Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2010

Israel ainda não é um país muito dado à magia do desporto-rei. Apesar das boas sensações do Hapoel Tel-Aviv, poucos são capazes de contar pelos dedos das mãos as principais figuras do futebol jogado pelos filhos das doze tribos. Mas essa odisseia, como a marcha de Moisés, teve um inicio. Nos pés de Avi Cohen, um lateral capaz de fazer a diferença, um jogador capaz de ultrapassar barreiras insondáveis, um profeta antes do tempo...

 

 

 

Há uns anos o mundo maravilhava-se com os golos de Revivo, então a grande estrela do melhor Celta de Vigo da história. Recentemente o You Tube ofereceu aos mais incautos os talentos de um tal Gui Asulin, que o Barcelona não quis guardar e que acabou na folha de pagamentos dos árabes - e viva a ironia - do Manchester City. Pelo meio estão os nomes que ninguém se lembra, as gestas inombráveis e os clubes que todos confundem com os rivais cipriotas, gregos ou turcos. É essa a sina do futebol de um país encrustado nas provas europeias para não ter de defrontar a cada duas por três os seus vizinhos árabes. Uma decisão politica que pouco fez para alterar o futebol em Israel e pouco impacto causou no circo europeu.

Quando a liga israelita ainda era totalmente amadora, o Liverpool, rei da Europa e do Mundo, do incumensurável Bob Paisley, espetou uma lança no coração de Tel Aviv e recrutou o primeiro de uma curta linha de profetas que ainda não fez do país criado à medida da diáspora hebreia, uma potência futebolistica.

Avi Cohen era um defesa de primeiro nível. Capaz de entrar no onze mais admirado do futebol europeu do final da década de 70. Nascido no Cairo, quando os pais procuravam forma de entrar no recém-criado estado israelita, cresceu na capital Tel Aviv, onde começou a actuar pelo Maccabi local. Rapidamente emergiu como uma das grandes figuras da liga local, vencendo duas ligas consecutivas, e chamou a atenção de alguns olheiros europeus. O Liverpool tomou a dianteira e contratou-o por 200 mil libras, valores significativos para um defesa à época.

 

Em Anfield Road moravam os melhores entre os melhores e Cohen demorou a entrar no onze titular.

Na equipa onde Dalglish era o farol, Johnson o goleador e Souness a alma viva, o israelita tornou-se num elemento importante da manobra defensiva, feudo de Thompson, o veterano capitão. Na sua primeira época o israelita entrou para a história dos Reds com um inusual e oportuno golo no derradeiro encontro frente ao Aston Villa. Um tento que deu o titulo aos de Anfield diante do eterno rival Manchester United, terminando com o curto reinado do Nottingham Forrest de Brian Clough. O golo valeu ao israelita um imenso prestigio na sua terra natal mas no ano seguinte Cohen tornar-se-ia persona non grata para a sociedade israelita ao aceitar jogar no Yom Kippur, dia sagrado para os hebreus. O Liverpool jogava em Southampton e o lateral jogou no empate a duas bolas contra uma equipa então liderada por Kevin Keegan. Os adeptos reconheceram-lhe o gesto mas no final da época um par de lesões e a ascensão meteórica de Alan Kennedy, autor do golo da vitória do Liverpool na final da Taça dos Campeões contra o Real Madrid, fecharam-lhe as portas de Anfield.

Cohen voltou então ao seu Maccabi antes de terminar a carreira em Glasgow, onde actuou durante duas épocas ao serviço do Rangers por convite pessoal do seu velho amigo dos dias à beira do Mersey, Graeme Souness, então treinador-jogador dos escoceses. O internacional israelita - jogou 51 vezes pelo seu país natal, um recorde à época - pendurou definitivamente as botas em 1990 e tornou-se primeiro técnico e mais tarde presidente da Associação de Jogadores Israelitas.

 

 

 

Considerado unanimemente como um dos maiores desportistas da história de Israel, Avi Cohen não sobreviveu aos ferimentos de um acidente de moto e depois de dias de incertidumbre, acabou por falecer. Das bancadas de Anfield ao Rebook Stadium de Bolton, onde o seu filho joga actualmente, passando por cada recanto de Israel, a sua morte sentiu-se profundamente. Afinal, ele foi o primeiro profeta de uma nação por descubrir. Um profeta que sabe que nunca caminhará só...



Miguel Lourenço Pereira às 00:45 | link do post | comentar

8 comentários:
De Constantino a 30 de Dezembro de 2010 às 11:03
Na lista de craques israelitas referidas no texto falta um importante, Ronny Rosenthal, que curiosamente chegou a Anfield Road no ano em que Cohen ecostou às boxes, 1990. Utilizando uma analogia dos Descobrimentos, se Cohen foi o Bartolomeu Dias dos israelitas em Inglaterra, Rosenthal terá sido o Vasco da Gama. Teve ainda a suprema honra de ser um dos poucos Israelitas a representar o clube da comunidade judia de londres, Tottenham Hotspurs (onde, assim de repente, não me lembro de ver mais nenhum jogador israelita.


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Dezembro de 2010 às 12:38
É verdade, Rosenthal foi um verdadeiro case-study para a comunidade hebraica de Tottenham, nunca chegou a impor-se verdadeiramente em White Hart Lane mas tem essa honra.

E não se pode esquecer Eliyahu Ohana, fundamental no sucesso do KV Mechelen nos anos 80 na fase intermédia entre o sucesso de Cohen e Rosenthal.

um abraço


De Constantino a 30 de Dezembro de 2010 às 16:04
Exactamente o Ohana que teve o privilégio de ainda jogar em Portugal (ou pelo menos estar por cá, porque se bem me lembro nem jogou muito no Braga).
O Rosenthal é ainda famoso por ser protagonista de um dos primeiros grandes sucessos de videos de internet com um falhanço monumental de baliza aberta ao serviço do Liverpool. Quando aconteceu ainda não havia a WWW, mas desconfio que mal ela apareceu meteram logo lá o filme. Ainda hoje faz parte de quase todos os compendios de bloopers do desporto.

Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Dezembro de 2010 às 16:13
Creio que com o Braga chegou a fazer um par de jogos sem grande sucesso e foi logo repatriado. Essa era a época em que a grande estrela bracarense era o croata Karoglan.

um abraço


De Sara a 30 de Dezembro de 2010 às 16:26
Parabéns pelo destaque :)


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Dezembro de 2010 às 16:55
Obrigado Isaa,

Sê sempre bem vinda!

Bom Ano!


De hmocc a 30 de Dezembro de 2010 às 20:54
Apenas uma adenda: Foi através de Cohen e dos seus contactos no futebol Inglês que um tal de Pini Zahavi começou a sua carreira de agente inernacional de jogadores.


De Miguel Lourenço Pereira a 31 de Dezembro de 2010 às 14:07
Hugo,

não fazia a minima ideia desse detalhe, obrigado pela dica;-)

um abraço e feliz ano!


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