Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011

Durante largas décadas o lado de lá da "cortina de ferro" foi um poço de mistérios e suspense que escondia surpresas inquetantes que deixavam sempre demasiadas perguntas no ar. Mas nenhuma realidade soube ser tão constante e enigmática como a aventura cientifica de um canalizador de Kiev que transformou o clube local no alter-ego desportivo do Bloco de Leste.

 

 

 

Nos dias cinzentos e obscuros da União Soviética era dificil escapar ao centralismo imposto por Moscovo.

No mundo desportivo, a realidade não era de todo distinta e o futebol soviético cresceu com alguns êxitos pontuais de clubes de terras distantes da praça vermelha (Lituania, Geórgia, Arménia, Ucrânia), mas eram as entidades da capital, bem distribuidas entre o poder dominante, quem impunha o ritmo de uma competição de que se sabia muito, muito pouco no Ocidente. O dominio quase asfixiante da capital chegou ao fim nos anos 70 e durante os últimos quinze anos de vida do império soviético, Moscovo tornou-se na excepção, em vez de se manter como a regra.

O motivo de tamanha desfaçatez com as autoridades do regime, um regime já de si caquético e a fraquejar claramente, começou a desenhar-se numa sala deserta da Universidade de Dniepre. Nas tardes de 1971, um antigo canalizador tornado treinador e um professor universitário com formação de cientista astrofísico passavam horas a procurar encontrar a fórmula cientifica certa para tornar um jogo conhecido pela sua imprevisibilidade, num facto consumado de rigidez matemática e cientifica.

Juntos, e durante anos, desenvolveram as suas teorias que depois foram passadas à prática. Programas computorizados, testes psico-técnicos dignos de cosmonautas e uma politica férrea de disciplina - tanto desportiva como humana - moldaram o grande caso de sucesso do futebol de leste europeu: o Dynamo de Kiev.

 

O aprendiz de canalizador em causa era Valery Lobanovsky. O seu ajudante, mentor do projecto que transformou o clube ucraniano no santo e senha do futebol soviético, o professor Anatoly Zelentsov. Juntos criaram o ideal do desportista comunista, mecanizado até ao limite.

Os treinos do Dynamo de Kiev não eram iguais aos das restantes equipas soviéticas. Antes de cada época o professor Zelentsov fazia os jogadores passar uma série de testes fisicos e psicotécnicos para controlar ao máximo a margem de erro que estes podiam cometer em cada jogo. Lobanovsky defendia que uma equipa que tivesse no final dos 90 minutos uma margem de erro entre os 12 e 15% seria invencivel. O problema estava em chegar a esses números, aparentemente sobre-humanos e, principalmente, incapazes de ser contabilizados e estudados. Os programas de dados, totalmente computorizados, estudavam as abilidades naturais dos jogadores e as suas reações ao treino fisico e psicológico. Os jogadores tinham não só de saber onde se movimentar como também eram forçados a memorizar todos os movimentos dos seus colegas. Como jogadores de futebol americano, os homens de Kiev sabiam durante os 90 minutos onde estaria cada um dos seus colegas a cada momento. Não havia espaço para a improvisação neste projecto. Mecanizados, adestrados e fisicamente preparados, os atletas de Lobanovsky tornaram-se máquinas no tapete verde. E passaram a dominar mais do que o futebol soviético.

No primeiro ano ao serviço do clube pelo qual jogou - em 1974 - Lobanovsky levou para casa o titulo, apenas o quarto do clube em quarenta anos de história. Venceria o troféu mais oito vezes até 1989. Pelo meio também ficaram as conquistas na Taça da URSS (seis no mesmo período) e os triunfos na Europa. Se o modelo parecia claramente funcionar no mercado interno (só uma bela geração do Dynamo Tiblissi e a habitual corrupção interna que permitiu pontuais vitórias do Dynamo e Spartak de Moscovo quebraram o reinado dos ucranianos) foi na Europa que Lobanovsky provou a eficácia da sua teoria. Em 1975 o Dynamo de Kiev, liderado pelo veloz e brilhante Oleg Blokhin, o primeiro jogador ucraniano a vencer o Ballon D´Or, destroçou os rivais até sumar a sua primeira Taça das Taças. Onze anos depois, em Lyon, repetiu a dose, com um claro 3-0 frente ao Atlético de Madrid. Um veterano Blokhin agora acompanhado pela geração mágica, moldada desde a raiz pelo técnico e liderada por Igor Belanov, consumou o triunfo europeu num ano dominado totalmente pelas equipas do Bloco de Leste. Faltou apenas a Taça dos Campeões, perdida em duas meias-finais, em 1977 e 1987, caindo aos pés de Borussia Monchenlagdbach e FC Porto, duas equipas onde primava...o virtuosismo individual.

 

 

 

O projecto de Lobanovsky não encontrou eco apenas no seu clube local. Seleccionador soviético durante dois periodos distintos, o técnico transformou uma titubeante selecção numa potencia mundial com performances brilhantes em 1986 e 1988, onde se sagrou vice-campeã europeia. Uma equipa composta, quase exclusivamente, por jogadores do seu Dynamo. Com a queda do Muro e a chegada da perestroika os atletas do velho lobo saltaram a cortina de ferro apenas para falhar totalmente no futebol ocidental. Nem Zavarov (Juventus), nem Mikailichenko (Sampdoria), nem Aleinikov (Rangers) nem mesmo Belanov, Ballon D´Or em 1986, (B. Monchenlagdbach), sobreviveram ao regime dictatorial e cientificamente calculado do seu mentor. Num futebol dinamico, colectivo mas com esboços constantes de individualismo, eles eram um grão de areia no meio do oceano. E naufragaram estrepitosamente. Tardou dez anos ao técnico em recriar um esboço do seu projecto original. Mas os Shevchenko e companhia já eram productos do futebol ocidentalizado. O experimento cientifico ficou escondido por debaixo dos ares da cortina, das pedras do muro, da bruma do tempo...um tempo onde foi soberano.



Miguel Lourenço Pereira às 14:18 | link do post | comentar

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