Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

A falta de verdades absolutas no futebol torna-o num microcosmos proclive à eterna surpresa. Em 1994 o Barcelona goleou o Real Madrid por 5-0 naquilo que foi o culminar do Dream Team. Um ano depois o clube merengue devolveu a moeda, com os mesmos números, no curto mandato de Valdano. O Benfica não chegou tão longe mas provou, poucos meses depois de sair vergado do Dragão por 5-0, que os pontos débeis do FC Porto são suficientes para dar a volta ao tabuleiro. Uma vitória convincente que diz tão bem de quem ganha como diz tão mal de quem perde.

 

 

Não foi um grande Benfica nem era necessário que o fosse. O FC Porto há semanas que vinha dando sinais de ter perdido o gás com que arrancou a temporada. Prioridades mal calculadas, um plantel desiquilibrado e uma postura pouca agressiva condenaram os azuis e brancos mesmo antes do apito inicial. Ninguém esperava um futebol ofensivo dos encarnados e, efectivamente, estes optaram pelo caminho pragmático que tão bom resultado tinha dado ao rival no duelo para a Liga. Então os homens de André Villas-Boas foram autoritários, seguros e jogaram no erro do adversário, a quem superaram tacticamente durante todo o encontro. Culpou-se, e merecidamente, a temeridade de Jesus, que subestimou o potencial destructivo de Hulk no flanco. Ontem foi a vez de Villas-Boas, que passou as últimas semanas ocupado em mind games à la Mourinho, subestimar o orgulho ferido do ainda campeão nacional. O esquema táctico do FC Porto foi o mesmo da vitória por 5-0, mas as peças eram diferentes. E isso fez toda a diferença.

Com Sereno e Sapunaru nas laterais - e com um desastrado Maicon no miolo - os da casa perderam uma das suas maiores armas: a rápida transição entre a defesa e o ataque. A ausência de Alvaro Pereira tem condenado - e muito - o jogo lateral ofensivo dos dragões. Na ausência de Fucile (tal como Walter possivelmente por problemas disciplinares internos) a equipa perde asas e sem isso não consegue voar. Villas-Boas gostaria de emular o belo futebol do Barcelona de Guardiola mas só pode fazer omeletes quem tem ovos e Fernando é um médio de construção limitado, a Moutinho e Belluschi sobra-lhes a garra onde escassa o ingénio e, claro, sem laterais ofensivos e avançados todo o terreno (Hulk, no meio, é facilmente domável), o projecto está condenado ao fracasso. O Benfica marcou em dois erros defensivos que também podem ser vistos como lances de insistência. Essa garra própria da equipa da época passada não se viu nem em Aveiro nem no Dragão, as duas derrotas inaugurais de Jesus às mão do jovem técnico portista. Ontem o Benfica foi mais garra e raça do que talento e invenção, mas foi precisamente essa disciplina táctica que fez a diferença.

 

Com Coentrão e Maxi Pereira abertos nas alas, o Benfica manobrou com facilidade o apático meio-campo portista.

César Peixoto uniu-se a Javi Garcia no miolo para bloquear o jogo transicional de Moutinho e Belluschi e deu a Gaitán e Salvio toda a liberdade para deambular entre as linhas defensivas azuis. Com Cardozo como pivot declarado e Saviola como redistribuidor de jogo, o conjunto encarnado chegou com a licção bem estudada e soube ocupar bem os espaços deixados vazios pelos jogadores azuis.

Coentrão utilizou as suas habituais subidas pela banda como elemento desiquilibrante e foi uma combinação sua com o argentino, totalmente só, que permitiu ao Benfica inaugurar o marcador. A sua posterior expulsão - já com o jogo num confortável 2-0, fruto de um remate bem colocado de Javi Garcia que ganhou uma confusa segunda bola à frente da baliza de Helton - deu a Jesus o pretexto perfeito para organizar as tropas e defender o resultado. A sua abordagem foi menos entusiasta mas muito mais realista. Percebeu onde o rival era mais débil - nas laterais defensivas e no cone do triângulo a meio-campo - e não teve de se preocupar com o ataque azul e branco, orfão de um dianteiro móvel como Falcao capaz de dar liberdade a Varela - o melhor em campo - e Hulk. Com o brasileiro preso pelo seu próprio técnico - a lembrar o desespero de Cristiano Ronaldo face a Queiroz no passado Mundial - os azuis foram inofensivos. E sem alternativa no banco, as substituições de Villas-Boas foram, apenas, mais do mesmo, sem alterarem nunca a dinamica táctica do jogo, algo que Jesus soube controlar com as entradas de elementos que souberam pausar o ritmo do jogo (Airton e Aimar) e explorar os espaços vazios (Jara) face à inoperância rival. Se tecnicamente o duelo foi equilibrado, tacticamente o tabuleiro de Jesus pareceu sempre estar um degrau por cima e a vitória acabou por ser tão justa como inevitável.

 

 

Caidos em descrença depois do humilhante 5-0, o Benfica entrou numa série de jogos sem perder que confirmou com esta vitória categórica e que deixa quase resolvida uma meia-final que terá de esperar 70 dias para recomeçar. A corrida para revalidar o titulo pode ser utópica, mas  o reencontro com a sua melhor versão pode deixar os seus adeptos mais descansados sobre o potencial do colectivo a médio prazo. O FC Porto continua a ter a tiro os seus grandes objectivos - Liga e Europe League - mas as sensações deixadas não são as mesmas de 2010. Falta frescura, profundidade de banco e agressividade. E consciência das suas próprias limitações. Licções importantes para os próximos rounds, mais determinantes que os confrontos prévios e onde a margem de erro se tornará inevitavelmente menor.



Miguel Lourenço Pereira às 14:47 | link do post | comentar

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Ya existe Avenida Eusebio, Estadio da Luz; NO EXIS...
¡Suerte....!
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO