Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011

Na Luz as formas sempre foram traiçoeiras e as suspeitas sobre a verdade desportiva um fantasma, que pairava sobre o tapete verde por onde brilharam alguns dos maiores jogadores da história do futebol luso, qual a desaparecida águia Vitória. A manobra da direcção encarnada para facilitar a passagem dos encarnados à próxima fase da Taça de Portugal resume toda a falta de ética que faz do futebol português um doente terminal com pouca esperança de recuperação.

 

 

 

O segundo melhor ataque do futebol português, enrabietado por uma série de vitórias consecutivas, media-se à segunda melhor defesa da prova numa eliminatória atrasada da Taça de Portugal. Como ultrapassar tão espinhoso obstáculo sem suar em demasia?

A resposta encontrou-a, antes de Jorge Jesus, a direcção encarnada. Dias antes do duelo da tão propalada "festa da Taça" a imprensa especializada começou a anunciar o interesse dos encarnados na figura central da defesa algarvia. Táctica velha em Portugal, com o Benfica como habitual protagonista (mas não só), e que visa tanto desmotivar o rival como empolgar os adeptos/leitores. Se o caso ficasse por aí, como tantos outros, o mal seria menor. Afinal, a fortaleza mental continua a ser condição sine qua non para ser-se um bom jogador. E o central brasileiro Jardel, não confundir com a eterna promessa por cumprir da direcção encarnada, é-o ou, pelo menos, tem demonstrado sê-lo com inusitada regularidade nesta temporada. Mas o caso foi mais longe, tristemente mais longe. E definiu um jogo que estava ganho antes sequer do apito inicial.

Jardel, convocado pela equipa técnica e previsivel titular, foi retirado da lista de titulares do Olhanense a meio da tarde. A direcção encarnado reuniu-se pela manhã com a homóloga algarvia e decidiu avançar para a contratação do jogador. A poucas horas do duelo directo entre ambos. E cometeu assim um dos actos mais anti-desportivos de que há memória no futebol luso. Mas que não é único e que, afinal, sucede a outros casos passados, quase todos curiosamente na Luz, como os do academista Marcel ou o lateral Jorge Ribeiro sem esquecer o mais recente dos casos. Fábio Faria, titular no jogo do titulo pelo Rio Ave na passada época quando já tinha lugar assegurado no clube encarnado para...o dia seguinte. Uma realidade que nem o técnico do Olhanense, Daúto Faquirá, soube contornar quando recebeu a informação de que o seu jogador mais vezes utilizado não jogava por motivos de força maior. Ele há coisas...

 

O Benfica venceu na primeira parte com facilidade uma equipa desmoralizada e descaracterizada.

Os algarvios até já tinham perdido na Luz para o campeonato mas, desta feita, nem tiveram opção a apresentar batalha e os encarnados continuam assim a corrida ao único troféu de prestigio a que podem optar no final da época. Uma velha obsessão de Jorge Jesus que agora terá de se medir ao Rio Ave para seguir na peugada do Jamor. Onde poderá encontrar-se, de novo, com o FC Porto, que resolveu com serviços minimos a última equipa dos campeonatos da Federação na prova.

O futebol português continua assim a viver um duopólio que, quando não resolvido no relvado, é resolvido fora dele. Independentemente de cortar com todos os laços da ética desportiva. O Benfica tem todo o direito a optar a um jogador, o Olhanense (e a Traffic Sports) todo o direito a vender. E Jardel em aceitar saltar de bando. Nada a dizer.

Mas realizar uma operação destas a meia dúzia de horas de um jogo decisivo para ambos e impedir assim, sem margem de manobra, que uma equipa actue como tinha previsto, destruindo à partida os planos tácticos do visitante é, no minimo, anti-desportivo. Se a justiça desportiva existisse, em realidade, até podia ser criminal. Afinal não foi na Premier League que um clube foi multado por alinhar jogadores poucos habituais contra um dos candidatos ao titulo num jogo a meio de semana? Se na Old Albion isso - que no fundo é uma decisão táctica do técnico - é punível, imaginemos o que seria uma situação similar num campeonato a sério, com leis a sério e com uma cultura desportiva verdadeira?

A actuação da direcção encarnada, a mentalidade pequena da direcção olhanense e a conivência das autoridades que regulam a prova (leia-se Federação Portuguesa de Futebol, ela também a viver na maior das ilegalidades) diz muito sobre o estado comatoso da moral do futebol luso onde tudo vale para ganhar. E onde todos apontam o dedo uns aos outros para passar a mensagem de que o pecado do rival lava o meu pecado. Os adeptos benfiquistas lembrar-se-ão certamente disso na hora de se defender. Não sabem como fazê-lo doutra forma. Porque não há, realmente, outra forma.

 

 

 

Jardel irá para o Benfica, como foram Marcel, Jorge Ribeiro e Fábio Faria (e tantos outros nomes no passado recente e distante) e é bem possível que não volte a jogar até ao final do ano. Nestes negócios de ocasião o futebol português é perito em validar contratações ou empréstimos que funcionam mais como manobras de controlo de bastidores do que necessidades futebolisticas. A falta de valores aliada à falta de qualidade de jogo faz da Liga Sagres (e das restantes provas menores) um dos campeonatos menos interessantes e captivantes do Velho Continente. Salvando-se as honrosas prestações europeias da última década (os anos de ouro do FC Porto, a final europeia de Sporting, os êxitos inesperados de Boavista e Braga), o futebol português é hoje um doente apestado em modo terminal. A bola tem a sua própria ética. Em Portugal ninguém parece importar-se muito com isso.



Miguel Lourenço Pereira às 08:39 | link do post | comentar

13 comentários:
De MP a 13 de Janeiro de 2011 às 13:11
Não me digas que ontem o Benfica ganhou o jogo por causa da falta do central Jardel? Ele deve ser o melhor jogador do mundo!... Se tivesse jogado, o Benfica nunca marcaria 5 golos, e mais, o Olhanense é que estaria a festejar a passagem aos quartos da Taça!
Ou então podia acontecer outra, algo semelhante ao que escreves mais acima sobre o Fábio Faria: jogava contra o Benfica e mais tarde a contratação era anunciada. O que é que os pensadores da bola como tu iriam escrever? Algo do género: "ele antes do jogo já estava comprometido com o Benfica e por isso facilitou naquele lance". Mesmo que não fosse uma fífia por aí além isto ia ser dito com toda a certeza.

Nunca mais volto a este blogue.


De Miguel Lourenço Pereira a 13 de Janeiro de 2011 às 13:58
MP,

O seu problema é o problema da maioria dos adeptos portugueses. Colocam o seu amor clubistico ao seu amor pelo futebol. Isso fica evidente no seu comentário, no seu PS e na sua atitude. Tem todo o direito a ser aqui, não sou ninguém para dizer aos outros como pensar.

Mas aqui, no EJ, o futebol, o beautiful game, a razão de tudo muito antes que existissem os clubes, prima sobre os demais. E a ética no futebol, por muito que não acredite ou não o pratique, existe ou devia existir.

Claro que o seu clube podia ter vencido por 10-0 ontem com Jardel no terreno de jogo. Nada a dizer. Mas se não vê nada de errado na atitude das directivas, incluida a do Olhanense, então está tudo dito.

Cá não faz falta nenhuma!!


De Pudget a 14 de Janeiro de 2011 às 12:36
MP: Eu acho que a atitude infantil e desconcertada do "nunca mais volto a este blog" vem confirmar ainda mais o que o texto do post, muito bem escrito aliás, verificada na mentalidade do adepto português: tacanhez, falta de vergonha, pequenez moral.

Grande post uma vez mais, começo a ficar sem adjectivos para este blog. O meu 2º blog de eleição, logo a seguir ao Jogo Directo!

Parabéns


De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Janeiro de 2011 às 12:59
Pudget,

Obrigado, é sempre bom saber que o clubismo tem excepções no rectângulo luso.

um abraço


De MP a 13 de Janeiro de 2011 às 13:25
Esqueci-me do PS

Obviamente és portista, logo, não te fica bem falares em ética e jogos de bastidores.

3ª Eliminatória
Limianos

4ª Eliminatória
Moreirense (já nem falo do golo mal anulado)

Oitavos-de-final
Juv. Évora

Quartos-de-final
Pinhalnovense

Ele há coisas...


De OAntiLampiao a 13 de Janeiro de 2011 às 18:29
Em 97/98 e 07/08 jogaram em casa em 4 eliminatórias consecutivas
ele há coisas ...


De Pedro Almeida a 14 de Janeiro de 2011 às 01:32
Boa noite,

Tratando-se ou não de falta de desportivismo julgo que há algumas coisas que se podem referir. Por exemplo quando o Sporting "trocou" Wender pelo Abel li em toda a imprensa desportiva (artigos de opiniao incluidos) que poderiam ter esperado mais uma semana para o Wender nao jogar com o Sporting e assim nao marcar os 2 golos (ou 3 nao me recordo) que conduziram à derrota do Sporting de José Peseiro. Ou seja apontou-se uma critica onde pelos vistos terá sido a atitude certa.

Quanto a falta de etica julgo que é so consultar o numero de emprestados e jogadores comprometidos que o Porto tem na primeira liga. Quanto a falta de etica é ouvir as escutas que teimam em nao sair do youtube. Quanto a falta de etica é saber que o presidente do FCPorto recebia (ou recebe?) arbitros em dias antes dos jogos. Quanto a falta de etica é atirar bolas de golfe, é atirar galinhas, é incentivar uma guerrilha norte-sul que so esta na cabeça de alguns.

Sim, tambem se podem falar de autocarros incendiados, de very lights, e por ai a fora, ninguem é santo nesta historia.

Quanto à resposta que aqui li que a paixão clubistica por vezes nos perturba as opiniões julgo que acontece exactamente o mesmo consigo. Um abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Janeiro de 2011 às 10:14
Pedro,

Basta ler o arquivo de este blog para desarmar a sua última frase. No EJ precisamente a critica é extensiva a todos os clubes. No caso do FCP foi criticada a transferencia de Cissokho ao AC Milan (o caso dos dentes) e a politica de empréstimos que é, a dia de hoje, uma das maiores vergonhas do futebol europeu. É só procurar os textos e fazer as devidas comprovações.

Precisamente porque ninguém é santo, a pena é que as pessoas continuem a defender o seu clube mesmo quando sabem que age mal. É o chico-espertismo à portuguesa que é capaz de ter ideias como as que estão por detrás dessa famosa venda Wender. Em Portugal parece que ser "esperto" vale mais do que ser "honrado". Quando é assim, há pouco a fazer.

FCP, SLB, SCP, SCB, todos os demais cometem erros. Gostava era que, como passa aqui no EJ, os apoiantes de cada clube o saibam reconhecer. Só assim se contribui para termos todos um futebol melhor. Quando a única defesa é o ataque, sacar casos de clubes rivais como desculpa como faz o Pedro no meio do seu comentário ou os anteriores comentaristas, o único que se consegue é tapar o sol com a peneira. Mas o sol continua lá, malhereuxement!!!

um abraço


De Pedro Almeida a 14 de Janeiro de 2011 às 13:19
Confesso, sou um adepto de chico-espertismo :)

Quando falei dos casos do FC Porto não estava a usar o ataque como defesa, porque nem estava a defender o Benfica pois acho que neste casp não precisa defesa.

Aborrece-me um bocado falar-se pouco de futebol e mais de penaltys e casos em Portugal. Felizmente este blog não é um desses casos e assim espero que continue, independentemente da sua paixão clubistica.

Estou esclarecido, cumprimentos



De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Janeiro de 2011 às 14:06
Pedro,

Tudo entendido também ;-)

um abraço


De Anónimo a 18 de Janeiro de 2011 às 03:19
Ninguém critica, na mesma semana compram um jogo (jardel) e o Elmano oferece 3 pontos escandalosamente, no pasa nada. Como sempre

Branqueamento total.

Esta semana não haverá conferências de imprensa de vitor PEreira, apelos a boicotes, contratos rasgados em directo nem invasões de estúdios de televisão.

É apenas o normal.

http://thebluefactoryofdreams.blogspot.com


De tiago s a 20 de Junho de 2013 às 21:26
que texto ressabiado... não esperava isto deste blog. Miguel acabaste de perder um leitor assíduo, isto é demais.

Cumprimentos


De Miguel Lourenço Pereira a 21 de Junho de 2013 às 13:09
Tiago,

Sinto muito, mas subscrevo-me!


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