Sábado, 1 de Janeiro de 2011

O mundo mediático de hoje tem um apetite insaciável pelo agora e tem a tendência a exagerar o que se está a passar, aumentando exponencialmente a sua magnitude, como uma arma perfeita para vender. Do outro lado da barricada haverá sempre uma imensa lista de conservadores, autênticos "velhos do Restelo", incapazes de admitir que há algum sistema táctico mais eficaz que o WM. Entre os que acham que a perfeição está eternamente no agora ou eternamente no passado, o debate é eterno. No meio, algures, poderá estar a virtude. E talvez essa virtude tenha até nome e apelido: Arrigo Sacchi.

 

 

Não há dia em que se consulte a imprensa desportiva, sites, revistas e blogs e não se leiam multiplos elogios ao Pep Team.

Muitos deles merecidos, claro está. Mas exagerados, como tudo nos dias de hoje parece ser. Da mesma forma há quem se agarre, como um cravo a arder, a memórias que muitos nunca viram nem irão ver - e portanto, que não podem debater - colocando-as no pincaro da glória. Mas a verdade, esse conceito tão perigosamente subjectivo, diz-nos que o futebol está estancado há quase duas décadas. Mediaticamente tornou-se num negócio imenso e a evolução tecnológica não permite um debate maior, mas também um visionamento mais completo do jogo em si. Mas inovações contam-se pelos dedos de uma mão. Tacticamente o jogo está asfixiado, procurando variações das mesmas ideias, hoje facilmente copiadas em tempo recorde - um problema consequente da liberdade de comunicação global - ao contrário dos imensos debates que duravam anos, entre estilos bem diferentes. Há mais coisas que unem do que separam os principais conceitos de jogo de hoje, sejam aplicados em Madrid, Londres, Barcelona ou Milão. E quase todos esses conceitos têm uma origem recente actualizada. Talvez aquela equipa que, pela última vez, soube interpretar a filosofia do jogo e dar-lhe um cunho inovador e pessoal, para ficar eternamente na história: o AC Milan de Arrigo Sacchi.

Pensemos. Josep Guardiola, génio como poucos, sabe que não inventou nada. Nem ele, nem José Mourinho, a sua nemésis. Nem os "ingleses" Arsene Wenger, Alex Ferguson ou Fabio Capello. Todos trabalham sobre uma mesma base, adaptando as suas variações a factores tão distintos como jogadores disponiveis, condições de treino, estilo de competição e idiossincrasias especificas de cada instituição desportiva. Da mesma forma que a politica de cantera do Barcelona só funciona ali o futebol veloz e bem aberto nas alas funciona em Old Trafford mas não em Milão. Mas a herança de Sacchi é omnipresente. Guardiola bebeu de Cruyff, que por sua vez bebeu de Michels, o grande inventor e inovador pré-Sacchi. Mas a eficácia defensiva do actual Barcelona devem tudo ao estilo criado pelo modesto técnico italiano que Silvio Berlusconi recrutou do nada em 1986. E que fez história. As equipas de Mourinho, letais na transição defesa-ataque, são "sachianas" até à medula. Capello foi o seu discipulo mais directo. E mesmo Ferguson, que treina da mesma forma há 25 anos, e Wenger, herdeiro do foot-champagne da França dos anos 80, foram forçados a disciplinar tacticamente e mentalmente os seus jogadores para um modelo de jogo que nunca mais foi o mesmo depois da licção de Arrigo.

 

 

 

"Não sabia que para ser jockey antes era preciso ser-se cavalo!".

A histórica frase de Sacchi resume a forma como o anterior vendedor ambulante encarou aqueles que suspeitavam que alguém que nunca tinha jogado futebol profissional poderia ser um técnico de elite. Não esteve no topo muito tempo (um cenário muito similar ao de Cruyff) mas marcou o futebol profundamente. O italiano foi o primeiro técnico cientifico fora do meio a ter sucesso e criou escola (van Gaal e Mourinho seriam, posteriomente, os melhores continuadores da sua filosofia) por desafiar todos os conceitos pré-concebidos e aceites. Trouxe uma abordagem nova e dinamica que despertou um futebol estancado e cada vez mais aborrecido. Os anos 80 começavam a desenhar-se como os anos do futebol defensivo (basta lembrar a Argentina de 86), com o final do romantismo brasileiro e francês dos anos prévios a dar o toque de finado. Para este novo mundo era preciso trazer uma nova postura, mentalidade e ritmo de jogo. Sacchi leu esse fenómeno antes que qualquer outro e antecipou-se. Captivou outro visionário, esse mais mediático, Silvio Berlusconi, e em 1986 começaram uma parceria de sucesso que durou meia década.

Sacchi não era um técnico defensivo. Todo o contrário. O seu AC Milan foi uma das mais formidáveis máquinas de ataque da história do jogo. Mas foi também um relógio suiço atrás, o que lhe permitiu atingir um equilibrio inédito. Todas as grandes formações de ataque anteriores eram débeis atrás e todas as grandes equipas defensivas sofriam para marcar. O seu projecto rossonero criou um equilibrio que hoje é a mãe de todas as tácticas. Também não inventou a defesa em linha (um conceito criado por Thys no seu Anderletch dos anos 70), mas aprimorou-a ao mais minimo detalhe. Para isso contou com um quarteto único. Tassoti, Baresi, Costacurta e Maldini tornaram-se no simbolo da defesa perfeita (mesmo com um mediano Galli debaixo dos postes), com uma sincronia inusitada. Sacchi mudou por completo a função do sector defensivo. Não só aprimorou a disciplina defensiva como potenciou a incorporação dos laterais ao jogo ofensivo bem como a aposta em centrais que sabiam jogar com a bola nos pés. O espirito de capitão de Baresi funcionou à perfeição como lider de uma defesa que sabia sair com a bola nos pés e que apostava  asfixiante do novo conceito de pressão alta - algo inédito até então. O sucesso deste ritmo demolidor foi um dos principais argumentos para que, pouco depois o Internacional Board aprovasse o final do passe atrás ao guarda-redes. Nada voltaria a ser como dantes.

Essa pressão alta funcionava graças à precisão da defesa mas, essencialmente, à conjugação técnico-táctica do miolo do terreno de jogo. Se Ruud Gullit, monstruoso na transição do 4-4-2 para um precoce 4-4-1-1, e van Basten eram os simbolos mediáticos, o trabalho de Donadoni, Ancelloti e Colombo, junto com o terceiro holandês em contenda, Rijkaard, era fulcral na manobra de transição de Sacchi. Com ele a equipa nunca atacava com dois ou defendia com quatro. Saltava de um 2-5-3 a um 4-2-4 num piscar de olhos. A velocidade de Gullit e Donadoni e a procura do espaço de Rijkaard e Ancelloti reduziam o comprimento do campo ao máximo e as equipas rivais passaram a ser obrigadas a rodar às mesmas rotações dos rossoneri. Impossível para um futebol habituado às suas pausas e ralentizações.

 

 

 

Não é por um mero acaso que a última equipa a vencer duas Champions League consecutivas (1988 e 1989) tenha sido o AC Milan de Sacchi. Poderia ter ganho a terceira não fosse um problema logistico em Marselha que obrigou a equipa a abandonar o terreno de jogo sem perder o encontro, sendo eliminado posteriormente na secretaria. No Calcio de então, da Juventus de Laudrup, do Inter de Mathaus, do Napoli de Maradona, da Roma de Voeller, da Fiorentina de Baggio, do Parma de Zola e da Sampdoria de Mancini e Viali - la creme de la creme como nunca o futebol europeu viu - o seu dominio não foi tão claro. Campeões em 1988, seriam vices em 1990 e 1991. As lesões de van Basten e Gullit e a propensão pelos palcos europeus impediu um dominio mais evidente. Mas a sua visão de futuro criou uma escola que hoje é seguida pela esmagadora maioria dos técnicos contemporâneos. Lippi e Capello - que herdou a sua estrutura para ganhar três ligas e uma Champions -  tornaram-se nos seus discipulos imediatos mas o modelo Sacchi rapidamente saltou para lá dos Alpes. O técnico que perdeu um Mundial por um penalty ganhou um lugar na história pelo seu estilo metódico e assertivo. Se alguma vez houve realmente perfeição no futebol ela podia ter encarnado perfeitamente num bloco de notas de um génio chamado Arrigo.



Miguel Lourenço Pereira às 12:38 | link do post | comentar

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