Terça-feira, 17 de Maio de 2011

O FC Porto tem, na última década, tantas finais europeias como qualquer outro. Como AC Milan, Liverpool, Barcelona e Manchester United. José Maria Pedroto talvez nunca o tivesse imaginado mas os seus dragões já são, há muito, parte da elite europeia. Dublin não é novidade. É a confirmação de um estatuto que há dez anos atrás era uma utopia.

 

Quando o FC Porto terminou uma longa seca de 19 anos sem títulos o jovem André Villas-Boas tinha acabado de nascer.

Ele simboliza, nos seus flamantes 33 anos, o domínio avassalador que o FC Porto impôs ao futebol português durante essas três décadas. E é também o rosto ideal para confirmar o estatuto de grande da Europa que começa a ser uma profunda inevitabilidade. Apesar de continuar a ser um clube vendedor, um clube com um passivo considerável e um clube incapaz que produzir, da sua formação, uma geração que suceda à anterior, este clube é uma referência na classe média alta das ligas europeias. Num país periférico, sem expressão na elite do futebol, os azuis e brancos são um oásis que gregos, holandeses, escoceses, belgas, ucranianos, russos, turcos e até mesmo franceses não conseguem criar. Em dez anos Dublin será a terceira final europeia do FC Porto, a quinta da sua história em 26 temporadas. Uma média só ao alcance dos grandes mitos do futebol mundial.

Triunfar em Dublin já não tem a mesma magia de Sevilla. Naquela tarde noite de asfixiante calor os azuis e brancos eram rookies, lembrando-se apenas os mais velhos da glória de Viena. O triunfo de Mourinho abriu uma nova era. Desde então, só por duas vezes os dragões falharam os Oitavos de Final da Champions League. Esta foi uma delas. E terminou em final europeia. Agora do FC Porto espera-se tudo, o favoritismo caminhou do seu lado durante todo o torneio. Na pré-eliminatória, na confortável fase de grupos e nos jogos a eliminar. Nunca o FC Porto deixou de ser o grande candidato e isso explica, em parte, a maturidade competitiva que alcançou o clube. Num ano financeiramente complicado, e com o fantasma do titulo do Benfica presente, os azuis e brancos assinaram a sua época mais completa. E na Europa ditaram lei. Por isso sentem, com legitimidade, que Dublin é só um trâmite mais. Mas enganam-se. Não só porque sabem bem – afinal não foi assim há tanto tempo – o que é chegar a uma final europeia sem o estatuto de favorito. Também devem entender que uma vitória significa, sobretudo, lograr um objectivo moral importante: o respeito do futebol europeu.

 

Quando arranque a próxima Champions League o FC Porto será cabeça-de-serie.

É algo que não logrou em 2004, quando vinha de triunfar em Sevilla. Espelho dos pontos acumulados nos últimos anos nas provas europeias mas também do pedigree desta equipa. Os dragões preferiram investir em lugar de vender para recuperar a hegemonia interna (o que lograram facilmente e com um registo histórico) e de surpresa encontraram-se com a cereja no topo do bolo. Falcao, Hulk, Moutinho, Varela, Guarin, Helton e companhia mostraram o seu melhor rosto nas noites europeias e a filosofia de ataque de Villas-Boas tornou os azuis e brancos no ex-líbris da prova. A equipa que todos queriam evitar. E que chegou, previsivelmente, aonde todos queriam chegar. Sem atalhos.

Se em 2003 já se antecipava uma possível final 100% portuguesa, que afinal não acabou por ser, agora os portuenses encontram-se com o seu destino. Pode enganar o rival – e os benfiquistas sabem isso melhor que ninguém – e o adepto mais distraído pode pensar que se trata de um jogo nacional sem grande importância. Longe disso, será um duelo ainda mais difícil porque supõe estar num patamar a que os dragões são novos: a elite dos favoritos. Ninguém espera um cenário distinto à vitória dos homens de Villas-Boas e esse será o seu duelo. Jogar contra si mesmos, contra a displicência que já condenou tantas equipas grandes no passado. Ao FC Porto exige-se, nada mais e nada menos, que uma superioridade que esteja de acordo com os registos logrados em toda a temporada nas três competições onde chegou até ao fim. Chegados a esse ponto, os portistas encontram-se com os níveis de exigência que estão habituados a ver reflectidos nos rivais. Talvez por isso Dublin, menos mediática que Sevilla e menos pomposa que Gelsenkirchen, seja a final mais importante do clube. Porque supõe, definitivamente, olhar a Europa de olhos nos olhos e ser recebido com honras nesse clube exclusivo europeu.

 

Numa prova por onde andaram os recém-consagrados campeões de Alemanha, Holanda, Rússia, Escócia e alguns dos clubes já com bilhete marcado para a prova dos milhões da próxima temporada, é um erro pensar que uma final 100% portuguesa transforma a competição numa vitória menor. Para o FC Porto, pelo menos, é uma oportunidade única de dar um salto institucional significativo. De lograr o dobro dos títulos europeus conseguidos pelo maior rival interno. De atingir números que superam os registos de Real Madrid, Inter, Chelsea, Arsenal, Bayern Munchen ou Ajax na última década futebolística. De ultrapassar, definitivamente, esse medo antigo. Se com Pedroto era a ponte D. Maria, com o FC Porto moderno era o aeroporto Sá Carneiro. Hoje por hoje, o medo é uma palavra que deixou de ter sentido. Até porque se os homens do “Zé do Boné” mataram a fome de títulos domésticos contra o Braga, os legionários de Villas-Boas querem dar esse passo rumo à glória continental contra os guerreiros bracarenses. A história, inevitavelmente, sempre se repete.



Miguel Lourenço Pereira às 16:42 | link do post | comentar

6 comentários:
De Jorge Soares a 18 de Maio de 2011 às 15:02
Não há vitórias menores.. e quantos adeptos de futebol podem dizer que já viram o seu clube ganhar tudo o que havia para ganhar a nível nacional e internacional? Eu posso dizer com orgulho.

Jorge Soares


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Maio de 2011 às 15:43
Jorge,

Claro que não, muito menos uma vitória europeia numa liga onde actuaram algumas das melhores equipas que o futebol europeu acompanhou este ano.

Quem quer que ganhe terá ganho uma grande competição.

um abraço


De Álvaro a 18 de Maio de 2011 às 16:18
Li o seu artigo e senti um arrepio pelas costas e um breve humedecer nos meus olhos. Sou portista de corpo inteiro e as alegrias do meu Porto são as minhas alegrias como as tristezas, são as minhas tristezas. Tenho ainda outra vaidade é ter dois clubes do Norte na final. Isto só por si, vale a pena ver. Não sei se o meu "coração" vai aguentar as batidas das emoções, mas será sempre uma noite para recordar. Que ganhe o melhor e, que o melhor seja o F C Porto. Só peço uma coisa em relação ao nosso adversário SLB, que uma vez na vida, nesta noite esteja calado e não calunie quem é grande.


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Maio de 2011 às 16:50
Alvaro,

Para os adeptos nortenhos o jogo de hoje será sempre uma festa porque estão em campo duas equipas que representam bem os valores da região Norte. Não acredito muito que os adeptos portistas sintam tanto uma derrota com o Braga, um projecto que tem tido um apoio constante por parte do FC Porto, como se fosse contra outro rival. Isso, só por si, já ajudará a manter o ambiente numa festa colectiva e esse tipo de mensagem é sempre de salutar.

No final ganhará sempre o melhor e quem quer que ganhe, pela trajectória que realizou, será um justo vencedor.

um abraço


De TIaho a 18 de Maio de 2011 às 18:09
não sei quem escreveu isto mas precisa que lhe avive a memória:
Figo
Rui costa
Pauleta
Cristiano Ronaldo

Um país periferico sem expressão na elite do futebol


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Maio de 2011 às 18:32
TIaho,

Normalmente basta olhar para quem assina o texto para saber quem o escreve. Mais dúvidas sobre quem é o autor e há uma página sobre isso.

Três grandes jogadores+ o Pauleta (e faltaram-lhe muitos mais) de uma excelente geração não transformam um país com uma liga periférica, uma federação com estatutos ilegais, uma politica caciquista das federações regionais, uma falta de politica de formação, a ausência de mais do que 3 campeões nacionais na 1º liga, só pode ser um país periférico na elite do futebol. Não vejo outra forma de o descrever.

Que existam grandes equipas pontuais, grandes jogadores, técnicos e dirigentes não faz com que exista um futebol de elite.

Um abraço


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