Segunda-feira, 30 de Maio de 2011

Alex Ferguson confessou, desalentado mas cavalheiro, que a derrota na final de Wembley frente ao Barcelona significou também a maior "sova" da sua carreira desportiva. Um traço de impotência que acompanha, invariavelmente, todos os treinadores que se cruzam com os homens de Guardiola. O Barcelona rubricou em terras inglesas uma das suas exibições mais convincentes. Uma vez fiel a si próprio. O Man Utd procurou um plano alternativo para travar o rival. Como há dois, como tantas vezes com tantos rostos, foi insuficiente. Caiu na teia de aranha e morreu lentamente...

Ao minuto 10 de jogo Pep Guardiola estava nervoso.

O técnico blaugrana é assim, incapaz de tranquilizar-se durante 90 minutos. Vive o jogo com intensidade e cuida cada detalhe com mimo. E apesar de ter previsto aquele arranque, a situação deixava-o incómodo. Mas não necessariamente preocupado. Sabia o que Ferguson tinha preparado, sabia que não iria funcionar. Era uma questão de tempo. Cinco minutos depois sentou-se e respirou. A partir daí pôde desfrutar de uma noite de glória.

O arranque da final do Wembley deixou antever um Man Utd transfigurado. Foi sol de pouca dura. Ferguson viu e bebeu os duelos entre o Barcelona e o Real Madrid de José Mourinho. Percebeu como o português esteve perto de suplantar o rival e quis sacar conclusões que se enquadrassem com o seu modelo de jogo. Apostou na pressão alta e intensa da linha da frente, em lutadores com fome de bola. Colocou Wayne Rooney em cima de Sergio Busquets. Deu ordens a Chicharito para explorar a conexão Piqué-Mascherano, uma dupla com pouca rotina, e colocou Valencia e Park Ji Sung no apoio ao sector defensivo. A ideia era roubar a bola dentro do meio campo blaugrana e não deixar espaço para que os catalães fizessem a bola circular à sua vontade. Se inicialmente o plano funcionou no aspecto defensivo (só aos 12 minutos o Barcelona efectuou o primeiro disparo à baliza de van der Saar), a verdade é que Ferguson caiu no mesmo erro de Mourinho. E de tantos outros. Ao abdicar do seu próprio plano de jogo para anular o rival, o escocês fez exactamente aquilo que Guardiola queria, desatender o seu próprio modelo de jogo, ofensivo e letal. Abdicando da velocidade de Nani, da presença fisica de Berbatov (que nem um lugar teve no banco de suplentes) ou o critério com a bola de Anderson e Scholes, o técnico do Man Utd abdicou antes da luta. A partir do momento em que o Barcelona sacudiu a pressão - que nunca foi asfixiante porque, depois de recuperar a bola, os jogadores do United nunca conseguiam encadear mais de três passes consecutivos - tomou conta do jogo e ditou os ritmos a seu belo prazer. Se as pernas dos Red Devils não iriam durar o jogo todo, como era previsível, foi a mente que claudicou primeiro. 

 

O Manchester United, uma equipa autoritária, de posse de bola, de transições rápidas e, sobretudo, de ataque, tornou-se numa presa fácil quando planteou o jogo da final de Wembley em função do rival. Muitos dirão que é impossível não jogar contra o Barcelona sem pensar duas vezes em como travar Messi, Xavi, Iniesta e companhia. E no entanto, exceptuando os 410 minutos disputados entre Barcelona e Real Madrid, desportivamente um caso à parte, as equipas que realmente colocaram o Pep Team em cheque foram as que se revelaram mais fieis ao seu próprio modelo de jogo.

O Arsenal de Wenger, o Shaktar de Lucescu, o Betis de Pepe Mel, o Villareal de Garrido, o Valencia de Emery, o Hercules de Vigo...equipas que fizeram suar os blaugrana mais do que seria esperado e que deixaram a nu os seus pontos fracos. Exceptuando os alicantinos e londrinos (num dos jogos) todos acabaram derrotados. Mas fieis ao seu estilo de jogo. Em vez de focar-se tanto nos duelos com o seu eterno rival, que futebolisticamente esteve sempre uns furos por debaixo do Barcelona, Ferguson podia ter aproveitado para ver os jogos onde ficavam a nu os problemas defensivos deste Barcelona. Poderia ter revisto o duelo com o Bétis, equipa da segunda divisão que na Copa del Rey realizou talvez a melhor primeira parte de um rival blaugrana no Camp Nou esta época. Ou as muitas oportunidades perdidas pelos brasileiros do Shaktar Donetsk, aproveitando os espaços deixados atrás pelas subidas constantes de Dani Alves. Ou ainda a forma como Unay Emery encontrou de amputar as alas do ataque do Barcelona com a colocação de dois falsos laterais num modelo muito mais próximo do 3-5-2 do que do o habitual 4-2-3-1 que utiliza. E se a vitória do Hercules tem as suas particularidades (aproveitando no entanto outro problema habitual do jogo blaugrana, o jogo aéreo defensivo) já o Arsenal e Villareal limitaram-se a jogar contra a melhor equipa de toque do mundo...tocando. 

Em vez disso, Ferguson preferiu o choque. Preferiu Park e Valencia a Nani e Anderson. E o que ganhou em força, perdeu em clarividência quando a bola caía nos pés dos seus jogadores. Colocar Giggs foi uma concessão ao sentimentalismo. O galês não tinha ritmo para aguentar a movimentação dos rivais e, sobretudo, não tinha colegas com quem se associar. Javier Hernandez, de quem tanto se esperava, nada fez. Normal, não havia nunca um colega disposto a ajudá-lo a superar Piqué e Mascherano. E quanto a Rooney, apesar de tudo, o mais irreverente, salvou com um golpe de génio um jogo onde se assemelhou, em tantas coisas, a um Cristiano Ronaldo abandonado, só e desesperado perante a superioridade do rival.

 

Se o Barcelona venceu jogando ao mais alto nível foi porque se manteve fiel a si mesmo.

O conjunto de Guardiola  manteve a defesa baixa, dando carta branca a Dani Alves. O brasileiro sofreu o acosso de Park no inicio do jogo mas rapidamente começou a soltar-se e a ganhar as corridas a Evra. Com Alves solto pela direita e Pedro bem aberto pela esquerda, o Barcelona colocou em prática a sua teia de aranha, o seu esquema táctico que relembrar mais os planteamentos de basket e andebol (não é por acaso que Guardiola é um fanático da NBA e que, curiosidade, o Barcelona tenha vencido a sua oitava Champions de andebol no dia seguinte à final de Wembley). Messi como pivot, Pedro e Villa abertos, Alves e Abidal (em alguns sprints pontuais mas precisos) ainda mais abertos nas alas. Atrás do argentino o toque de Busquets, Iniesta e Xavi, prontos a descobrir os espaços. Um 3-3-1-3, com Messi como referência individual.

O argentino voltou a ser superlativo, deambulando a seu gosto pelo meio campo do rival. Ferguson, como tantos outros, não entendeu o erro de colocar em campo uma dupla de centrais de marcação individual como são Ferdinand e Vidic...quando não havia ninguém que marcar.

O golo de Messi, um disparo irrepreensível, espelha bem essa realidade. Os defesas parados, sem saber a quem marcar - Villa e Pedro estavam bem abertos nas alas e Iniesta tinha subido para dar o apoio - imutados, enquanto Messi decide se arranca para a enésima tabela (que era o que esperavam) ou dispara. Um golo que espelha bem a superioridade da ideia de Guardiola perante o conservadorismo táctico de Ferguson. Contra este Barcelona uma defesa de quatro jogadores faz pouco sentido, especialmente se um defesa não sobe (como fazia Beckenbauer e como faz, brilhantemente, Pique) para equilibrar a superioridade numérica que causa Messi no miolo. Sem esse planteamento mais corajoso, o Man Utd tornou-se presa fácil do superior futebol de toque e distribuição do Barcelona. Três golos fora da grande área, três erros de posicionamento defensivo por incapacidade de compreensão do esquema apresentado pelo rival. Uma derrota escrita nas estrelas.

 

Se o Manchester United tivesse sido igual a si próprio talvez tivesse perdido por números mais expressivos. É um risco que corre qualquer equipa que decide defrontar o Barcelona sem medo. Mas ao jogar dependendo exclusivamente do rival, o Man Utd hipotecou as hipóteses de vencer e limitou-se a tentar prolongar a agonia. O golo de Rooney não disfarça uma superioridade clara de uma equipa que só precisa de ser fiel a si mesma para vencer. O triunfo do esquema táctico de Guardiola, a evolução moderna do pensamento de Jimmy Hogan, Hugo Meisl, Gustav Sebes, Viktor Maslov, Rinus Michels, Santana, Arrigo Sacchi e Johan Cruyff, reforça o conceito de superioridade do projecto blaugrana. E como todas as grandes equipas do passado, este Barça só poderá ser superado quando surja, do nada, um projecto novo, diferente, herdeiro de outra filosofia e que, sobretudo, saiba ser fiel a si mesmo. 



Miguel Lourenço Pereira às 20:39 | link do post | comentar

10 comentários:
De jaques a 31 de Maio de 2011 às 02:05
Ver tanta inteligência, cultura geral e de futebol, e qualidade de escrita ao serviço da análise de um jogo de futebol é um privilégio raro. Não posso guardá-lo só para mim; tenho de o fazer sentir ao autor.
Descobri-o há pouco tempo mas já está no primeiro lugar dos favoritos.
Acompanhei o seu pensamento sobre os pregadores da Verdade Absoluta do Can Barça e penso exactamente assim. O Pep e os seus discípulos não inventaram nada, mas reinterpretaram tão bem um caldo de "superioridades morais" dos futebóis passados, e são tão fiéis a esse reinterpretação (enquanto outros afocinharam durante tantos décadas em conceitos que acreditavam imutáveis; mea culpa!), que é tão provável o aparecimento de um "projecto novo, diferente, herdeiro de outra filosofia e que, sobretudo, saiba ser fiel a si mesmo", capaz de obnubilar Pep e sus muchachos, como a transformação Javi Garcias em Piqués ou de Nolitos em Messis.

PS: e continuo a achar (tal como o Mourinho e o Hiddick) que a melhor forma de travar o carrossel estonteante do Pep é meter-lhe um Pepe no meio da engrenagem, e não deixar acefalamente à frente da defesa um galês de cabelos brancos e pernas cansadas, com idade para ser pai do Messi.


De Miguel Lourenço Pereira a 31 de Maio de 2011 às 08:32
Jacques,

Obrigado pelas palavras, sinto-me um privilegiado por ter leitores assiduos e que desfrutam do que escrevo. Esse é o grande prazer que posso retirar de um projecto como o EJ, independentemente se partilham ou não as mesmas ideias.

Guardiola naturalmente não inventou nada, aliás no futebol é muito dificil hoje em dia inventar algo que não seja copiado à jornada seguinte. Estamos na era da informação e esse tipo de inovações, que antes demoravam anos a ser assimiladas, agora tornam-se rapidamente adaptáveis a cada projecto.

A sua grande vantagem é a escola que tem por detrás e que trabalhou ao nivel da formação num modelo especifico e a sua enorme inteligência táctica. Pep é o herdeiro da escola centro-europeia, é o homem do futuro, capaz de juntar conceitos de outros desportos e adaptá-los ao futebol e é, sobretudo, um técnico fiel a uma ideia e não a um resultado, o que no mundo de hoje só pode subsistir quando há paciência administrativa. Se o seu projecto, em 2009, tivesse falhado perderia o seu mérito? Os resultados valem realmente tudo? É o dilema do futebol.

Relativamente à melhor forma de parar o Barcelona, está claro que o modelo aplicado por Hiddink e Mourinho funciona, de certa forma, mas não deixa de ser uma concessão definitiva ao seu estilo. A vantagem do Barcelona é que se torna no único clube fiel a si mesmo, os restantes vão mudando para encontrar a fórmula certa para os derrotar. O que esses clubes precisam é de encontrar a sua identidade e agarrar-se a ela.

O Bétis, o Arsenal, o Shaktar foram fieis a si mesmos e estiveram perto de o lograr, faltou eficácia e concentração (duas armas deste Barça). No entanto ao analisar tacticamente os jogos de Pep, duas dicas:

- uma defesa de 3 (não há necessidade de centrais de marcação) com dois laterais e um médio defensivo que fechem os espaços.
- um jogo ofensivo mais directo para aproveitar o espaço nas costas da defesa e o fraco jogo aéreo do quarteto defensivo blaugrana.

Quase todos os lances de perigo que fizeram dano ao Barça surgiram dessa forma ao longo de todo o ano.

um abraço



De jaques a 31 de Maio de 2011 às 18:53
Dar-se ao trabalho de ler os comentários e de os recomentar (com bem mais de duas linhas) é, na blogosfera, digno de quase tão grandes encómios como o futebol do Barça de Pep.

Demonstra paciência, vontade de debater, de evoluir, de partilhar e, mais importante, humildade, características fundamentais naquela equipa que ganhou a Champignons (permita-me uma Jorge Jesusice) aqui à atrasado.

E é preciso muita humildade para dizer uma verdade que é preciso assumir o quanto antes: nenhuma equipa poderá vencer o Barcelona (o Barcelona na máxima força e concentração, não aquele que abrandou abruptamente contra adversários muito abaixo da sua igualha, como os que referiu) se não jogar em função do Barcelona.

O projecto futebolístico do Barcelona (principalmente em Camp Nou) aperfeiçoou-se de tal maneira que nenhuma equipa deste planeta lhe poderá fazer frente se não se puser atrás como o Real Madrid de Mourinho.

O percurso de Guardiola como treinador é algo nunca visto. Ganhou 10 em 13 taças possíveis (!). Pedeu duas para equipas de Mourinho (Champignons 09/10 e Copa do Rey deste ano) e outra para o Sevilha (Copa do Rey do ano passado), apresentando-se neste confronto nitidamente abaixo do nível máximo (não jogaram Valdés, Piqué e Puyol; Xavi e Busquets entraram nos últimos 20').

Ou seja, em jogos a doer e na máxima força, o Pep team só perdeu 2 taças, ambas contra as fortalezas de Mourinho!

O Barcelona joga futebol como ele deve ser jogado, e tem toda a superioridade moral do seu lado: representa um povo subjugado, desde Cruijff que exige qualidade à frente dos resultados, cria os seus próprios génios da bola, formatados no 4-3-3, e atira à cara do futebol pós-Bosman uma equipa-base com 8 jogadores nacionais. É uma equipa do futebol que já não existe, de épocas passadas, romantizadas e saudosas, e é por isso que tem tantos adeptos.

Não havendo forma de o superar no futebol jogado, nem no futebol idealizado, deve-se tentar vencê-lo anulando-o primeiro e atacando-o nos poucos pontos fracos que tem (e que mencionou).

O que obviamente não se deve fazer é deixar o Xavi livre para fabricar passes de morte quase em cima da área, ou o Messi livre de marcação, para arrancar e rematar precisamente na zona do terreno onde é mais eficaz. Isto define-se numa palavra: suicídio.

Por melhor que jogue o Dortmund, o Arsenal, o Manchester, ou até o Real Madrid, nunca jogará melhor que este Barça.

Se os treinadores não tiverem coragem de ouvir acusações de "cobardia", na próxima época teremos mais passeios triunfais, até porque quando os adversários se tornam ossos demasiado duros de roer (Real Madrid de Mourinho, Chelsea de Hiddink ou Arsenal de Wenger) há sempre um árbitro pronto a desbravar o caminho.


De Miguel Lourenço Pereira a 31 de Maio de 2011 às 19:06
Jacques,

Obrigado mais uma vez por voltar!

As grandes equipas só caem de duas formas: auto-destruição ou um projecto alternativo sólido que toma o seu lugar. Habitualmente é uma mistura de ambos. A história diz-nos isso.

Este Barcelona tem uma fortaleza mental única, quase italiana, que lhe permite manter-se com a mesma fome de titulos sem abdicar dos seus principios debaixo de imensa pressão social, mediática e acosso dos rivais. Esse é o maior mérito do Barça e supera moralmente ao projecto de Cruyff, que se desfez com alguma facilidade depois de ter ganho 3 ligas com muita sorte, e o de Rijkaard, que acabou cedo demais.

Actualmente como essa displicência não parece que vá ocorrer, teremos de assumir que o Barça continuará aí até que surja outro projecto alternativo, que jogue de maneira diferente mas igual de eficaz, atractiva e letal. Claro que se pode ganhar ao Barcelona, tem falhas como qualquer outra equipa e Mourinho sabe como explorá-las (não é por acaso que já lhes ganho duas vezes). Mas são vitórias de Pirro, do momento, sem o respaldo popular e mediático, que hoje em dia vale muito.

O Bayern Munchen superou o Ajax e seguiu os holandeses vencendo 3 Champions seguidas quando, no ultimo ano de glória europeia dos ajacied, foi goleado nos quartos de final da prova. Mas aprendeu a licção e soube impor o seu modelo. O mesmo sucedeu mais tarde com o Liverpool, com o AC Milan, com a Juventus de Lippi...há sempre um projecto, noutro canto da Europa, que surge e toma o relevo. É preciso paciência, dinheiro, astúcia e sorte, mas é possível. A equipa que herdar moralmente o lugar do Barça terá de o fazer por méritos próprios e não por demérito do actual senhor do futebol europeu.

Se tiver oportunidade veja a final do Mundial de 74, olhe para Cruyff e vê Messi. Este Barça optimizou principios que parecia que só existiam nos livros de história e tornou-os práticos na actualidade. Só isso já por si é mágico.

um abraço


De jaques a 31 de Maio de 2011 às 20:11
Antigamente o futebol era futebol; hoje o futebol é um negócio. A excepção (ao mais alto nível) é só uma e chama-se FC Barcelona (FCB).

O negócio-futebol (dinheiro) está concentrado em Inglaterra e Espanha, e principalmente no Manchester City e no Real Madrid que, juntos, já gastaram cerca de 800 milhões de euros.

Antigamente os campeões sucediam-se dinasticamente porque o dinheiro e a lei-Bosman não estrangulavam a acompetição como hoje acontece.

Hoje, mal aparece um Sahin talentoso no Dortmund (a equipa que melhor futebol joga a seguir ao Barça), eis que o Real Madrid lhe deita a mão (ainda por cima pelo preço da uva mijona).

Conclusão: o Dortmund ficou sem o melhor jogador ainda antes de enfrentar os tubarões na Liga dos Campeões.

Antigamente isto era impensável, e por isso as sucessões dinásticas aconteciam com maior naturalidade e duravam mais tempo. No futuro prevejo que seja cada vez mais difícil. A tendência pré-FCB era para equipas repletas de estrangeiros e sem uma matriz de jogo definida (estilo Inter de Milão), e o epifenómeno FCB representa apenas um intervalo nessa linha de raciocínio.

Em Inglaterra (o barómetro do futebol-negócio mundial) a filosofia continua a ser deitar dinheiro e futebolistas estrangeiros para cima dos problemas (mau futebol ou inexistência de troféus).

Quando o projecto FCB se esgotar (talvez dure ainda uns 3 ou 4 anos), veremos uma Liga dos Campeões dominada novamente pelas multinacionais inglesas, sem chama e sem uma verdadeira filosofia enraizada. Um clube exclusivo para Manchester United, Chelsea, Man City, Arsenal, com Real M, FCB, Bayern, e talvez uns italianos.

Não veremos mais futebol-paixão, futebol-essência, futebol-arte, futebol-cantera, futebol-ideal. Futebol-Barça.

Prevejo que o FCB seja a epítome de tudo de bom que ficou para trás, e que depois dele nunca vejamos nada sequer parecido.

Eles são tão bons que tudo o que vier a seguir, conspurcado pelos clubes/multinacionais, só poderá ser incrivelmente mau.

Roberto Baggio tomou o lugar de Van Basten, que tinha ocupado o trono de Kevin Keegan, herdeiro de Beckenbauer, sucessor do Pitágoras da bola, Johann Cruiff (sim, acho que Messi nunca o igualará, quanto chegar aos calacanhares de Pelé ou do Deus do Futebol), lendas imorredoiras que representaram ideias (e ideiais) de futebol pré-Bosman.

Messi será o último homem-ideia, em pleno Império Bosman. Depois dele a estrangeirização (ou europeização) e o dinheiro tomarão finalmente conta de tudo e, com o vil metal, virá a NBA do soccer europeu, um clube exclusivo, de incessantes intervalos publicitários. A bem do futebol, dir-nos-ão que o jogo que tantos amam terá de ser um interminável intervalo publicitário.

Não, depois do Barça de Pep, não mais ideias virão. Depois de Pep, só a vulgaridade e a frieza do dinheiro. E o dinheiro não admite dinastias românticas, só aceita clubes com pedigree financeiro, e joga muito mal à bola. Capisce?


De Miguel Lourenço Pereira a 31 de Maio de 2011 às 21:06
Jacques,

Estamos de acordo mas eu sou um pouco mais optimista. O dinheiro que o futebol move está a entrar num processo de inflexão e apesar dos consórcios arabes tenham distorcido a realidade, vejo que a maioria dos chamados grandes começa a entender que o modelo do Barcelona e do Arsenal é o caminho.

Haverá sempre treinadores salta-pocinhas que prefiram clubes que actuem como o R. Madrid ou M. City porque pensam no sucesso imediato, mas a crise económica e as leis que a UEFA prepara para aplicar nas próximas épocas podem significar uma inflexão de politica desportiva.

Os clubes recrutarão cada vez jogadores mais novos e fá-los-ão passar pelas suas academias para cumprir as quotas necessárias mas isso vai também fortalecer a identidade de cada projecto. O próprio Chelsea já começa a seguir essa mentalidade depois de tanto dinheiro gasto nos últimos anos. O United há muito que investe menos do que o previsto, na Alemanha as equipas vivem de acordo com as suas possibilidades e o mercado italiano está em inflexão e continuará até á negociação colectiva dos contractos televisivos.

E não nos enganemos com as utopias, para o Barça o futebol é cada vez mais dinhero. O próprio Cruyff criticou a publicidade á Unicef e á Qatar Fundation, o contrato com a Nike (da qual Rossell foi directivo) e os muitos milhões gastos no ultimo ano (Ibrahimovic, Chygrinski, Villa, Afellay, Adriano, Alves, Touré, Keita, Mascherano custaram bom dinheiro e de todos só dois se tornaram titulares). O Barcelona apoia-se na cantera menos por ser o Barça e mais por ser Guardiola. Rijkaard estava a viver das apostas arriscadas de van Gaal e durante anos houve directivos que disseram a Xavi, Iniesta, Pique, Fabregas e companhia que ali não havia lugar para eles.

O Sahin representa ainda o jogador que vive com a falsa ilusão do glamour de um clube e do carisma de um individuo, isso haverá sempre, mas o mercado move-se cada vez menos e em menores quantidades e é de esperar que Lille, Dortmund, Napoli, Porto e Ajax estejam quase na máxima força para a próxima Champions. Até os craques brasileiros agora pensam duas vezes antes de mover-se, o exemplo de Robinho é bem recente.

O fim do ciclo de Guardiola não acabará com essa ilusão, o futebol de toque começa a ganhar cada vez mais adeptos e continuará, a mensagem já está bem enraizada em adeptos e directivos que apostam agora em técnicos novos e com um gosto por esse estilo, sejam Kloop, Villas-Boas, Luis Enrique, De Boer... nem o Barça é hoje o único exemplo de uma cultura desportiva forte nem será nunca, é apenas o expoente máximo contemporaneo.

Quanto a jogadores, só comparo, como equipas, contemporaneos. Comparo Pelé a Eusébio, a Charlton a Rivera, a Best, a Suarez, nunca a Cruyff, Beckenbauer, Muller, Netzer, Keegan ou Dalglis, Maradona, Gullit, Platini e van Basten. Messi ganhará na comparação contemporanea a Zidane, Ronaldinho, Ronaldo, Rooney, Totti e afins, se continuar assim. Não vale a pena comparar ideias, o melhor é desfrutar delas ;-)

Mas seja optimista, há muitos projectos em gestão, difusão e consolidação que são absolutamente apaixonantes, é preciso é ter paciência e acreditar que o testemunho sempre encontrará alguém que pegue nele e continue o seu caminho...

um abraço


De jaques a 31 de Maio de 2011 às 21:45
O Barça que vemos hoje é, mais do que a visão de Pep Guardiola, a visão de um homem tão ou mais idealista que ele, não obstante todos os seus erros e defeitos.

Os próprios adeptos do Barça não souberam tratar com o respeito devido o homem que contratou Frank Rijkaard, o homem que preferiu apostar em Pep Guardiola ao invés de contratar José Mourinho, o homem que dava ouvidos a Crujff, o homem que não quis receber um tostão por publicidade nas camisolas, e preferiu entregar o espaço gratuitamente à UNICEF, o homem que perseguiu a claque mais violenta do clube (Boixos Nois), o homem que sonha com uma Catalunha independente.

Ora aí está a razão por ser tão odiado, sonhar com um país independente, mas se não houvesse um homem corajoso chamado Joan Laporta nunca teríamos tido a possibilidade de degustar este futebol-caviar chamado Pep Team.

Desde que ele foi embora que rezo para Rosell não estragar demasiado rápido a obra feita pelo "inimigo" Laporta. Que o Deus do Futebol o impeça.

É verdade que o Barça também gasta muito dinheiro, e Pep tem muita responsabilidade em vários flops de milhões.

Quanto aos craques brasileiros que não querem vir, só vejo um, o Neymar, que para mim é só e apenas, aos 19 anos, o segundo melhor futebolista do mundo. Quanto mais pancada leva melhor joga! Isto só acontece com génios excepcionais.

PS: Também considero um crime comparar craques de épocas distintas, mas é um daqueles crimes a que poucos resistem...

Um abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Junho de 2011 às 08:54
Jacques,

Laporta foi um presidente corajoso, sem dúvida, mas a aposta em Guardiola foi mais um tiro no escuro do que a genuina concepção de um projecto. Cruyff sabia do potencial de Pep mas ninguém imaginava, nem mesmo ele, que o sucesso ia ser tão imediato e impactante, o próprio Cruyff precisou de largos anos para encontrar-se cómodo no posto.

Laporta tornou-se persona non grata antes mesmo de ter eleito Guardiola como sucessor de Rijkaard (e ainda hoje não se dá o devido mérito ao holandês por recuperar Xavi, lançar Iniesta, confirmar Valdés e Puyol, arriscar com Messi, todos nomes até então mal vistos pelas bancadas do Camp Nou que preferia os estrangeiros Etoo, Deco e Ronaldinho aos jogadores da casa). Rossell destroçou a imagem do "mes que un club" como se antevia que o faria, como diz Cruyff esta semana, ele tem a possibilidade de estragar a época de ouro do Barcelona com a sua politica desportiva.

Guardiola enganou-se muito com jogadores e agarrou-se sobretudo ao seu nucleo duro nos momentos dificeis. Exceptuando Alves (já contratado por Laporta) e Villa (que conhece os colegas da selecção à perfeição) a sua gestão de mercado foi pouco consistente. Se tivessem existido lesões e problemas animicos graves com jogadores chave, sempre se percebeu que o banco do Barça era muito curto e que homens como Touré, Keita, Adriano ou Maxwell são uteis como suplentes, mas não têm capacidade para levar o peso da equipa. Uma politica arriscada que funcionou e que está apoiada por uma cantera que conhece bem. Este Barcelona B na Liga BBVA lutaria pelos lugares de metade da tabela, não tenho nenhuma dúvida disso.

Um abraço


De manuel antonio a 31 de Maio de 2011 às 23:38
Eu só vinha mesmo aqui dizer que o texto está formidável, digno de qualquer página de jornal de qualquer parte do mundo civilizado e onde se procure pensar em vez de saber quem jogou de coletes no treino!

grande artigo miguel, foi sem duvida um daqueles momentos em que tudo flui, a escrita e a ideia sao um só e é fantastico ler.

entretanto, a discussao entre voces os dois parece me muito bem por si só, ainda que a leitura tenha sido diagonal. carry on


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Junho de 2011 às 08:55
Manel,

Thank you for reading ;-)

Um abraço


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