Segunda-feira, 4 de Julho de 2011

A novela futebolística da silly-season desta temporada chama-se Cesc Fabregas. Uma novela tão supérflua e vazia como qualquer livro ligeiro que se leva para a praia e que se lê em diagonal. Ninguém questiona o talento do capitão do Arsenal mas transformá-lo num cavalo de batalha e num conflicto mediático é algo surpreendente tendo em conta que actualmente o jogador dos gunners não tem espaço no onze de Guardiola.

Quando um jornal conhecido pela sua militância fanática como é o Sport catalão anuncia uma mutação táctica para acomodar a chegada mais do que previsível de Fabregas ao Barcelona, começa a ficar claro que o problema é mais grave do que se poderia supor. É difícil imaginar um treinador que seja tão talentoso e perspicaz como é Josep Guardiola. Pensar que o treinador da equipa mais bem sucedida do futebol mundial dos últimos 20 anos irá mudar o desenho táctico que, precisamente, levou a essa supremacia, simplesmente para acomodar a um jogador, é por si só espelho do desespero mediático em que se envolveu nesta novela a sociedade blaugrana. Imprensa e clube não sabem que fazer com um jogador que é petição expressa do homem que ninguém se atreve, nem mesmo Sandro Rossell, a contrariar.

Guardiola é hoje o presidente de facto do FC Barcelona e poucos duvidam disso mesmo. Ao contrário de Cruyff, que sempre teve de viver com a sombra de Nuñez, o técnico de Santpedor controla o seu clube do topo à base com a autoridade concedida pelo sucesso indiscutível que teve desde que regressou ao Camp Nou. Um mandato presidencial oculto mas que tem definido, positivamente, o sucesso desta estrutura desportiva da qual ele é, de certa forma, o protótipo perfeito. No meio do seu mandato oculto, Fabregas tornou-se num tema nuclear. 

O jogador saiu do Barcelona de costas voltadas com a direcção de Joan Gaspart que se recusou a oferecer os valores que pedia para renovar contrato. Tal como Gerard Pique, o seu melhor amigo, escolheu Inglaterra para continuar o seu crescimento profissional sem nunca esconder a sua devoção pelo clube de origem. Em Londres foi o exemplo perfeito de como Arsene Wenger sabe pescar e trabalhar jovens promessas e rapidamente se tornou no capitão dos gunners. Mas desde que se tornou titular, Fabregas nunca soube o que era ganhar um troféu de nível com o Arsenal. Mais do que isso, nunca se tornou no jogador diferente que tantos esperavam dele, o estilo de jogador capaz de vencer, por si só, todas as adversidades. Cesc é bom, muito bom, mas é um jogador de colectivo, como seria de esperar de alguém que seguiu o ideário blaugrana ao longo da sua vida. Nunca se destacou como uma estrela individual e nunca se viu rodeado com um colectivo que partilhasse a mesma filosofia. Porque Denilson, Diaby, Flamini, Nasri e Song não são, propriamente, violinistas de excepção. Essa sombra sobre o seu sucesso profissional criou uma certa inimizade com o próprio público do Camp Nou que não parece gostar muito da ideia do regresso do jogador a casa. Um sentimento partilhado pela directiva oficial, a de Rossell, que preferia gastar a fortuna que está sobre a mesa - 40 milhões, mais coisa menos coisa - noutras posições e noutros mercados (a saber, o mercado brasileiro onde Rossell dá cartas). Mas é aí que entra a figura de Guardiola.

 

Guardiola é o espírito vivo da Masia e quer rodear-se de todos aqueles que partilhem o seu sentimento, antes de voltar a aventurar-se em trazer algum jogador, por muito bom que seja (leia-se Ibrahimovic) que não encaixe no seu ideário. E Pep é, sobretudo, um treinador de jogadores, dos seus jogadores, daqueles que cresceram com ele como idolo. Por isso permite que Milito se mantenha no plantel (ele é o baby-sitter de Messi para todos os efeitos), por isso valoriza jogadores como Pinto e Keita, as almas do balneário de portas para dentro. E por isso sabe que gastar dinheiro num jogador estranho ao ambiente do clube é algo que não vai com a mentalidade que defende o seu grupo de trabalho.

E nesse grupo estão todos os amigos de Fabregas, os seus antigos colegas de equipa (Piqué, Messi, Valdés) e aqueles a quem já ele admirava (Xavi, Puyol,Iniesta) quando dava os seus primeiros passos na Masia. Esse fortíssimo grupo de pressão tem feito de tudo nos últimos dois anos para forçar o regresso de Fabregas a casa. Independentemente da opinião da directiva (já Laporta preferiu apostar tudo em Villa do que em Fabregas) e do público, eles querem o seu companheiro de luta ao seu lado, independentemente de questões técnico-tácticas. E financeiras claro está.

Se isso é normal entre o plantel, o estranho é que o próprio Guardiola se deixe prender num problema que pode condicionar a própria evolução da sua quarta temporada, ele que pretende emular o feito de Johan Cruyff conquistando o Tetracampeonato no próximo mês de Maio. Todos sabem dos problemas de Fabregas com Vicente Del Bosque. O seleccionador espanhol, pessoa sábia, correcta e razoável a todos os niveis, confinou-o ao banco de suplentes ao não ver espaço para um jogador das suas características num meio-campo com Xavi, Iniesta e Busquets...o mesmo que encontrará em Camp Nou. O jogador do Arsenal, que com o 4-5-1 de Aragonés teve espaço para brilhar, sabe que o jogo do Barcelona acenta em Messi e na sua posição de falso nove que precisa do jogo de extremos (Pedro e Villa) para ser eficaz. Isso implica um meio-campo de três, o tal meio-campo de três onde Del Bosque não vê espaço para Fabregas. O capitão de um dos grandes da Europa equaciona, aos 24 anos, mudar para ser suplente?

Talvez, mas se a mesma situação lhe provoca mal estar com a selecção, onde joga de tempos a tempos, imagine-se uma rotina diária. Esquecendo a estapafúrdia ideia do Sport, a aposta num 3-4-3 cruyffiano (que o próprio Guardiola já descartou várias vezes, depois de aprender de Capello as licções sobre uma boa defesa de 4) que faria pouco sentido quando se tem Dani Alves e Gerard Pique na equipa (que transformam a defesa de quatro em defesa de três e dois com classe e soltura) então ficamos presos a esse desenho de tridente e à ausência de espaço para Cesc crescer. Mais ainda, o ainda jovem jogador do Arsenal competirá também com Thiago. Pode parecer uma comparação supérflua, até porque Fabregas é uma estrela internacional e Thiago um rookie de projecção. Mas não é dificil ver no MVP do Europeu de sub-21 talento para tornar-se, talvez, no melhor jogador do Mundo na sua posição e a sua maturidade desportiva pede tempo de jogo (em jogos importantes) e espaço de manobra. A chegada de Fabregas não só custa 40 milhões e uma possível temporada no banco de suplentes, também pode significar um problema para Thiago, estrela emergente que o Barcelona deveria saber cuidar. Um negócio que entra em confronto com a mensagem de ajuste financeiro do clube e o clima de tranquilidade que Pep Guardiola tem sabido transmitir.

 

Cesc Fabregas pode - e certamente o fará - ampliar o leque de opções numa longa e difícil temporada. Mas também poderá tornar-se numa bomba relógio pronta a explodir. Xavi é ainda peça fundamental na manobra da equipa. Busquets uma rocha inamovível e Iniesta o elemento mais desequilibrante, depois de Messi. Com a chegada de Fabregas e a ascensão de Thiago o Barcelona torna-se, mais ainda, a equipa mais poderosa do mundo a meio-campo. Mas também reedita um velho problema do seu eterno rival, o Madrid Galáctico que gastou milhões para acumular figuras no eixo ofensivo para depois ter de viver com os problemas de egos e as carências noutros sectores do terreno de jogo. No meio de tudo isto nada parece mais supérfluo do que a contratação de Fabregas. 



Miguel Lourenço Pereira às 11:20 | link do post | comentar

8 comentários:
De Pudget a 4 de Julho de 2011 às 13:49
As regras e prémios do TotoTuga já estão disponíveis. Quem quiser participar fique a saber mais em

http://contingentetuga.blogspot.com/2011/07/tototuga-as-regras-os-premios-diversao.html


De gil von doellinger a 4 de Julho de 2011 às 15:32
Porque não Fabregas no meio-campo no lugar de Iniesta e este a extremo, como já tantas vezes jogou, tanto no Barcelona como na selecção, no lugar de Pedro na ala? É a solução que perspectivo, vindo-se a confirmar a contratação de Fabregas. Thiago como alternativa principal ao meio-campo e Pedro como alternativa principal às alas. O Barcelona ganha qualidade no onze e no banco.


De Miguel Lourenço Pereira a 4 de Julho de 2011 às 16:06
Gil,

É perfeitamente possível, no entanto onde Iniesta mais desequilibra, até porque é onde melhor aproveita as "paredes" com Messi, é jogando de interior e a verdade é que o manchego tem mais "golo" que Cesc.

No entanto é uma das variáveis (e há várias) mas a questão está mais na natureza do projecto, na necessidade de gastar 40 milhões por um jogador que irá rodar entre posições (porque Pedro é um dos homens de confiança de Pep) e porque parece-me que se perde um pouco da clarividência que tem marcado a gestão de Guardiola.

Mas Cesc é um grande jogador, isso sem dúvida!

um abraço


De El Kun a 5 de Julho de 2011 às 09:56
Que texto anedótico! Todo o argumento se baseia na ideia de que Guardiola não mexerá na estrutura para acomodar um jogador, mas ignora o facto de Guardiola ter "forçado" mudanças de ano para ano. Com a troca de Eto'o por Ibra, primeiro, promovendo um 4-3-3 com um jogador menos móvel na frente, e na terceira época, com a inclusão de Villa, a passagem em definitivo de Messi para a posição 10 (e não falso 9, como tantas vezes se tem repetido), jogando praticamente em 4-4-2 losango. É de esperar, isso sim, que haja inovações a nível táctico este ano, quer venha Fabregas, quer não. As duas principais hipóteses são a defesa a 3, ao contrário do que crê, já várias vezes experimentada por Guardiola, ou a utilização de Iniesta como falso extremo, vindo para dentro para criar ainda mais confusão no meio. Fabregas, se vier, será bastante utilizado. Nunca será problema.

Depois, dizem-se coisas absurdas, como equiparar Denilson, Flamini, Diaby e Song a Nasri. Enfim, palermices. Dá-se a impressão de que Fabregas teve mais espaço com Aragonés do que com Del Bosque e isso também não é verdade. Fabregas não era titular na equipa de Aragonés. Jogou a final do europeu porque o Villa se lesionou e Aragonés optou por um 4-5-1. Em todos os outros jogos, o esquema foi o 4-4-2 clássico, com Villa e Torres na frente, em cunha. Por fim, achar que Guardiola é uma espécie de manda-chuva do clube é uma alarvidade. Basta ver como, com a chegada de Rosell, ficou sem alguns jogadores com quem pretendia contar, e basta ver como algumas contratações tem pouco o seu dedo. Fabregas é uma vontade de Guardiola desde o seu primeiro ano. Se vier, vem 3 anos atrasado. Se ele tivesse o poder que o texto afirma, já tinha vindo há muito mais tempo.

Enfim, muito disparate num só texto...


De Miguel Lourenço Pereira a 5 de Julho de 2011 às 12:30
El Kun,

Fico contente em ter-lhe alegrado o dia com tanto disparate. Pelo menos posso dizer que é reciproco, especialmente de quem fala com tanta propriedade e conhecimento de causa da estrutura blaugrana.

Lendo as entrevistas de Tito Villanova, que Guardiola nisso é muito prudente, é fácil perceber a mutação táctica do Barça, com o parentesis de Ibrahimovic, para tornar o onze numa equipa de mobilidade absoluta fiel aos conceitos do Futebol Total com uma dose extra de pressão a todo o campo. Claro que o Barcelona joga com 3 centrais, e com 2 defesas até, já o repeti aqui à exaustão. Mas joga assim com Alves como extremo e não como central, como aponta o Sport (não sei se o leu) e com Busquets a recuar prudentemente para permitir a Pique tapar os buracos que deixa o brasileiro. Com a bola nos pés o Barcelona muitas vezes actua num 2-3-5 ou num 3-3-4 sem nenhum complexo. Em ambos os esquemas Cesc aporta pouco ou nada de novo, não é Ibrahimovic (com o seu jogo atlético e fixo) nem Villa, um dianteiro moderno e extremamente móvel. É um decalque do jogo de Xavi, uns passos mais à frente. Já se falou aqui de Iniesta e muitas vezes o vimos de falso extremo. Nunca rendeu como ao nivel de interior, associado com Messi, mas se Guardiola o entender pode perfeitamente colocá-lo ali. E abdicar do golo de Villa ou do trabalho de Pedro, do qual é fã absoluto (e eu também). São opções.

Fabregas jogará porque Guardiola faz rotações e a época será longa. Mas não será titular se isso não significar abdicar de alguns dos principais conceitos que têm acompanhado Pep desde o principio: mobilidade, jogo aberto na linha lateral com defesas e dianteiros bem abertos flectindo para dentro e aproximação da segunda linha. Esses principios são os que Pep defende, e bem, e que com Fabregas no onze (sem Villa, sem Pedro, sem Alves ou sem Abidal, por exemplo) perdem. Ganha mais controlo de bola, está claro, maior circulação e maior remate de segunda linha. Mas o rosto da equipa será bastante diferente.

Quanto à restantes dúvidas, Fabregas nunca foi titular na selecção espanhola, mas o jogo da Espanha de Aragonés assemelhava-se muito mais a um 4-5-1 e não a um 4-4-2 com Villa a descair para um flanco, Torres no meio, Iniesta ou Silva/Cazorla a descair para outro e Fabregas, Xavi, Senna a pautarem o jogo pelo meio. Era um modelo mais ao gosto do jogador do Arsenal. Com Del Bosque chegou o 4-2-3-1, com Busquets e Xabi seguros na linha de meio campo e Fabregas, quando joga, está mais adiantado no terreno e perde em poder de associação, razão pela que se sente mais incómodo, o que é normal.

Com respeito a Guardiola, só um néscio pode acreditar que há outra pessoa que mande no clube blaugrana. Um pouco mais de informação e critério não lhe fazia mal nenhum porque até a imprensa catalã, sempre mais alerta do que possa imaginar, sabe qual é o bezerro a que tem de adorar.

cumprimentos!


De filomeno a 10 de Julho de 2011 às 12:14
Criticar hoy en día a Guardiola, aunque sea la más mínima crítica, equivale a "BLASFEMAR" para la nada objetiva prensa deportiva de Barcelona.....


De filomeno a 10 de Julho de 2011 às 12:10
La obsesión de Guardiola por el fichaje de Fábregas quizá tenga su fundamento en que, a diferencia de Alcántara, e incluso de Hernández, el ahora jugador del Arsenal tiene un ADN 100% catalán y por el prurito de "rescatar" de su "exilio" en la Poderosa Albion a un tipo tan catalán como Rexach o Martí Filoxía.....


De Miguel Lourenço Pereira a 11 de Julho de 2011 às 08:24
Hola Filomeno,

Esta claro que el fichaje de Fabregas se prolonga solamente porque Cesc es catalan y tiene a su lado un entrenador y un balneario que desean congregar a lo mejor del catalanismo en el equipo.

un abrazo


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Miguel Lourenço Pereira

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