Terça-feira, 1 de Fevereiro de 2011

A venda milionária de Fernando Torres era esperada, tarde ou cedo, depois do desmoronar do projecto "Spanish Liverpool". Perder um dos melhores jogadores do futebol actual pode parecer dar um passo atrás nesse suplício em que vive a Kop há largas duas décadas. Mas com Kenny Dalglish ao leme, a entidade do Merseyside percebeu finalmente que para dar dois passos em frente é preciso muitas vezes dar um passo atrás, mesmo que esse passo seja tão temivel como o furacão "El Niño".

 

 

 

Uma das primeiras decisões que Dalglish tomou, assim que chegou a Anfield, foi recuperar jovens da formação Red, capazes de sentir na pele o espirito da Kop. E essa mensagem não foi um mero exercício para captivar os adeptos locais. Foi também uma forte mensagem para dentro num clube marcado, na última década, por uma invasão de atletas estrangeiros, insensiveis muitas vezes ao espirito que Shankly desenhou a meados da década de 60. Entre esse grupo destacava-se o "Spanish Pool", armada criada por Rafa Benitez para dar um cunho pessoal ao seu projecto europeu em Mersey. E que se foi desfazendo, progressivamente, até restar apenas Reina e Torres. Os eternos insatisfeitos.

No novo projecto de Dalglish não havia lugar para a nostalgia de um projecto falhado que começou tão bem. O escocês quer começar do zero e para isso quer, acima de tudo, moldar a equipa ao seu estilo e à sua mentalidade, profundamente arreigada à história do clube. Torres, provavelmente um dos melhores avançados que passaram por Anfield, não pareceu nunca ter a paciência necessária para aguentar mais um projecto a médio prazo. De todos os seus colegas da selecção campeã do Mundo e da Europa ele, uma das suas estrelas mais cintilantes, é quem tem o palmarés mais reduzido. Apenas um titulo da segunda divisão espanhola, com o Atlético de Madrid.

Desejoso de novos desafios e de titulos, Liverpool tornava-se, cada vez mais, uma desilusão dificil de esconder no meio de tantos problemas fisicos que foram destroçando a impecável herança da sua primeira época onde só um brilhante Cristiano Ronaldo lhe impediu de se tornar o goleador e jogador do ano da Premier League. O Chelsea colocou o dinheiro na mesa, Torres a vontade, escrita em papel. Comete um erro. Este Chelsea é um projecto envelhecido e está agora, paradoxalmente, na sua pior fase dos últimos sete anos.  O Verão poderia oferecer outras oportunidades e a exigência imediata que terá em Stanford Bridge pode pesar mais que a vontade de agradar e superar os problemas fisicos que o tornam, cada vez mais, num jogador questionado pelos adeptos locais. Por outro lado, o Liverpool tem todas as condições para dar um salto qualitativo invejável. Novos donos com dose extra de paciência (e dinheiro), um treinador emblemático e com uma ideia bem definida e um plantel rejuvenescido de nomes ansiosos por fazer história. O presente falou mais alto mas tal como sucedeu com o seu Atlético de Madrid, pode ser que o espanhol se mude para Londres e que os titulos do futebol inglês façam a viagem no sentido inverso rumo ao norte.

 

Com os quase 60 milhões que Abramovich deixou nos cofres de Anfield, foi a vez de Dalglish mostrar o que tem pensado para o seu novo Liverpool. E ficou claro que é um regresso ao passado, um autêntico back to basics que poderá demorar alguns meses a tomar forma, é certo, mas que acabará, inevitavelmente, por revolucionar o estilo de jogo que predomina no relvado de Liverpool.

A compra de um dos melhores jogadores do futebol actual - o uruguaio Luis Suarez, para quem nunca se acabarão os adjectivos - e da maior promessa ofensiva do futebol britânico - o jovem internacional Andy Carroll - deixa claro que o técnico procurará recuperar o histórico 4-4-2 numa parceria entre um dianteiro móvel e altamente tecnicista e um ponta-de-lança fixo e letal. A fórmula de Keegan-Toshack e do próprio Dalgish-Rush, a base dos maiores sucessos da história do clube, repete-se uma vez mais depois das experiências tácticas de Benitez e Hogdson.

Mais de 60 milhões gastos numa nova dupla ofensiva é um investimento de risco mas também uma declaração de intenções para um futebol mais directo, à procura do golo e dos resultados.

Pelo caminho ficaram as negociações (em suspenso) com o promissor Charlie Adams, um médio criativo dos poucos que o solo britânico é capaz de produzir, que terá a missão num futuro de se juntar a um já veterano Gerrard e a um super-motivado Raul Meireles, finalmente a encontrar o seu espaço no desenho táctico do escocês. Dalglish não quer apenas jovens da formação red, como o lateral direito Kelly, a sua primeira aposta pessoal. Quer também jogadores promissores e com vontade de imiscuir-se num espirito colectivo que largamente tem faltado em Anfield no meio de tantos egos e idiomas. A última equipa bem sucedida da história do clube, exceptuando o episódio, quase fortuito, da final de Atenas em 2005, foi liderado por um batalhão de jovens britânicos (em 2001) com Owen, Heskey, Fowler, Carragher, James e companhia. O 4-4-2 está de volta e com ele um estilo mais vertical (com um extremo mais adiantado e um médio a fechar) e um meio campo de combate e construção, onde Meireles e Gerrard compartilharão a batuta, dando maior liberdade ao jogo criativo de Joe Cole. Progressivamente o Liverpool voltará ao mercado, para emendar as falhas que ainda são claras na defesa, e provavelmente para procurar um substituto de Reina, que certamente não quererá caminhar só. Serão decisões nucleares que podem alargar ou encurtar a espera dos imensos e fanáticos seguidores reds.

 

 

 

Com Suarez a emular o próprio técnico, algo que o mais estático e fisico Torres seria incapaz, Kenny Dalgish procura assim recuperar uma era desportiva que entrou num poço profundo para nunca mais ser vista em Anfield Road. É certo que não tem o plantel de sonho que herdou em 1986 mas o clube deve-lhe a ela as descobertas de Barnes e Beardsley, entre outros, figuras nucleares no final da era dourada do Pool. Serão o uruguaio e Carroll, pelo que se pagou uma verba exagerada não fosse isto o mercado de Inverno e ele um inglês promissor na liga dos negociadores mais duros, os porta-estandartes desta nova era onde o sotaque espanhol correrá o risco de ser substituido por um forte grito scouser capaz de resgatar os mortos da memória da história e devolver à Kop o espirito de lenda que sempre a acompanha.



Miguel Lourenço Pereira às 13:12 | link do post | comentar

4 comentários:
De Joao a 1 de Fevereiro de 2011 às 14:59
Não há palavras para qualificar o mercado inglês...

Esta quantia paga pelo Carrol é no mínimo anedótica... É por estas e por outras que o Liverpool não se reergue tão cedo...


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Fevereiro de 2011 às 15:15
João,

A mim parece-me muito dinheiro por um jogador problemático e sem grandes provas dadas como o Carroll. Mas é, acima de tudo, uma mensagem. De que o Liverpool voltou forte ao investimento, que apostará em jogadores locais e com um grande potencial e que encaixem no sistema táctico que quer o técnico, um 4-4-2 à antiga com um jogador móvel e um jogador mais fixo, lembrando tambem o Newcastle de Keegan dos anos 90 ou o Leeds do inicio dos anos 2000.

Claro que os preços foram inflacionados, incluindo os de Torres ou David Luiz, mas o mercado, particularmente no Inverno, é assim. Talvez em Junho Carroll chegasse mais barato, mas era uma prioridade para uma equipa que ficaria sem referencias ofensivas quando mais precisa delas.

um abraço


De Joao Rodrigues a 1 de Fevereiro de 2011 às 16:43
Tenho acompanhado a epoca do Carroll é verdade que o valor é um exagero, mas ele esta a fazer uma epoca verdadeiramente notavel, estava a levar uma equipa banal como Newcastle as costas com golos e assistências. O valor também é exagerado até porque ele se encontra lesionado só devendo estar totalmente recuperado em Março, embora em Newcastle houvesse a esperança que ele jogasse já dia 5 de fevereiro frente ao Arsenal.

Resta agora também saber qual será o passo do Reina, se opta por ficar ou sair estou curioso para ver qual vai ser o seu caminho.

Em relação ao Spanish Liverpool, espero ainda assim que o Daglish aproveite o Daniel Pacheco é um jogador tremendo atenção a ele no Mundial de Sub-20 em Setembro.

Sobre o Chelsea ao contrário de ti não acho que seja um projecto acabado, nem que este ano esteja afastado do titulo. Na parte do projecto acabado quem tem um dono como o russo renova facilmente a equipa, não me admirava nada de ver o Drogba sair po Real em junho e que a contratação do Torres agora tivesse haver com essa possivel saída. Em relação ao Titulo esta há 10 pontos, mas tem os dois jogos para jogar com United ( se não estou em erro), vai receber Tottenham, Liverpool, City. É verdade que há margem de erro mas se vencer hoje em Sunderland, campo díficil pode começar dar um inicio a uma recuperação notavél


De Miguel Lourenço Pereira a 1 de Fevereiro de 2011 às 16:51
João,

Começando pelo fim, o Chelsea não é uma equipa acabada mas está numa clara curva descendente. Plantel curto, velho e sem a ambição de há uns anos, precisa de um sério abanão e não é Ancelloti que o vai dar. David Luiz e Torres chegam para duas posições deficitárias não para aumentar as opções disponiveis, até porque tanto Drogba como Anelka estão a fazer uma época abaixo do esperado. Podem ser campeões e vencer a CL, claro, mas não é aquela força pujante de há seis anos e não vejo Abramovich a gastar de novo milhões no clube, depois de defender tanto o projecto de cantera, como se tem notado. E isso leva tempo.

Quanto ao Carroll, belissimo avançado, deverá voltar a meados do mês e até lá será provavelmente o Kuyt a compartir o ataque com o Suarez, para mim uma estrela que há muito merecia um projecto assim. O Pacheco é, realmente, muito bom, e pode ser que o Dalglish o aproveite, mas o Reina tem os dias contados, pode ser que até vá para Old Trafford em Junho.

um abraço


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