Domingo, 27 de Fevereiro de 2011

Enquanto os estádios na África do Sul começam a ser deixados ao abandono, a FIFA começa a olhar com séria preocupação para a próxima sede do seu cobiçado Mundial. Faltam três anos para o Brasil receber o mundo do futebol mas os problemas acumulam-se, as soluções escasseiam, os números não quadram e o fantasma de uma substituição de última hora é algo bastante real...

 

 

 

Primeiro foram os problemas com o mítico Maracanã. Depois a guerra entre a FIFA e a prefeitura de São Paulo que ameaça deixar a maior cidade da América Latina sem um único jogo do Mundial de 2014. Agora é tudo o resto. O Mundial do Brasil ainda não arrancou e já está nas bocas do Mundo. Pelo pior motivo. A FIFA aprendeu a lição da África do Sul e sabe que tem pouca margem de manobra. Os estádios sul-africanos que não foram vendidos a empresas privadas estão, como o Soccer City, ao abandono. Literalmente. Pode o mesmo cenário voltar a repetir-se?

Tudo indica que sim. O Brasil, histórico do futebol como nenhum outro país, é também um quebra-cabeças logístico e financeiro para a FIFA. Apesar de emergir de forma cada vez mais clara como uma nova potência mundial, a corrupção local e os graves problemas estruturais de um país que pisa o acelerador agora para recuperar o atraso de muitos anos complicam, e muito, a organização de um torneio tão complexo como um Campeonato do Mundo. E os problemas nem são as distâncias entre sedes nem mesmo a imensa criminalidade que abunda nos principais centros urbanos do país. Hoje em dia é o próprio esqueleto do torneio, as suas principais instalações, que se encontram no ponto de mira. E sem estádios não há jogos, sem jogos não há Mundial. A CBF, controlada pelo omnipresente Ricardo Teixeira - para muitos um forte candidato à sucessão de Sepp Blatter - distribuiu contratos, favores e dinheiro. Mas o retorno tem sido praticamente nulo. Os prazos já estão a ser largamente ultrapassados e actualmente, das 14 cidades-sede, só duas podem prometer ter tudo a tempo para o Mundial. A própria organização da Taça das Confederações - marcada para Junho de 2013 - está em equação já que nenhum dos dois estádios que parecem cumprir todos os requisitos (estar prontos até Janeiro do mesmo ano) têm dimensão suficiente para albergar os jogos entre os campeões continentais de selecções. Cuiabá (no Mato Grosso) e São Salvador da Baía são as únicas cidades que têm seguido à risca os prazos, mas até elas já apresentam significativas derrapagens nos orçamentos. Mas são cidades pequenas dentro do organigrama FIFA e isso levanta vários problemas.

 

Os casos mais sérios que a organização do torneio tem de resolver centram-se em São Paulo, Brasilia e Curitiba.

No caso paulista há uma real possibilidade da cidade ser retirada definitivamente do calendário. Nem o Morumbi, nem o Paceambu nem o Antárctica, os três estádios mais emblemáticos da cidade, têm condições para albergar um jogo do torneio e os seus donos não têm demonstrado o mínimo interesse em melhorar os recintos. A própria prefeitura - a câmara municipal local - não está disposto a fazer um esforço financeiro para trabalhar nas profundas reformas que todos os recintos necessitariam. Ricardo Teixeira anunciou em Junho que a cidade estava oficialmente fora dos seus planos mas nem a FIFA nem o governo estão interessados em perder uma cidade de 20 milhões de um torneio da magnitude de um Mundial. Será provável que em última análise a situação seja desbloqueada mas os prazos apertam e a cidade corre contra o relógio.

Já a capital vai receber, de longe, o maior investimento individual num recinto, o Mané Garrincha, que será ampliado a 70 mil espectadores. Mas as obras estão paradas por ordem do tribunal federal que detectou várias irregularidades nos contratos. Uma situação que se repete por todo o país e deixa a nu a corrupção omnipresente em todo o esquema organizativo do torneio. Curitiba, por outro lado, está em stand-by. Há um estádio - o Arena da Baixada, do clube local, o Atlético Paraneense - mas o dono está pouco interessado em estar dois anos sem casa e, ainda por cima, ter de desembolsar una quantia que triplica o seu orçamento anual. Os governos estaduais e locais estudam criar uma bolsa de apoio financeiro mas as obras são profundas e nunca estariam prontas antes de 2013.

Casos graves mas que não caminham sós. Em Manaus, no coração do Amazonas, nem o aeroporto local nem o estádio receberam ainda o investimento previsto porque o banco federal bloqueou o aval por falta de garantias. Situação em tudo similar ao que se vive em Fortaleza, Natal e Belo Horizonte - que ambiciona a receber o jogo inaugural caso São Paulo esteja oficialmente fora. Já o Rio de Janeiro - que com a Copa América em 2015 e as Olimpíadas em 2016 terá um triénio repleto de eventos - vive em suspenso as obras de melhora no mitico Maracanã. Mas os atrasos são evidentes e o dinheiro escasseia. A isso alia-se o problema dos acessos, com sucessivos atrasos nas melhoras dos aeroportos locais. Demasiados senãos para deixar boas perspectivas para o futuro.

 

 

 

A FIFA e a CBF têm dois anos para apresentar seis estádios (de 14) prontos para albergar a Taça das Confederações e um ano mais para ter tudo a postos para o Mundial. Se em casos anteriores a FIFA já foi forçada a correr contra o relógio, os problemas no Brasil são mais profundos e passam por estruturas locais, alojamento, transportes, segurança e, acima de tudo, tentar escapar de uma sombra de corrupção que pautou a candidatura desde o primeiro dia. 64 anos depois o Mundial pode voltar a visitar a terra de Vera Cruz. Mas muitos começam a perguntar-se se a visita valerá realmente a pena...


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Miguel Lourenço Pereira às 12:14 | link do post | comentar

4 comentários:
De Pudget a 1 de Março de 2011 às 15:11
Não fazia ideia de que a situação estivesse assim tão exasperante. mas na tua opinião e sem sensacionalismos envolvidos, achas realmente que as coisas poderão alguma vez por passar pelo cancelamento da competição no Brasil?

www.contingentetuga.blogspot.com


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Março de 2011 às 15:20
Pudget,

Tenho a certeza de que a prova não será cancelada porque para a FIFA é uma aposta muito importante devolver o torneio ao Brasil e o impacto seria de tal forma que condenaria definitivamente o espirito organizativo de Blatter depois dos flops da Africa do Sul e do Japao/Coreia.

No entanto está claro que estes problemas serão pagos, e com muitos juros, pelos brasileiros porque a pressão FIFA far-se-á sentir no governo Roussef e junto da CBF que injectarão muito dinheiro, atropelarão muitas leis para ter tudo pronto a tempo. Será em cima da linha e provavelmente, como em Portugal, muitas infra-estruturas que não os estádios deixarÆo muito a desejar e o publico vai aderir muito pouco (pelos preços dos bilhetes, pela dificuldade de acesso e pelos gastos envolvidos na operaçao logistica) a um torneio que não deixa boas impressões desde o principio.

Um passo já foi dado por S. Paulo que parece que finalmente aceitou um acordo para subsidiar um estádio que nem existe e terá de ser feito em 3 anos com gastos astronómicos. Isso numa cidade que já tem 4 estádios activos.

Tipico.

um abraço


De hmocc a 1 de Março de 2011 às 18:00
Parece incível mas não é. A FIFA, que só vê lucros, devia investir do próprio bolso (nunca vai acontecer) para levar a cabo o trabalho necessário.

Se daqui a 1 ano as coisas estiverem na mesma, preparem-se para ver o Mundial mudar-se para os "Estates"...


De Miguel Lourenço Pereira a 2 de Março de 2011 às 08:13
Hugo,

Não acredito que o Mundial mude de sitio porque isso seria um golpe brutal tanto para a FIFA como para o Brasil que em 3 anos receberá 3 grandes eventos (Mundial, Copa America, Olimpiadas). O que farão é gastar muito mais do orçamentado, trabalhar 24 horas por dia e ter tudo pronto mesmo que isso custe mais do que alguma vez receberão. Não é por acaso que muitos clubes, que são os donos oficiais dos estádios, não querem os encargos dos recintos nem ter de aguentar com a sua manutenção porque sabem que são incomportáveis a médio prazo para as suas tristes finanças. Mas quando o problema chegar já a FIFA estará a contar rublos e petrodolares toda contente!

um abraço


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