Terça-feira, 17 de Maio de 2011

Guerreiros. Sem dúvida. A campanha europeia do histórico Sporting de Braga de Domingos Paciência foi certamente uma pequena guerra para os minhotos. Uma longa guerra que arrancou no Verão, com a suspeita de muitos, e que termina agora em Dublin onde 194 equipas queriam chegar. E nenhuma deles mereceu tanto o bilhete para terras irlandeses do que uma equipa que desafiou todas as probabilidades e no final saiu com as fichas no bolso.

 

Não se trata apenas da primeira final europeia de um clube pequeno como é, realmente, o Sporting de Braga.

Até na liga portuguesa, bem longe dos potentados europeus, o conjunto arsenalista era uma equipa pequena até há uma década atrás. Vivia na sombra da ascensão do seu vizinho mais próximo, o Vitória de Guimarães liderado por Pimenta Machado, e as aspirações dos adeptos locais passavam apenas por uma época sem muitos altos e baixos. Com a chegada de Manuel Cajuda, a princípios da década passada, o Braga começou o seu percurso. Depois passaram Jesualdo Ferreira, Jorge Costa e Jorge Jesus, dois técnicos que se sagrariam campeões nacionais à posteriori e um que deixou de lado uma carreira promissora. O projecto era desportivamente estável e economicamente viável. Mas, ainda assim, pequeno. Até mesmo para Portugal. Só que havia algo na pedreira bracarense que começava a mudar. Sem rivais no meio da tabela à altura, com a queda do Boavista e as habituais crises existenciais de Vitória de Guimarães e dos clubes madeirenses, o Braga foi delimitando o seu espaço. E com Domingos Pacicência começou a escrever a história.

Não terá sido mais importante o golo de Miguel Garcia do que aquele que apontou Paulo César na pré-eliminatória diante do Celtic de Glasgow. Naquele quente dia de Agosto o Braga ainda não era ninguém. Um mês depois, esmagado o poderoso Sevilla, os bracarenses eram já a equipa de moda na Europa. Foi um ano complicado e cheio de obstáculos difíceis pela frente. Celtic, Sevilla, Arsenal, Shaktar Donetsk, Partizan, Lech Poznan, Liverpool, Dynamo Kiev, Benfica...dez equipas de nível, três campeões nacionais, equipas de top das principais ligas, históricos do futebol, lembranças da Champions League. A nenhum lhes valeu os pergaminhos passados. No presente a onda de euforia de Braga podia mais. Muito mais.

 

Em 2003 o Boavista esteve perto de selar o seu destino com o apuramento para a final de Sevilla onde estava, também, o FC Porto. Falhou.

Na altura percebeu-se o quão difícil era a um clube português, pequeno ou grande, chegar a uma final europeia. Afinal foram três presenças na última década, uma na década de 90, quatro na de oitenta, nenhuma na de setenta e seis na de sessenta. 14 finais com sabor português. E sempre com os chamados “grandes”. O Braga rompe uma lança a favor dos outros, dos que também podem.

Sem estrelas, com essa discrição financeira que obrigou a deixar partir jogadores determinantes como Matheus em Janeiro, e com um caminho complicado, o mérito do Braga é tremendo. Mais do que um 4-3-3 ou um 4-5-1, mais do que a capacidade de Vandinho de ocupar espaços. Do pulmão de Leandro Salino. Das correrias de Silvio e Miguel Garcia. Dos golos de Meyong ou Lima. Do olhar cerebral de Hugo Viana ou da fantasia de Mossoró. Das defesas acrobáticas de Arthur ou dos cortes de última hora de Rodriguez ou Paulão. Mais do que tudo isso, o fenómeno do Braga é mais social do que desportivo. Mais moral do que táctico. Mais humano do que puramente futebolístico. É o grito de guerra de uma pequena urbe, de um clube modesto num espaço que se supõe que é exclusivo dos grandes. Grandes em nome, grandes em dinheiro. Mas também grandes em coração.

Há dez anos atrás, precisamente, a final da UEFA, como ainda se chamava, viveu uma noite louca entre um histórico como o Liverpool e um modesto como Deportivo Alavés. O Braga não vive no extremos dos vitorianos, um breve mas cintilante cometa do futebol espanhol, mas sabem bem o que é ter a desconfiança do mundo em cima de si. Desde então, todas as finais foram disputadas por clubes com um passado, com pedigree, mesmo que longínquo como o do Midlesborough ou Espanyol. Nenhuma teve um convidado tão discreto como este Braga.

 

Talvez por isso Dublin seja mais do que uma festa portuguesa. É uma festa de um tipo de clubes que tenta sobreviver entre os milhões, os critérios da UEFA, a corrupção, os tubarões do mercado e os naufrágios económicos. A festa de um clube que sabe qual é o seu limite mas que teima em tentar ir um pouco mais longe. Talvez por isso Dublin já seja arsenalista. Só que ainda não o sabe muito bem...



Miguel Lourenço Pereira às 07:38 | link do post | comentar

8 comentários:
De Pudget a 17 de Maio de 2011 às 17:11
Eu acredito que com a actual crise desportiva, financeira e humana do Sporting CP, o SC Braga consiga impor-se em menos de 5 anos como o 3º grande português a todos os níveis. E digo-o porque Braga trata-se da mais jovem cidade portuguesa em termos de idade dos seus habitantes, com uma estrutura académica que pulula e uma força mental tradicionalista na forma de apoiar e futurista na forma de projectar. Creio honestamente que o Sporting CP é exemplo do velho que cai no Outono e o SC Braga o exemplo perfeito do novo que surge na Primavera. Aliás, um é a antitese do outro em quase tudo.


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Maio de 2011 às 18:45
Pudget,

A grande arma do projecto Sporting era a formação e nos últimos anos tem perdido força. Se a futura directiva e equipas técnicas continuarem a apostar em folhas salariais e gastos de transferências incomportáveis, negligenciando o bom trabalho de Alcochete, o destino do Sporting está traçado.

O Braga terá, para o ano, um verdadeiro teste. Domingos herdou uma estrutura mas soube aproveitá-la muito bem. O seu sucessor, previsivelmente Jardim, terá uma grande sombra sob as costas e menos tempo. Esperemos que Salvador não cometa o erro de pedir mais do mesmo e com o mesmo ritmo porque o crescimento sustentado de um clube faz-se de grandes épocas e de épocas mediocres.

um abraço


De Filipe Marques a 18 de Maio de 2011 às 13:44
O GRANDE SPORTING CLUBE DE PORTUGAL, mesmo em crise é muito, mas mesto muito superior ao braga. è uma marca muito forte, alem de ter adeptos em todo o país e em muitos países no mundo. O braga actualmente é o porto b.
A luta do braga é com o guimarães.


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Maio de 2011 às 14:18
Filipe,

Entendo a frustração de um adepto mas olhe para a situação com certa lógica. O Nottingham Forrest tem 2 Champions League e anda há uma década na segunda divisão inglesa. O Leeds ganhou vários campeonatos e esteve mais abaixo ainda. O Atletico de Madrid, o terceiro grande espanhol, andou pela segunda e podia continuar...

A grandeza das marcas só funciona quando há resultados e uma politica desportiva coerente, dois aspectos que o Sporting não consegue conjugar há muito tempo. 3 titulos em 30 anos são números de equipa de dimensão média, não de um verdadeiro candidato ao titulo. E os numeros nunca mentem.

O Braga está no mesmo patamar onde já esteve o Boavista e falta-lhe um titulo (Liga, Taça, prova europeia) que cimente a sua posição. Mas a gestão financeira, a gestão desportiva do Braga, na ultima década, tem sido muito mais eficaz que o modelo de Alvalade. Mas o potencial do Sporting está aí, é preciso é saber capitalizá-lo.

um abraço


De zeataide a 18 de Maio de 2011 às 17:04
Caro amigo, espero, sinceramente, que esteja enganado. Não apenas por ser sportinguista mas porque, a acontecer, seria péssimo para o futebol português e outras modalidades onde o clube de Alvalade teve enormes êxitos. De resto, estou convencido que essa será a vontade de muita gente mas que, no fundo, não vêem o quanto negativo seria esse quadro. Lembrar que temos as melhores escolas de formação do mundo e que vamos a caminho das 15.000 vitórias, o que nos coloca apenas atrás do Barcelona nesse campo, é um orgulho para o desporto nacional e desastroso seria se o clube caísse numa situação de afundamento. Até acrescento: não vejo como pode acontecer... num caso desses seria o FIM. O SCP nunca foi nem será um ex-grande. Ou morre de vez ou reaparece no panorama desportivo nacional, como se prevê.


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Maio de 2011 às 18:36
Zeateide,

Quando digo que não vejo o Sporting como um grande actual não falo com desrespeito para a instituição, muito pelo contrário. Falo com a preocupação de um adepto português que acredita que a Liga e o futebol luso a nivel de selecções só é sustentado com equipas e projectos fortes, sejam do Porto, Benfica, Sporting, Braga, Vitoria, Nacional, Maritimo, Rio Ave, Boavista, Belenenses, ....

Todos os que conhecem a realidade das contas do Sporting e os problemas directivos sabem que o Sporting está numa situação extremamente complexa (do qual as modalidades também se ressentem) e terá de ter paciência e mão firme para arrepiar caminho.

O estatuto de Grande deve ser meritório e não estatutário. O Sporting foi o maior clube portugues até aos anos 60, é indismentivel, mas desde os anos 60 tem uma média de titulos minima para 50 anos de história. Se falamos nos ultimos 30 pior ainda. Noutras ligas houve grandes que o deixaram de ser, precisamente por isso, mas nunca deixaram de ser históricos. Cabe ao Sportin decidir o que quer ser no futuro.

um abraço


De Tiago a 18 de Maio de 2011 às 00:36
Bom dia,

não sou do SCP mas acredito perfeitamente que para o ano o sporting vá dar muita luta a benfica e porto. O braga terá uma época medíocre com um bom treinador (mas ainda não é excelente).

Em relação aos aspectos que falaram anteriormente, que levaram à sua crise, dois deles estão ultrapassados - humano (pelo menos em relação a um treinador profissional) e financeiro (com investimento de apoio ao treinador).

O sporting sempre viveu da prata da casa, e só isso não chega. As compras de jogadores sempre foram muito más.

Quanto ao braga, no próximo ano temo que o se presidente caia no erro que referiste. Aliás, foi esse mesmo erro que levou à não renovação do treinador (quando este saiu da champions para a liga europa)

Saudações


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Maio de 2011 às 08:17
Tiago,

Em condições normais sucederia tudo o que referes. O problema é que o Sporting, enquanto instituição, há muito tempo que dá provas de que não é bem gerido a nivel estrutural e isso afecta sempre a vertente futebolistica. Um clube que se proclama "grande" com base no seu imenso historial (em várias modalidades aliás) e não ganha mais do que 3 titulos em 30 anos, há muito que deixou de ser um "grande" realmente.

Não tenho a mais minima confiança nesta nova equipa directiva e quanto ao técnico, apesar de considerar Domingos um excelente treinador, não seria o primeiro a sair chamuscado de Alvalade sem poder deixar obra e serviço. A cantera do Sporting há muito que não produz jogadores de primeiro nivel ao mesmo ritmo de há 10 anos atrás - basta ver as prestações dos juniores e juvenis este ano - e isso nota-se. E mesmo os que chegam à primeira equipa rapidamente procuram sair, porque dão-se conta do ambiente em que vive o clube.

O Sporting deveria, por infra-estruturas essencialmente, dar a car no próximo ano especialmente se colocar a Europa de lado (porque FCP e SLB estarão muito mais focados nos seus compromissos europeus desde cedo) mas isso depende realmente do que querem os seus dirigentes.

Quanto ao Braga, Salvador cometeu um grave erro em Dezembro ao não renovar Domingos por algo que ele nunca deveria ter sido exigido a lograr. Um erro que podia ter sido maior se o técnico tivesse sido despedido em Janeiro como se suspeitou. O projecto bracarense tem mostrado funcionar com técnicos diferentes mas este plus de qualidade resulta também da gestão do leceiro e isso é preciso não esquecer. Se o Braga quer tomar o lugar do Boavista deveria, em primeiro lugar, encontrar um técnico que acredite na filosofia do projecto e mantê-lo faça chuva ou faça sol, e preparar-se para anos menos bem sucedidos porque o ritmo de altos e baixos é inevitável. Olhando para trás, para o Boavistão de Jaime Pacheco, foi precisamente isso que sucedeu. E não deixou de ser uma equipa histórica para o futebol português.

um abraço


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