Terça-feira, 8 de Fevereiro de 2011

Viveu profundamente a metamorfose do futebol alemão, ferido no orgulho menos pela guerra e mais pela ascensão estética dos seus grandes rivais do centro europeu. Esteve em dois dos momentos chaves da história do futebol europeu, sempre do lado que a história preferiu esquecer. Mas o homem que engoliu a "Laranja Mecânica" merece bem o seu lugar na história de um jogo que também ajudou a moldar.

 

 

 

Quando o árbitro britânico Graham Taylor apitou para o final do encontro que marcava o fim do Mundial de 74, os alemães deitaram as bandeiras aos céus em delirio. O resto do Mundo olhou estupefacto. Como era possível que a selecção, consensualmente considerada não só como a melhor do torneio mas também como uma equipa que tinha marcado um antes e um depois do jogo, tivesse caído de forma tão clara aos pés de outra equipa. Essa outra equipa era a RF Alemanha. A selecção, já se sabe, a Holanda. A equipa que o mundo aprendeu a amar profundamente e que entraria para a história, efectivamente, como a percursora do jogo moderno. Só um homem, provavelmente, podia entender a importância daquela vitória. Helmut Schön, então seleccionador alemão, tinha estado sentado no banco - como adjunto - 20 anos antes, em Berna, quando o mesmo cenário colocou um fim às ambições da equipa dos mágicos magiares. A vitória da RFA então sobre a Hungria foi, para os anos 50, o mesmo que a mesma vitória dos germânicos, diante da Holanda, para o futebol da década de 70. O dedo de Schön esteve em ambas. Personagem extraordinário, ele foi quem definiu o ritmo e o espirito de sobrevivência, da metamorfose do futebol alemão ao largo da segunda metade do século XX.

Como ajudante de Sepp Herberger, pertence ao ex-jogador do Dinamo Dresden, a táctica de marcação homem a homem ao mentor do jogo hungaro, Hidgekuti. Vinte anos depois, os seus onze jogadores exploraram bem os espaços deixados pelo estilo de jogo veloz e móvel da mitica "laranja mecânica". Dois triunfos históricos que definiram o futebol europeu, marcando num primeiro caso, o último suspiro do WM. E no segundo, a vitória do 4-4-2 sobre o mais anárquico 1-3-3-3, imposto por Michels.

 

O destruidor de mitos, como poderia ser conhecido, nasceu em Dresden no lado oriental alemão e jogou largos anos pelo Dinamo local, chegando a internacional na equipa que viveu os dias mais sombrios do futebol germânico. Ao serviço da Mannschaft conheceu Herberger, eleito seleccionador no pós-guerra, e tornou-se no seu braço direito depois de em 1952 ter sido eleito, interinamente, seleccionador do Sarre, provincia independente alemã do pós-guerra. Farto de viver na recém-criada RDA, desertou pelo arame farpado que dividida a cidade e rumou a Munique. Com o seu mentor, em 1954, teceu uma teia à equipa hungara de Gustav Sebes, alinhando uma equipa propositadamente débil no primeiro jogo, na fase de grupos, onde foram goleados, para depois apresentarem-se na máxima forma no jogo decisivo. Uma tarde perfeita para Rhan, Seeler, Walker e companhia e que significou o primeiro titulo futebolistico da então RFA. Acima de tudo, foi a vitória do parente pobre do futebol centro-europeu. Os alemães tinham crescido a ver os elogios do mundo ao jogo dos austriacos de Meisl nos anos 30 e aos hungaros de Sebes na década de 50. Mas nem o Wunderteam, nem os Magiares chegaram a vencer um titulo mundial, e os alemães sim.

A vitória foi tão importante para a federação da RFA que Herberger e Schön tornaram-se intocáveis. O primeiro seria seleccionador nos dois Mundiais seguintes - onde a RFA foi absolutamente relegada para um terceiro plano - e Schön ficaria com o posto a partir do fracasso do Euro 64, quando se cumpriam 10 anos da glória de Berna. Prometeu uma nova atitude e demonstrou-o rapidamente. Em Inglaterra chegou até à final, graças a um 4-2-4 móvel, com Beckenbauer como elemento nuclear na transição defesa-ataque. Quatro anos depois, no México, só a lesão do capitão e o cansaço acumulado impediu os alemães de aguentarem o ritmo da Itália. Mas em 1972 ninguém os conseguiria parar. Schön tinha adoptado, finalmente, o 4-4-2, inspirando-se na série de talentos que emergiam entre Munique e Monchenlagdbach. Deu a batuta do jogo a Netzer, apostou na eficácia de Heynckhes e Muller e transformou Beckenbauer no lider, recuando-o para a posição de libero, onde o Kaiser estava destinado a comandar o jogo. A vitória no Europeu, frente à URSS, foi o inicio da grande era do futebol alemão. Dois anos depois, com o Mundial organizado em solo germânico, a responsabilidade era máxima e o sucesso mediático da Holanda de Cruyff, aliado à derrota inicial com a vizinha RDA (no único jogo entre as duas Alemanhas da história) minou a confiança dos adeptos. Mas o seleccionador tinha as suas ideias. Abandonou o virtuosismo dos jogadores do Borussia e apostou na velocidade e força d consagrando Holzenbhein, Bonhof, Overath e Grabowski atrás do possante Hoeness e do ágil Muller. Os alemães chegaram merecidamente à final e no jogo decisivo começaram a perder desde o primeiro minuto. Mas souberam controlar os ritmos, explorar os erros defensivos da linha mais recuada dos Orange e antes dos 45 já tinham dado a volta ao marcador. Uma vitória histórica, que só Schön seria capaz de explicar.

 

 

 

O homem que definiu o gene competitivo dos alemães ainda seria finalista vencido do Euro 76 (o tal penalty de Panenka) e só uma má performance na Argentina, dois anos depois, o motivaria a deixar um posto que conhecia de memória. Mas a sua herança competitiva e táctica ficou, de tal forma que o conjunto orientado pelo seu adjunto, Jupp Derwall, repetiu os ensinamentos de Schön até à exaustão quando venceu o Europeu de 80 e marcou presenças na final de 82. Seria um dos seus melhores alunos, aquela cuja ruptura mais lhe custou, que levaria as suas ideias um pouco mais longe para devolver a Alemanha aos titulos mundiais: um tal de Beckenbauer.



Miguel Lourenço Pereira às 16:16 | link do post | comentar

2 comentários:
De manuel antonio a 10 de Fevereiro de 2011 às 11:57
Não conhecia a história deste senhor! Se fosse nos dias de hoje, era considerado um messias do futebol...epah, que carreira incrivel! Admirável mesmo. Mas o que fica para a memória no futebol nem sempre são os vencedores, apesar de se dizer que sim.
Para mim, é muito mais marcante a injustiça e o cinismo alemão que derrotaram a sonhadora Hungria em 54 e a mágica Holanda de 70... e assim como eu, deve sentir meio mundo. Daí que o amor pelo senhor Schon não venha ao de cima! Obrigado pela liçao de história na mesma =)


De Miguel Lourenço Pereira a 10 de Fevereiro de 2011 às 12:08
Always welcome!!!

E no entanto, depois de ter estado a rever as duas finais (54 e 74) nos dois jogos a Alemanha foi melhor equipa. Contra a Hungria controlou perfeitamente o jogo de transição do Hidegekuti (ajudou que o Puskas estivesse tocado) e foi muito mais incisivo enquanto que os hungaros tinham, como quase sempre sucede, muita cerimónia diante do golo.

Em 74 a Holanda marcou na primeira jogada e até perto do final da 2 parte o jogo foi todo da RFA. O Beckenbauer fez um jogão, o Cruyff foi totalmente anulado e a velocidade dos extremos, particularmente o Holzenbhein, foi avassaladora. A vitória foi merecida, apesar de, no computo de toda a prova, a Holanda ter sido mais impressionante.

O Schonn é vitima dos media que gostam sempre de criar heróis e vilãos, e a Hungria de 54 e a Holanda de 74 são heróis trágicos, ao contrário do Brasil de 70. E demonizar os ganhadores tornou-se pratica comum no futebol quando a vitória não caiu nos bolsos de quem os media realmente querem, como se viu com o Inter o ano passado ou com a Itália em 2006. Mas quem ganha, sempre o merece. Por algo o terá feito. E este senhor fez milagres.

grande abraço!


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Miguel Lourenço Pereira

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