Sexta-feira, 27 de Maio de 2011

Ferguson montou a sua primeira grande equipa baseando-se em fieis e disciplinados legionários. Vinte anos depois recorre ao mesmo esquema deixando para trás duas décadas em que as individualidades sempre souberam destacar do colectivo de uma forma ou de outra. Rooney, o anti-divo por excelência, liderará a mais dura das legiões mancunianas para um definitivo assalto à história.

 

Os analistas da Premier League coincidem em que esta equipa do Manchester United é talvez a mais débil da última década.

E no entanto, depois de vencer categoricamente a Premier League (algo que só Ferguson seria capaz), esta mesma equipa apresenta-se em Londres para um dos jogos mais importantes da história do clube. As contas são fáceis de fazer. O Man Utd já ultrapassou o Liverpool em títulos domésticos e está a dois troféus europeus de igualar o registo dos reds. A um de juntar-se a Ajax e Bayern Munchen, as restantes equipas com 4 troféus na prova rainha europeia e um pouco mais perto do pódio. A meados dos anos 90 Ferguson percebeu que o seu projecto só iria funcionar se tivesse reconhecimento fora das ilhas. Como Busby no passado, como Shankly, Paisley ou Clough. Naquela época já se percebia que era questão de tempo até o clube juntar-se ao Liverpool na cabeça dos títulos domésticos mas a Europa era outra coisa. Em 1999 chegou o primeiro e agónico troféu, em dois minutos de êxtase futebolístico frente a um Bayern Munchen que foi muito melhor durante 90 minutos. Nove anos depois - e ultrapassados os falhanços de 2000, 2002 e 2007 - a equipa voltou a uma final para ganhar, de forma ainda mais agónica se cabe, de novo o titulo frente ao Chelsea. Foi derrotado em Roma pelo rival de sábado, um clube que com Cruyff entrou na mesma espiral de pensamento que o Man Utd com o handicaap de que o seu eterno rival, o Real Madrid, está muito mais longe em títulos domésticos e europeus. E agora, sem estrelas, está de volta. Com a mesma ilusão do passado.

Provavelmente será a última final de Giggs, Scholes e Ferdinand, figuras-chave do clube durante o mandato de Ferguson. Seguramente que será o último jogo de Edwin van der Saar com a camisola dos Red Devils, tal como Schmeichel em 1999. Só que desta vez não há o mediatismo de Beckham e Ronaldo, figuras chave nas vitórias de 1999 e 2008. Em vez disso, um grupo heterogéneo de guerreiros preparados para morder as pernas dos jogadores do Barcelona e não largar durante 90 minutos. O Manchester United vai à luta de faca na mão. E não mostrará o excessivo respeito pelo rival que o Real Madrid exibiu durante quase 400 minutos.

 

Se há um Manager do futebol contemporâneo impossível de prever, esse é Ferguson.

Adivinhar um alinhamento do escocês é um exercício de perspicácia e sorte que não está ao alcance de qualquer um. Com um plantel sem nomes sonantes mas com muitos e variados recursos, o exercício complica-se ainda mais. Fergie foi o homem que consagrou o 4-4-2 quando muitos já o tinham enterrado. Foi também um dos primeiros Managers da liga inglesa que explorou o potencial do 4-3-3 e talvez aquele que melhor entendeu a importância moderna do 4-5-1. Como Mourinho, não é um inovador táctico, mas adapta-se rapidamente às circunstâncias. E molda as suas equipas tendo em conta cada momento em particular. Surpreendeu com uma abordagem agressiva no duelo contra o Chelsea que lhe deu o titulo - e em que tinha mais a perder do que a ganhar - e foi extremamente conservador no duelo a eliminar com o Arsenal na FA Cup. Usou duas tácticas, dois modelos e dois sets de jogadores diferentes. Ganhou ambos os jogos e conseguiu o seu objectivo. Além do mais, tem a lição aprendida.

Em 2009 o grande erro de Ferguson chamou-se Cristiano Ronaldo. O extremo português actuou como figura central do ataque, relegando Wayne Rooney para o flanco esquerdo onde foi presa fácil para o imenso Charles Puyol. Ronaldo foi o mais rematador dos Red Devils - como é seu hábito - mas contribuiu pouco para a construção de jogo ofensiva e nas ajudas defensivas dando a Busquets e Piqué muitas facilidades para incorporar-se no ataque. O jogo do Man Utd ficou amputado de profundidade de campo e acabou por ser presa fácil para um imenso Etoo e um sobrenatural Messi, assistidos primorosamente por Xavi Hernandez, no seu melhor ano de azulgrana. Ninguém espere um planteamento similar. O Barcelona será uma equipa diferente (já explicamos porquê) mas o Man Utd mais ainda. A equipa que suba ao relvado do Wembley será, sobretudo, solidária. Rooney não tem agora a sombra mediática de Ronaldo com que se preocupar e a sua associação com Chicharito e Berbatov é tremendamente eficaz. Mas, sobretudo, o dianteiro pode servir igualmente de pivot para um miolo sobrepovoado com o intuito de anular a hábil circulação de bola blaugrana. Recorrer ao 4-5-1 que eliminou o Chelsea significa incluir Fletcher, Carrick ou Anderson, Scholes ou Giggs, Park e Valencia no apoio ao inglês. Giggs jogou em 2009 e não teve ritmo para o jogo de Xavi e Iniesta mas os seus passes letais dão um plus de qualidade que Fergie não tem. Scholes, provavelmente, verá o jogo do banco. Outra opção, mais descaradamente ofensiva, e com Ferguson nunca há que descartar nada, é alinhar um 4-3-3 com Valencia, Rooney e Chicharito (o português Nani não é de confiança para estes jogos, a julgar pelo último ano da cartilha fergusoniana) e Fletcher, Carrick e Park a morder no miolo os pés de Xavi e Iniesta. O risco deste esquema chama-se Messi. A vantagem, Chicharito.

 

O jovem mexicano é o puzzle desta final. Foi uma das figuras mais determinantes do final de época dos Red Devils e tem a garra e ilusão que muitas vezes decidem finais. É também o homem certo para dar liberdade a Rooney e manter os defesas do Barcelona ocupados. Mas apostar por um dianteiro fixo abre espaços atrás e Ferguson sabe que isso pode revelar-se letal. De uma forma ou de outra Alex Ferguson sabe que chegar a Londres, ao estádio onde conquistou o seu primeiro titulo com o clube (a FA Cup em 1990), é já o corolário perfeito a uma temporada onde todos descartavam o Manchester United dos títulos. Vencer a prova seria um coup de grace que só um homem como o escocês seria capaz de realizar.



Miguel Lourenço Pereira às 12:09 | link do post | comentar

7 comentários:
De DC a 27 de Maio de 2011 às 12:36
Também tenho a sensação que o Nani vai começar no banco...

Tenho que dizer que este ano mudou a minha opinião do Ferguson.
Até há bem pouco tempo olhava para o Man Utd e dizia que ganhava apenas porque teve sempre a melhor equipa nesses anos. Este ano no início de época pensei que não teriam hipóteses para o Chelsea mas o Fergie fez milagres.
Se antes ganhou com equipas com Keane, Scholes, Giggs, Beckham, Yorke, Cole entre muitos outros e perdeu nos anos em que os adversários estavam mais fortes (super-Arsenal e Chelsea de Mourinho), este ano penso que a nível do plantel o Chelsea tinha obrigação de ser campeão mas o Ferguson potenciou incrivelmente a sua equipa.
Acho que ele evoluiu fantasticamente como treinador nos últimos 3,4 anos. Antes jogava o tradicional futebol ingês, directo, rápido e desgastante. Agora sabe colocar a equipa em ritmo lento e pautar os jogos.

Será uma final muito interessante, onde torcerei pelo Barça pela minha paixão por eles e pelo facto de que caso o Man Utd vença ultrapassa o Porto no quadro de honra da UEFA (9º lugar), mas certamente se o Man Utd vencer será uma Champions muito meritória!


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Maio de 2011 às 14:06
DC,

O Ferguson é muito melhor Manager do que muitos supõe. Não, nem nunca foi, um génio da táctica, mas é um pastor de homens tremendos, um homem perfeito para renovar balneários, um bom gestor economico e sobretudo um lutador. Este ano o Manchester Utd tinha o 3º ou 4º plantel da Premier League, por detrás de Chelsea, Tottenham e Man City. E no entanto, depois de uma primeira volta horrivel em jogos fora de casa, soube definir prioridades e atacou quando tinha de atacar. Venceu duelos directos, bateu o Chelsea na CL sem contestação e só perdeu na meia-final da FA Cup porque as pernas não davam para mais.

Desde há muito que o Fergie evoluiu, coincidiu com a chegada de Queiros que lhe ensinou muito sobre prospecçao estrangeira e metodos de treino que se tornaram santo e senha em Carrington. Ganhou em astúcia e por isso Nani deve ser suplente. Ganhou em destreza mental e por isso será um jogo diferente do de 2009. E se ganhar o trofeu será o primeiro a consegui-lo por tres vezes e isso, se falta fizesse, é suficiente para que o Mundo perceba o Manager de 1º que é.

um abraço


De Tiago a 27 de Maio de 2011 às 17:05
Miguel e DC,

Não quero que levem isto muito à letra, mas há claramente um Ferguson pre e pós mourinho. O que quero dizer com esta informação é que Ferguson é um treinador com uma qualidade tremenda: sabe ver o que acontece à sua volta e renovar conhecimentos. Como o próprio já disse algumas vezes, aprendeu muito com Mourinho e viu que algo precisava mudar no Manchester, que o manchester que ele tinha na altura do chelsea ser campeão não era suficiente. Algo precisava mudar.

Não nos podemos esquecer que Ferguson e Mourinho são grandes amigos.

Abraço


De filomeno a 27 de Maio de 2011 às 17:12
Ferguson admira a Mourinho


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Maio de 2011 às 18:57
Filomeno,

Por supuesto, son viejos amigos desde los dias del Oporto. Se respectan mucho y Ferguson le quiere como sucesor em Old Trafford.

un abrazo


De filomeno a 27 de Maio de 2011 às 17:10
Cristiano sigue siendo un ídolo en el Manchester.
Ab.


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Maio de 2011 às 18:58
Si, lo sigue siendo, incluso por una hinchada que se ha desesperado con su actitud de forzar la ida al Real Madrid


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