Segunda-feira, 11 de Abril de 2011

O futebol vive de titulos. A história precisa de algo mais para escrever-se com H maiúsculo. O Pep Team desafiou a filosofia blaugrana e ajudou a enterrar, de uma vez, o espirito derrotista do clube de Barcelona. Culminou um trabalho de gerações no presente mas sem nunca descurar o futuro. Thiago Alcântara é o protagonista do amanhã. A referência a seguir, o exemplo perfeito de como uma filosofia subsiste quando a bola entra ou quando a bola bate na barra. Este Barcelona eterniza-se porque jogadores como Thiago estão preparados para tomar o testemunho.

 

 

 

Hoje em dia é fácil ver como a maioria dos clubes procura que as suas camadas de formação actuem como fazem os mais velhos.

Um conceito que parece elementar mas que demorou a popularizar-se por essa Europa fora. Mas uma coisa é ter todas as equipas a jogar num sistema táctico. Outra é criar uma filosofia que os jovens bebem desde o primeiro instante até à sua consagração definitiva. E para isso, acima de tudo, é preciso ter uma filosofia própria. Algo que o futebol, que vive do momento, dos títulos e da inconstância do tempo, dificilmente permite. Qual é a filosofia do Chelsea, do Real Madrid, do SL Benfica, da Juventus, do AC Milan ou do Manchester City?

Ninguém, nem eles mesmos, realmente o sabem. E não é por acaso que falamos de clube sem cantera. Sem filosofia de formação. Sem um espírito de grupo trabalhado desde a raiz. São clubes que vivem do e para o momento, de e para o resultado e que procuram, com o dinheiro, comprar o sucesso. Podem lográ-lo, e alguns conseguiram-no, mas estão destinados, tarde ou cedo, a ceder perante equipas com projectos a longo prazo. Arsenal, Manchester United, Shaktar, FC Porto, Olympique Lyon...Barcelona.

O clube catalão transformou-se na quintessência da filosofia futebolística. Misturou as origens do Futebol Total, adoptou a herança artística culé e a precisão táctica italiana e criou uma verdadeira máquina de vencer. Jogando um futebol atractivo, veloz, dinâmico, o Barça de Guardiola é uma equipa plena e matura. Mas é também o culminar de um processo evolutivo que não quer ser visto como a ultima etapa do caminho. Apenas mais um passo. Guardiola sucedeu a Milla na posição do playmaker e graças a ele La Masia, a escola que definiu o futebol de formação do clube blaugrana, começou a entender o que era preciso para manter o estilo de jogo. Desde Pep, jogador, que ali se treinam os seus sucessores tendo por base o seu ritmo, o seu estilo e a sua precisão. Os rondos popularizados por Rexach e Cruyff criaram Xavi e Iniesta. Mas também De la Peña, Fabregas...e Thiago.

 

Filho do brasileiro Mazinho, um dos mais talentosos jogadores da liga espanhola dos anos 90, Thiago é mais uma etapa na evolução.

Cresceu como jogador seguindo os ensinamentos posicionais que determinam a maturidade dos playmakers catalães. Toque curto, basculação lateral, visão de jogo, tabelas, futebol total com a ponta de uma chuteira. Desde a sua tenra infância que bebeu as mesmas palavras de Guardiola, Xavi, Fabregas e Iniesta. Desde cedo que percebeu que pontos tinha de desenvolver para singrar no Camp Nou. Apesar da sua idade, é já uma certeza. Define o jogo da Espanha juvenil, centraliza já em si o pensamento ofensivo do super-Barcelona quando Guardiola lhe dá, sem medo, a batuta. A sua coragem é também espelho dessa filosofia de nunca desistir. A mesma que evitou que Xavi um dia partisse, que Iniesta conseguisse roubar o lugar a Deco e que Fabregas triunfasse além-mar. Aliás, é o médio centro do Arsenal o mais prejudicado com a maturidade deste fantástico produto da La Masia. Com Thiago a preparar-se para herdar a camisola de Xavi, o Barcelona pode mesmo decidir saltar uma geração (a de Cesc) e esquecer-se definitivamente dos milhões que o Arsenal pede pelo seu capitão. Porque Thiago - e os que vêm a seguir - têm a lição bem aprendida.

O jovem hispano-brasileiro funciona porque o método de treino da Masia garante à primeira equipa que qualquer jogador, dos juvenis ou dos juniores, está preparado para assumir o seu papel no esquema da equipa principal. Guardiola confia na cantera porque é o primeiro a saber o que por ali se cose. Bartra, Fontás, Montoya, Dos Santos, Deulofeu, Soriano e Thiago são nomes de futuro que podem ter um impacto imediato, da mesma forma que Busquets tinha a licção bem aprendida e Pedro sabia o que lhe esperava quando Pep decidiu lançá-lo às feras. Essa forma de preparar o futuro, que começou no Ajax holandês e que Cruyff exportou para Can Barça, garante que este Barcelona é uma máquina de ganhar  com presente e futuro. Ultrapassado o vitimismo típico catalão, agora o Barça é quem é visto como a equipa arrogante que humilha o seu rival histórico, e todos os que se lhe atravessam pelo caminho. Não é por acaso que a sua equipa B, composta maioritariamente por jogadores na casa dos 20 anos, seja a terceira classificada da Liga Adelante. Ou seja, que mostra nível suficiente para subir de divisão, algo a que está vetado mas a que ninguém acabaria por surpreender. Graças ao génio de Thiago mas, sobretudo, graças ao génio de uma ideia.

 

 

 

Thiago é o futuro que pode transformar-se em presente assim que o clube e o seu técnico queiram. Tem maturidade, espírito competitivo e know-how para manter o ritmo qualitativo do jogo do Barça. Supera em classe e talento qualquer playmaker a jogar em Madrid, Valencia, Villareal ou Sevilla. E tem uma imensa margem de progressão. Não chega sozinho, atrás dele há toda uma legião de talentos à espera da sua oportunidade. Como moldou Messi, como moldou Iniesta, como moldou Pique, como moldou Xavi, La Masia voltou a demonstrar que ter uma ideia de futuro é a melhor forma de consolidar o presente. O Barça gasta dinheiro como qualquer outro clube, mas sabe a que joga. E sabe implementar uma filosofia do berço até à idade adulta. Talvez de uma forma inédita na história do futebol. Também por isso ou, talvez por isso, esteja hoje no trono internacional. E sem grandes ganas de abdicar. Thiago está lá para o garantir. 



Miguel Lourenço Pereira às 16:18 | link do post | comentar

2 comentários:
De joão d. a 13 de Abril de 2011 às 08:20
o porto tem filosofia de formação? quantos jogadores da cantera estão no plantel portista?


De Miguel Lourenço Pereira a 13 de Abril de 2011 às 09:20
João,

Ter uma filosofia e ter jogadores no activo são cenários diferentes. Há clubes com muita gente da cantera porque não tem outro remédio, isso não é ter uma filosofia própria.

Critico a gestão da cantera do FC Porto, um falhanço do clube nos últimos anos, mas está claro que ao ver os jogos das equipas de formação há uma filosofia comum ao plantel principal e por isso muitos dos jogadores que singraram nos últimos anos seguiram um modelo padrão instituido, habitualmente centrais com critério, guarda-redes com soltura e médios box-to-box de talento.

Que depois o plantel principal os aproveita isso, infelizmente para o futebol português, é outra história. O Barcelona é o que é hoje porque sabe aproveitar essa filosofia de trabalho.

um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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