seja um sério candidato ao titulo 2011/12. Um projecto que procura reinventar-se entre juventude, velhas amizades e um ideário que se assemelha, mais do que nunca, á equipa que quebrou outro longo jejum, há doze anos atrás!



Miguel Lourenço Pereira às 06:56 | link do post | comentar

2 comentários:
De PTM a 7 de Julho de 2011 às 17:44
Olá Miguel já queria ter comentado ontem no post do Jorge Mendes mas não tive tempo, aproveito agora porque gosto muito mais de falar do Sporting.

Concordo contigo quando falas do quão perto do precipício que o Sporting esteve nestes dois últimos anos, mais que não ganhar o facto de ninguém acreditar no facto de que seria possível matou muito do amor próprio de ser sportinguista, no entanto, e como tu já escreveste (senão me engano no outro projecto que tinhas) não concordo que o Sporting alguma vez (como qualquer outro dos) poderá ser "afastado" dos 3 grandes. O fantasma da "belenização" é no meu ponto de vista uma realidade muito distante e digo-te isto porque e perdoa-me dizer isto, o Sporting é um clube diferente (para o bem e para o mal...)

Esse diferença vê-se em relação aos outros dois grandes portugueses, o Porto (não vou falar dos méritos -evidentes- nem de "outras" coisas) é um clube muito sui generis, diferente dos da capital. é um clube movido a vitórias que faz do ganhar a sua razão de existência, quando esta não existem - não tenho observado muito este facto, infelizmente - escudam-se no regionalismo e numa pseudo guerra norte vs sul que só existe no porto.
O Benfica construiu a sua mística (que lamento dizer, já não existe, muito como o Real Madrid) alicerçado num tempo em que não existia mass media, algo fantástico e terá sempre, grande peso no desporto português, mas que carrega sempre o fardo de ser o "glorioso" e digamos que não dá jeito o Porto estar sempre a ganhar, vivendo sempre no 8 ou no 80, tal como Portugal diga-se.

voltando ao Sporting, e para acabar desde já com a belenização, basta ver a deslocação a Madrid, com o clube já nas cordas e mesmo o ano passado em Glasgow ver cerca de 200 pessoas numa bancada no meio do frio a 20 e muitos pontos do primeiro e com um futebol abjecto, as pessoas não faltaram, quer me parecer que nunca faltará apoio a este clube.

falando deste novo sporting, e prefiro falar por pontos para ver se não me esqueço de nada.
- em relação à falência do projecto económico e da tão propalada ideia que o sporting não tem dinheiro, (não estou a dizer que não é verdade) mas a realidade é que qualquer clube portugues está na mesma situação que o sporting está a diferença é que o Sporting há 20 anos atrás era realmente um clube financeiramente saudável. O benfica terá sempre a marca Benfica para o salvar de qualquer calamidade e o porto era interessante debruçares-te como é que um clube que terá provavelmente facturado como nenhum outro a nível mundial não tenha saneado as suas dívidas (nem falando que estes clubes tiveram apoios muito maiores na construção dos estádios e dos centros de estágios)

-em relação ao peso da academia no plantel, é evidentemente menor este ano mas mesmo assim tem um peso incomensuravelmente maior que nos restantes rivais - neste ano contam-se para já Rui Patricio, Golas, Tiago, João Gonçalves, Carriço, André Santos, André Martins, Djálo - dando de barato que muito provavelmente André Martins e Golas não contem e que Tiago não seja um produto 100% Sporting o peso que o Sporting têm no outcome do futebol nacional é bem maior que nos outros grandes, e nunca foi referenciado enquanto isso, mesmo nos anos horribilis.

- em relação à qualidade deste ano, vamos a ver, são seguramente melhores que os do ano passado, mas não foi na qualidade individual que o Sporting pecou nestes últimos 5 anos. Não me parece que o Wolfswinkel vá marcar muitos golos mas o acréscimo de qualidade, espero colectiva, irá marcar a diferença com mais oportunidades de golo. Espero também que a principal diferença esteja no modelo de jogo onde se privilegie um futebol curto e de apoios sustentado com uma defesa forte como fez em Braga.

-as saídas, só demonstram a herança bettencourt. todos à excepção de Grimi foram contratados o ano passado e demonstraram ser, por uma razão ou por outra um total falhanço, mas o pior não foi o falhanço individual destes jogadores mas o falhanço completo da politica "vamos imitar o Porto porque ele ganha". o sporting conseguiu imitar o Porto nas piores características que o Porto tem e quando não se tem a estabilidade nem a qualidade é natural que as coisas não corram tão bem.

Obrigado por falares do Sporting espero que este ano seja o do leão


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Julho de 2011 às 08:34
PTM,

Em primeiro lugar obrigado pelo comentário, pelas visitas e espero ler-te mais vezes. É sempre um prazer escrever sobre o Sporting, espero que me dê mais motivos para isso durante a época.

Quanto ao que apontas, vamos por partes:

- Ser adepto de um clube é um problema quando esse clube está em baixo porque a atração parte também da vitória. Lembro-me de muitos jovens que se uniram ao Sporting aquando da sua última grande geração, de 1993-95 e que depois perderam o entusiasmo porque o clube, pura e simplesmente, não ganhava.
O futebol é um fenómeno evolutivo e há equipas grandes que perdem o estatuto por diversos motivos. Num país pequeno Portugal, como sucede com o Feyenoord na Holanda, por exemplo, é difícil que isso aconteça porque não há concorrência real estruturada, mas sim projectos pontuais no tempo como foi o Boavista e agora o Braga. Isso, em parte, salva o poder de influência do Sporting. Mas tal como o Torino, o Atlético ou o Tottenham, para apenas por 3 exemplos, o Sporting perdeu fora de portas muito do prestigio que tinha como "Grande". A grandeza mede-se em triunfos (que em Alvalade têm pecado por escassos há demasiado tempo) e por gerações que deixam marca, o que no Sporting, salvo a tal equipa de 93-95, também não tem sido um fenómeno regular. Como dizes bem o Benfica tem esse apoio popular da mesma forma que a Juve, o Liverpool e o Real, visível mesmo na derrota. O FCP, como o Barcelona ou o United é um fenómeno mais recente e baseado no sucesso e com forte inspiração regional. O Sporting é um híbrido, sem triunfos, sem grande apoio popular e sem uma forte imagem de marca que impacte. Sem isso, mais fora do que dentro, esse estatuto de grandeza corre sérios riscos de desaparecer, muito a meu pesar que sou um nostálgico para tudo.

- Quanto ao aspecto financeiro a diferença do Sporting para FCP e Benfica está nos anéis que já teve de vender. O Benfica, como dizes, tem uma marca muito poderosa mesmo nas horas baixas e o FCP é realmente um case-study que falarei a detalhe e que funciona exclusivamente com base no sucesso desportivo (vendas e presença na CL). O Sporting não tem já alguns anéis e o seu impacto mediático é muito inferior às marcas FCP e SLB para poder jogar ao mesmo jogo, tão arriscado, que tem arrastado o futebol português para o precipício.

- Quanto à cantera, o problema do Sporting é que forma os jogadores para que outros clubes desfrutem deles. Desse leque só Patricio, Carriço e Santos têm potencial para brilhar ao mais alto nivel e o Sporting vende talvez as suas estrelas demasiado cedo e a preço de saldo para o valor potencial, aproveitados e potenciados por outros clubes à posteriori.

- Acredito que van Wolfswinkel vai ser um elemento chave porque trabalho bem o colectivo, ao contrário do que fazia Liedson, um jogador decisivo mas muito individual. O plantel está mais bem estruturado, mais opções para Domingos e está feito de trás para a frente, como é recomendável. Falta saber a capacidade de adaptação de alguns nomes mas até em contratar rostos conhecidos, Domingos antecipou-se a esse problema natural e soube rodear-se de jogadores que podem oferecer-lhe o que os últimos técnicos não souberam sacar dos seus jogadores, um rendimento colectivo.

um abraço


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