Segunda-feira, 23 de Maio de 2011

A certa altura o Jamor parecia o recreio da escola em que um grupo de miudos se preparava para mais um desses jogos de "muda aos cinco e acaba aos dez". Não se chegou a esse extremo e o jogo até esteve mais equilibrado do que possa imaginar pelos números frios do resultado final mas ficou evidente que o FC Porto em 2010/11 caminhou num mundo à parte. Na final da Taça de Portugal quiseram deixá-lo bem claro, esmagando outro rival minhoto sem pedalada para esta tremenda equipa azul e branca.

 

Nunca o FC Porto tinha ganho três Taças de Portugal de forma consecutiva.

Sempre contra rivais do Norte, sempre num estádio, como diz Villas-Boas, histórico mas a cair de velho. Mas nunca com tamanha superioridade. Depois das vitórias de Jesualdo Ferreira, a consagração de Villas-Boas e o broche perfeito a uma época inesquecível. Se em Dublin a exibição tinha sido pouco entusiasmante, muito por culpa do jogo cuidado e táctico do Braga, no Jamor foi o espelho perfeito da filosofia robsoniana a que Villas-Boas acude quando gosta de falar de origens. O FC Porto passou uma tarde solarenga em Oeiras com o pé constantemente no acelerador e saiu do estádio Nacional com mais do que um troféu nas mãos. Saiu com o sentimento do dever cumprido, de uma vitória que completa um "Poker" histórico que nem José Mourinho logrou conquistar. Uma época que começou na Supertaça de Aveiro frente ao Benfica e que terminou no abate ao Vitória de Guimarães que nunca soube por cordura num jogo eléctrico e de causa-efeito. Os vimaranenses chegavam com a esperança que os festejos europeus dos dragões passassem factura mas a verdade é que encontraram com uma equipa mais desperta e dinâmica do que nunca. Sem uma referência fixa no ataque, pela ausência por lesão de Falcao, o FC Porto destroçou o jogo defensivo do Vitória com as sucessivas trocas de posição entre Varela, Hulk e James Rodriguez. O colombiano não se limitou a marcar o hat-trick e a ser o homem do jogo. Foi também o espelho moral em que se mediu esta equipa, com uma fome tremenda de glória. Começou por ter poucos minutos mas foi encontrando o seu espaço na estrutura montada por Villas-Boas e é, inequivocamente, uma das figuras chave deste final de temporada confirmando tudo aquilo que deixava antever nos seus dias do Banfield.

 

O jogo começou frenético com um golo azul e branco aos 4 minutos.

James foi oportuno e abriu a contenda mas pouco depois o Vitória mostrou que não vinha a festa alheia e com a ajuda de Álvaro Pereira igualou o choque. A bola dançava nos pés dos azuis e brancos que evidenciavam pouco cansaço de uma semana histórica, talvez porque havia a consciência de que o último jogo era também um dos mais importantes do ano e que havia a forçosa necessidade de ir buscar forças onde fosse possível. Varela, fisicamente em baixo desde Março, levou a filosofia à prática e ampliou de novo a vantagem antes que um imenso Edgar, nos ares, voltasse a desfeitear Beto. Foi a última vez em que se ouviu falar do Vitória de Guimarães. A partir de aí o jogo passou a ser um monólogo azul e branco com Rolando e Hulk, este de canto directo com muitas culpas para Nilsson, a ampliarem a vantagem para os 4-2.

O jogo estava aparentemente decidido quando Edgar teve nos pés a oportunidade de levar para o balneário uma sensação de alivio para os vitorianos e de preocupação para os homens de Villas-Boas. Não só desperdiçou o penalty (na segunda parte falhou outros tantos golos) como na continuação o demoniaco James marcou o quinto. Como miudo deve ter-se lembrado dessas peladinhas de muda e troca e saiu para os balneários com o resto da equipa exultante. A final tinha acabado, a goleada não.

O segundo tempo deu para celebrar, para homenagear Mariano Gonzalez, um dos mais amados jogadores do balneário azul e branco, e também para marcar o sexto golo, de novo por James, deixando o Porto a apenas dois tentos de igualar o recorde histórico do Benfica de golos marcados numa só final (8, ao Estorial Praia). Os azuis e brancos confirmavam a sua 16º vitória na prova, superando aqui também os números do Sporting, e ao mesmo tempo igualavam (ou superavam, tendo em conta o que se possa pensar da Taça Latina) o eterno rival Benfica em titulos. Muitas razões para celebrar e o ambiente era de festa evidente, muito mais do que se podia antecipar com uma vitória na Taça depois de vencer Liga e Europe League nas semanas prévias. É essa sensação de fome de titutos que distingue este FC Porto de Villas-Boas do do seu antecessor (que venceu 3 ligas e 2 Taças em quatro anos) e dá sinais inequivocos de que, para o ano, o FC Porto continua a ser o máximo favorito nos troféus domésticos, por muito que se espera melhoras substanciais de Benfica e Sporting. No outro lado do campo, derrotados pela quinta vez em cinco finais, os adeptos do Vitória voltaram resignados à cidade-berço com o consolo de mais uma participação nas provas europeias e a sensação do dever cumprido.

Triunfal, o FC Porto soube esmagar o Vitória de Guimarães sem abdicar da sua filosofia de futebol cuidado mas tremendamente ofensivo. Soube ter a bola nos pés para pautar o ritmo e soube pisar o acelerador para moldar o jogo à sua medida. Mais do que os golos foi a avalanche ofensiva que diferenciou este Porto dos seus antecessores e que, de passo, serviu para confirmar a imensa superioridade do conjunto azul e branco face aos rivais directos. Bateu o Benfica na Liga, o Braga na Europa e o Vitória na Taça. Em todas as competições foi claramente superior em todos os momentos da época. E se muitos querem imaginar um segundo ano à Mourinho, com vitória na Champions League incluida, o mais sensato é pensar que a hegemonia doméstica, resgatada por um ano pelo Benfica de Jesus, é o objectivo prioritário e mais acessível para os dragões. Este ano já está escrito a letras de ouro na história do futebol português. O próximo promete ser ainda mais apaixonante!



Miguel Lourenço Pereira às 15:22 | link do post | comentar

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