Domingo, 3 de Julho de 2011

O habitual preconceito dos europeus obrigam-nos a suspeitar sempre de um jogador brasileiro. Em qualquer jornal, revista ou programa especializado ouvimos vezes sem conta que um jogador que brilhe fora da Europa só é bom  no dia em que repetir o feito nos relvados do Velho Continente. Uma falácia perigosa que nos leva até Neymar, a pérola do mercado que tem meia Europa a salivar e meio Brasil a rezar desesperadamente para que não atravesse o oceano. Na encruzilhada de uma carreira precoce, o pequeno génio do Santos terá de tomar uma decisão que marcará de forma inevitável o resto da sua carreira.

Desde os dias de Pelé que o Santos não vencia a Copa dos Libertadores.

São quase 50 anos de uma espera angustiosa que só uma equipa de eleitos podia encurtar de forma definitiva. Neymar foi, em parte, responsável por esse titulo. Não só pelo que fez dentro do campo, onde foi figura fundamental durante a campanha do "Peixe" mas, sobretudo, pela imagem que transpareceu, de uma maturidade inusual, do lider de uma geração com fome de titulos. Esta equipa do Santos provavelmente não tem o mesmo nivel do conjunto da década de 60 (e isso só o tempo o dirá) e até é bastante parecida com a geração de Diego, Robinho e Elano que devolveram ao clube do porto de São Paulo o titulo de campeão nacional. Mas a figura de Neymar destaca-se claramente sobre o colectivo.

O jovem extremo de 19 anos é, por direito próprio, o chefe da banda. Talvez a sua influência no jogo seja inferior à de Paulo Henrique, o célebre Ganso que perdeu muito do ano por uma inoportuna lesão, mas o seu carisma supera a do médio criativo que, na realidade, faz o jogo mover-se. Neymar tem nos pés a magia do futebolista de rua sul-americano, essa raça que os espartilhos tácticos tão a gosto dos europeus ainda não conseguiu fazer desaparecer totalmente. São cada vez menos e acabam por ser olhados com mais suspicácia, mas sobrevivem a cada finta, cada regate, cada jogada impossível. A fama que Neymar tem ganhou-a a pulso graças ao seu repertorio particular. É a epitome do futebolista individual, do jogador que brilha por si mesmo, pelo seu talento inato e pelo seu descaro. No futebol sul-americano, onde o respeito pelo individuo ainda é uma máxima, Neymar está cómodo e confortável. Não significa isso que seja um jogador imaturo como muitos querem fazer querer. A maturidade do extremo ficou provada na final da Copa dos Libertadores frente a uma das melhores e mais duras equipas do Mundo, o Peñarol uruguaio. Poucos conjuntos europeus tratam o jogo com tanta paixão e agressividade como os uruguaios e no entanto Neymar teve maturidade suficiente para aguentar o golpe e decidir a eliminatória. Não teve o mesmo espaço, não brilhou tanto, mas não desapareceu no momento mais importante da sua carreira. Esse sinal de persistência joga a seu favor mas também deixa os tubarões europeus a salivar.

 

Numa era em que o futebol sul-americano vive um descontrolo financeiro imenso o dinheiro é mais necessário do que nunca, tanto para jogadores como para os clubes. As estrelas das ligas argentina, uruguaia e brasileira saem cada vez mais cedo dos seus clubes de origem e muitos são forçados a voltar depois de passos em falso. Os veteranos, sem espaço para o jogo mais cerebral do futebol europeu que já não encontram espaço em ligas milionárias emergentes, também regressam a um ritmo trepidante. E no meio de todo este caos um jogador do talento de Neymar (tal como Ganso, Lucas e companhia) legitimamente questiona-se sobre se continuar num campeonato descontrolado nos calendários, salários ou métodos de gestão. Mas o nosso erro, dos analistas europeus, é olhar para o Brasileirão com esse sentido critico de quem faz da organização o aspecto fundamental do seu futebol, dentro e fora de campo. Um jogador como Neymar, criado nas ruas do Brasil e acarinhado como o enésimo sucessor de Pelé, sente certamente a sua realidade de outra forma.

É o jogador mais bem pago da América Latina, um salário de 6 milhões que o coloca por cima da maioria das estrelas europeias.

Esse é o grande handicap da maioria dos jovens craques brasileiros, um problema com o qual a estrela do Santos não tem de lidar. Ao mesmo tempo Neymar sabe-se que é o lider do projecto desportivo que mais injecção de dinheiro privado tem em todo o Brasil. Um suporte financeiro importante para tentar atacar o titulo Mundial e a revalidação do ceptro continental. O objectivo da direcção santista é ter uma equipa de top até ao Mundial de 2014 para potenciar o efeito de atracção que terá o Brasil em ano de Mundial. E Neymar é a estrela desse ideário de que o futebol sul-americano pode resistir ao encanto europeu quando as condições que encontram na Europa as encontram em casa.

Mas a oferta do Real Madrid (e do Chelsea, e do Barcelona) é tentadora não só pelo aspecto financeiro. Os sul-americanos sabem que a mitologia desportiva é construida essencialmente pelos europeus. Os que sempre olharam de soslaio para Pelé porque nunca ter abandonado o seu clube de formação e que exigem de qualquer astro sul-americano o mesmo brilhantismo nos palcos europeus. Zico, Sócrates, Kempes, Tostão, Dinamite e companhia nunca tiveram o impacto mediático que mereciam porque na Europa ficaram a anos luz do seu rendimento no seu país natal. Neymar quer repetir o feito de Ronaldinho, Rivaldo e Ronaldo, os únicos brasileiros que realmente deixaram a sua marca no futebol europeu. E para fazê-lo sabe que tem de atravessar o Oceano e provar todo o seu valor. Aos 19 anos é dificil resistir ao canto da sereia mas o potencial de crescimento de Neymar nos próximos anos faz mais sentido numa realidade como a do Santos do que debaixo dos holofotes de um grande europeu. O extremo que vai liderar o ataque do Brasil à Copa América não tem nada a invejar em talento puro aos grandes do jogo mas precisa provavelmente de crescer como profissional longe da pressão do imediatismo ou os espartilhos tácticos que têm servido, em muitos casos, para travar a progressão de verdadeiros génios. Esse é o risco que corre Neymar .

 

Ficar para disputar o Mundial de Clubes com o Santos seria o acto de maturidade mais importante na carreira de um jogador brasileiro em largos anos. Crescer desportivamente no futebol sul-americano em vez de partir para a Europa pode parecer, à primeira vista, um acto de receio pelo que lhe possa esperar num gigante do Velho Continente. Mas seria a forma perfeita de Neymar mandar uma mensagem clara ao Mundo. Ser o melhor e sê-lo longe dos holofotes dos duelos mediáticos de Messi, Ronaldo e companhia é um desafio intrigante que pode devolver algum do fascinio ao fosso imenso que ainda subsiste entre o futebol europeu e o futebol sul-americano. Neymar tem todas as condições para brilhar onde quer que seja, para o futebol seria certamente mais importante que o fizesse longe do circo por onde todos já se movem e onde o ar para respirar é cada vez mais rarefeito.



Miguel Lourenço Pereira às 11:10 | link do post | comentar

8 comentários:
De jaques a 3 de Julho de 2011 às 20:01
Talvez Neymar seja mesmo "a última oportunidade do futebol sul-americano", ou então apenas apenas o renascimento do "futebol-arte", que deixou meio mundo de olhos revirados no Mundial de 1986.

Parabéns por escolher Neymar para um post, por falar sobre Neymar, e por pensar que Neymar deveria ficar, pelo menos até ao grande duelo Vs Barça/Messi, onde está. É que tenho cá um pressentimento que vai ganhar o duelo Vs Argentina/Messi...

E depois quero ver os eurocêntricos a perorar sobre a insignificância de um penteado moicano a desfilar, de meias pucadas acima dos joelhos, nas passerelles tortas dos estádios sul-americanos.

Messi escuta, Neymá vai dá luta!


De Miguel Lourenço Pereira a 4 de Julho de 2011 às 11:57
Jacques,

O grande problema do Brasil, como ontem se viu contra a Venezuela, é que o espírito de 82 e 86 está abandonado num limbo emocional para o qual não há resposta. Menezes aposta nos meninos que encantam o Brasil mas, de certa forma, eles perderam essa acutilância que fez do escrete o que sempre foi, uma máquina de ganhar, jogando bem.

Neymar tem possibilidades de emergir como o líder dessa geração dos Ganso, Coutinho, Lucas e companhia, mas também tem de saber pegar na equipa às costas e, sobretudo, ser mais eficaz. Sem eficácia o jogo bonito perde efeito.

um abraço


De jaques a 5 de Julho de 2011 às 00:27
Muito decepcionante a estreia, sem dúvida, mas continuo esperançado e crente nesta geração. O meu maior temor são as lesões de Ganso; tão novo e já operado aos dois joelhos...


De Miguel Lourenço Pereira a 5 de Julho de 2011 às 12:30
Jacques,

Tenho uma particular predileção por Lucas Moura, a Ganso falta-lhe o musculo para acompanhar a cabeça e a Neymar falta-lhe o critério para acompanhar a explosão ;-)

um abraço


De jorge a 8 de Julho de 2011 às 18:47
nao compreendo tanta admiraçao por neymar sinceramente.
é um jogador com grande qualidade e com mt boa finalizaçao, mas nao é um grande jogador de equipa e nem sequer tem um grande um para um.
Acho que nem sequer faz qualquer sentido compara-lo a ronaldinho , rivaldo.
Dos jogadores mais jovens aquele que mais impressiona, continua a ser o mexicano dos santos. Nao consigo perceber o porque de ser pouco mediatico. mas acredito que o futuro sera dele.
Ja agora como é possivel falares de tantos jogadores do santos e nao falares uma unica vez de arouca?


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Julho de 2011 às 15:56
Jorge,

Neymar tem todas as condições para ser um jogador de excelência mas não está nem de longe nem de perto ao nivel de Rivaldo e Ronaldinho. Fez confusão porque a referência feita a estes dois (e Ronaldo) deve-se apenas ao facto de serem dos poucos brasileiros que brilharam na Europa, o desafio que muitos acreditam que falta a Neymar para destacar.

Quanto ao Santos, da geração actual só falei de Neymar e Ganso, podia ter falado de muitos mais como Arouca ou Danilo mas não era esse o objectivo do artigo.

Dos Santos tem um talento incrivel mas uma cabeça impossivel de aguentar no mundo da alta competição, é pena!

um abraço


De SERGIO FERREIRA OLIVEIRA a 19 de Julho de 2011 às 20:18
Enquanto a medíocre imprensa brasileira ataca Neymar, por inveja, pois a maioria é torcedora do rival Corinthians, clube de grande torcida, mas de nenhuma expressão no cenário futebolístico mundial, me deparo com uma análise coerente, profunda, ontológica, magnífica de quem vive fora da carnificina que é a imprensa brasileira. Fico muito feliz por ler uma análise tão pungente e acertada a respeito do craque Neymar. Eu, como brasileiro e torcedor do Santos Futebol Clube, torço para que ele fique no Brasil até o término da carreira, como fez Pelé, e que ainda ganhe muitos títulos pelo meu amado "Peixe" e pela Seleção Brasileira. Parabéns, Miguel, pelo brilhante texto.


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Julho de 2011 às 08:17
Sergio,

Obrigado pelas palavras, mas essa é a realidade. A Europa sempre foi o eixo aglutinador e mesmo quando havia muitas limitações à contratação de estrangeiros houve bons jogadores brasileiros a actuar na Europa de Jair e Didi a Zico e Socrates. Mas ao mesmo tempo o Brasil (e Argentina, Uruguai, Colombia...) sempre manteve uma liga forte com influentes figuras da canarinha. A situação económica de hoje permite aos clubes oferecer aos jogadores condições similares à que estes podem encontrar na Europa e, a médio prazo, isso tem de significar uma saída mais controlada dos melhores jogadores do Brasileirão. Reter Neymar (e Ganso, e Lucas...) seria uma mensagem ao mundo importante, uma mensagem que eu gostaria de ver os clubes fora da Europa a dar.

um abraço


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