Quinta-feira, 3 de Março de 2011

Sistemas tácticos há vários. Modelos de jogo também. Mas quando um técnico coloca em andamento o seu plano táctico só uma pergunta tem duas respostas possíveis: como procurar o golo? A partir dessa eterna dúvida nasce na sua mente o posicionamento, o modelo e o sistema táctico a seguir. Procurar o golo de forma vertical ou de forma horizontal? Os dois caminhos para a mesma resposta viveram lado a lado durante toda a história do beautiful game.

 

 

 

Não existem equipas exclusivamente verticais ou horizontais.

Esse mito desfez-se, particularmente, com a aplicação da pressão defensiva alta defendida por Arrigo Sacchi (mas começada vinte anos antes por Viktor Maslov) que colocava o ponto final à evolução que o Futebol Total tinha preconizado durante o final dos anos 60. Os ângulos geométricos do jogo começavam a ganhar contornos camaleónicos a tal ponto que se tornava cada vez mais complicado descobrir em que filosofia encaixar várias equipas de topo. Passada a confusão inicial hoje a televisão, a informação no momento e a proliferação de livros de estudo tácticos permitem-nos analisar com mais certezas do que dúvidas (e a dúvida essa, terá sempre de subsistir) essa dualidade geométrica que define o futebol moderno.

Se o futebol vertical é a base ideológica e moral do jogo, a base da escola inglesa (que não britânica, cuidado) e ainda hoje tem uma série de adeptos indefectíveis, a necessidade de explorar outros caminhos trouxe um rasgo de horizontalidade de que o jogo se beneficiou grandemente a partir dos anos 70. O futebol de toque curto contra o jogo de passe largo. A velocidade do corpo frente à velocidade da bola. Conceitos, qual yin e yang futebolísticos, destinados em encontrarem-se, vezes sem fim, num qualquer campo relvado do mundo.

Do 2-3-5 original - o primeiro sistema táctica desenhado para compreender as subtilezas do jogo - até ao 4-2-4 que se limitou a colocar em ordem um movimento físico no terreno de jogo herdado pela evolução da escola centro-europeia, o futebol de passe largo sempre predominou nos modelos de jogo das grandes equipas e selecções mundiais. Mas essa verticalidade dominante nunca foi exclusiva. Se Chapman (e o seu WM) procurava a velocidade do contra-golpe naquilo que se tornaria, grosso modo, o primórdio do kick and rush (culminado pelo notável Wolverampton de Stan Cullis já bem entrados os anos 50) a verdade é que a sua filosofia não era assim tão diferente da que defendiam Pozzo ou Meisl, os seus rivais ideólogos continentais. O campo, para o Manager pré-Futebol Total, era visto mais como uma extensão ao comprimento do que, propriamente, um espaço de largura. A bola deveria chegar o mais depressa possível ao outro lado do terreno de jogo, com o mínimo número de toques e, se possível, com efeito surpresa para a defesa rival. Portanto o papel do meio-campo era frequentemente relegado para um segundo plano e a aposta colocava-se, essencialmente, no jogo de laterais, extremos e dianteiros. Eficácia, acima de tudo.

 

 

 

Hoje em dia essa visão é vista com algum desdém por grande parte do público.

Exceptuando a hipocrisia vigente que acredita que há formas melhores e piores de encarar um desafio, tornou-se claro que o modelo vertical tinha provavelmente mais defeitos do que virtudes. O desgaste físico - com a profissionalização do jogo a todos os sentidos que permitiu a jogadores de equipas inferiores apresentarem níveis físicos impossíveis de conseguir na era amadora - tornou esses jogos de ping-pong a larga escala em verdadeiros pesadelos para as grandes equipas. Ao desgaste físico adiciona-se também o nascimento de uma cultura resultadista que implicou um reforço do sector defensivo que significou, com o 4-3-3 e o 4-4-2 (popularizados durante os anos 60) a terminar com a imagem do extremo puro. Sem esses velozes ases e com cada vez mais médios centros cerebrais ou físicos nos onzes tornou-se imperioso pensar no espaço geométrico do campo de uma forma diferente. A bola passou a correr mais que o homem. E a correr para outros lados antes de chegar à baliza.

Obviamente que a verticalidade subsistiu (a bola continua a ter de entrar) mas os caminhos para lá chegar mudaram. O modelo soviético de Maslov e Lobanovsky aprimoram os ideais românticos da escola centro-europeia que de Hogan a Meisl (e Sebes) já tinham anunciado um novo caminho, apesar de forma menos evidente. As trocas horizontais entre defesas - em lugar do habitual sprint lateral ou dos passes largos em frente - a forma com o médio centro criativo (fruto da evolução táctica húngaro que tornou Hidgekuti no primeiro pensador de jogo moderno) passa a controlar os tempos, mudou radicalmente o modelo de jogo ocidental.

Essas trocas de bola rápidas de um lado para o outro, tão similar às movimentações do basquetebol ou andebol (e o treino profissional futebolistico começou a prestar atenção a esses detalhes) à espera de uma abertura na brecha defensiva rival, tornou-se na base do que viria a ser cunhado como Futebol Total. Um modelo de jogo mais profissional - longe do anárquico 4-2-3-1 (apesar de na época ninguém pensar nesse sistema para descrever o Brasil de 70) onde os jogadores, antes que o modelo, tinham a primazia - e que iria exigir aos jogadores, independentemente da posição, um maior conhecimento da bola. E do jogo. Os laterais capazes de deslocar-se em diagonais para o centro do meio-campo. Os extremos convertidos em médios centro de ataque e os avançados com capacidade de começar um lance na linha de meio-campo fizeram da Holanda de 74 o exemplo perfeito do modelo. Mas a ideia base - com mais ou menos detalhe - já estava a ser trabalhada há mais de uma década. A própria Inglaterra - do astuto Ramsey - só se sagrou campeã do Mundo quando trocou o 4-2-4 vertical de sempre e apostou num 4-4-2 losango que privilegiava esse horizontalidade.

 

 

 

A partir dos anos 70 o futebol horizontal - salvo alguns exemplos ingleses de sucesso - passou a ser o santo e senha, com as suas sucessivas variações (defensivas - a Itália de Bearzot ou a França de Jacquet; ofensivas - o futebol champagne de Platini, o Brasil de Telé Santana, a Espanha de Aragones, que reforçou a popularidade do 4-5-1). A verticalidade ficou associada a equipas mais físicas (Chelsea e Inter de Mourinho, Roma e Milan de Capello) ou que apostavam sucessivamente no contra-golpe para surpreender rivais com maiores recursos técnicos. A verdade é que apesar das mudanças dos sistemas tácticos as equipas hoje procuram controlar melhor os ritmos de jogo e aproveitam sempre para horizontalizar a bola o máximo de tempo possível. Mas poucos conseguem resistir à eficácia e imediatez de um jogo mais vertical e, portanto, menos organizado e disciplinado. Equipas como o Barcelona - talvez o exemplo mais bem conseguido da história - ou o Arsenal, conseguem manter essa disciplina lateral que nos ensina que no campo se joga em toda a largura (com o Barça a recuperar, muitas vezes, um ataque de 5 bem aberto, com o apoio dos laterais e médios interiores)  e no menor comprimento possível. O domínio do espaço e o controlo da bola pautaram a evolução do vertical para o horizontal. No entanto a vitória do Inter de Mourinho continua a ensinar-nos que não há um único mandamento para triunfar no futebol. Vertical, horizontal, o golo continua a ser o que faz a diferença no final dos 90 minutos!


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Miguel Lourenço Pereira às 22:30 | link do post | comentar

2 comentários:
De Marco Morais a 3 de Março de 2011 às 23:25
Mais um belo post, neste excelente blog que tive o privilégio de 'descobrir' há bem pouco tempo.

Agrada-me imenso o caminho que segues para analisar o mais belo desporto do nosso tempo.

Muitos parabéns por isso.

Sobre o post,

O futebol, como a vida, está cheio de dualidades. Esta que nos apresentas é mais uma delas e está cheia de pertinência. Todos procuram o golo, isso é imperativo, mas a forma para lá chegar pode mudar de jogo para jogo, ou de momento para momento.

Penso que qualquer apreciador, ou interveniente, do jogo nunca poderá desprezar qualquer estilo ou modelo, pois todos em determinado momento serão úteis para chegar ao desejado fim.

Hoje está em voga, o modelo de toque horizontal, que procura o melhor o momento para a verticalidade, do Barça. O paradigma, em teoria, é o melhor - ter mais tempo a bola que o adversário, acabar as jogadas sem perigo de transição, recuperar alto - mas esse sucesso tem muito trabalho por trás e não é só o futebol do Barça que tem de ser 'copiado' mas sim todo o modelo futebolístico do clube. É a vitória de um estilo, disso não tenhamos dúvidas.

Depois deste Barça, o futebol 'mais' vertical pode continuar a ganhar-lhe jogos - o Arsenal foi bem vertical no Emirates - mas a questão será: o que dá mais garantias de vitória?


De Miguel Lourenço Pereira a 7 de Março de 2011 às 08:31
Olá Marco,

Obrigado pelas palavras e pelos elogios, és sempre bem vindo ao EJ.

É precisamente essa dualidade moral que faz do futebol um exercicio muito mais complexo do que a maioria nos quer fazer crer com as análises do correcto e do errado, do belo e do feio. No futebol não há nada disso, há apenas caminhos paralelos, dispares que querem chegar ao mesmo sitio mas por mecanismos e vicissitudes bem distintas.

O Barça sabe ser vertical e controla melhor os tempos quando é uma equipa horizontal. O Arsenal em Inglaterra é forçosamente horizontal e encontra problemas com equipas que se fecham e que lhe exigem uma maior verticalidade. Entre ambos repartem alguns dos grandes momentos futebolisticos da última década e são também exemplos de metamorfoses tácticas impressionantes num curto espaço de tempo.

um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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