Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2010

Se hoje Pep Guardiola guarda em si a ponte entre a filosofia de Cruyff e o espirito catalão de Can Barça, o seu herdeiro (dentro e fora de campo) será provavelmente Xavi Hernandez. Talvez o melhor futebolista espanhol da história, o médio centro de Terrasa é já parte da história. Mas comete um erro de julgamento crasso, talvez movido pelo confronto histórico entre o seu clube e Mourinho, em declarar que o português não entrará para a história. Porque Mourinho já lá está.

 

 

 

Não é a primeira vez que o diz e Xavi Hernandez costuma dizer o que pensa.

Fanático blaugrana como poucos, atleta exemplar e um artista sem igual no panorama desportivo actual, o número 6 do Barcelona é talvez o culminar de uma escola táctica que começou há 25 anos atrás com Johan Cruyff. Demorou a consolidar-se no onze blaugrana e quando se afirmou, definitivamente, tornou-se na peça chave do renovado jogo culé. Venceu tudo o que havia para vencer e entrou, por direito próprio, na galeria dos históricos. E sabe que para fazer história é preciso ganhar. O Xavi que hoje é uma figura consensual no mundo do desporto rei é producto dos titulos. Do Barcelona dos upgrades cruyffianos, primeiro de Rijkaard (onde não era ainda figura determinante), e depois de Guardiola. Mas, essencialmente, da era de ouro do futebol espanhol, consagrado pelos titulos de campeão da Europa e do Mundo com a Espanha. Da qual é a bussola, o corpo e a alma.

Os triunfos valeram a Xavi um protagonismo natural, do qual ele tenta escapar, escudando-se nos fenómenos que o acompanham na orquestra. E que sem ele, e mais do que ninguém o médio sabe-o, são muito menos do que aparentam. O prestigio deu-lhe voz, particularmente em Can Barça. E ele exerceu-a, sem temores. E declarou guerra. Ao grande rival do seu clube, ao mentor da filosofia oposta à que vive e sobrevive em Can Barça. Ao mesmo homem que os seus dois mentores, Cruyff e Guardiola, atacam quando podem e como podem. Ao único técnico que, sabe, os pode travar. Mourinho.

 

Declarar que o português nunca entrará para a história do futebol, ao contrário de Cruyff, Guardiola, Wenger, Sacchi e Ferguson, é uma declaração tão inexacta que surpreeende que venha da boca do homem com os pés que menos toques de bola erram no mundo. Xavi sabe o que diz e acredita pouco neste dardo envenenado. Sabe perfeitamente que o mundo do futebol sobreviverá ao seu Barcelona como sucedeu com todos os estilos que se impuseram em determinados momentos da história. A única coisa a que o mundo do beautiful game nunca sobrevive é aos titulos. Hoje fala-se no Real Madrid porque sumou mais titulos do que ninguém nas competições em que participou. Falou-se no Liverpool do "Boat Room" porque quase que emulou o feito dos merengues. Fala-se no Milan pós-88 porque venceram tudo o que havia para ganhar. E fala-se neste Barça porque repete a mesma fórmula de sucesso. Ganhar. O que interessa realmente.

E a verdade é que não há no activo um técnico que tenha ganho tanto em tão pouco tempo. Não é um gentleman à velha usança (mas são-o o inefável Ferguson, o resmungão Wenger ou o pacifista Pep?), nem sequer é um inovador táctico. Aliás, desde a defesa em linha com pressão alta asfixiante de Sachi que o futebol não conhece uma mutação táctica significativa, senão que pequenos ajustes pontuais que se adaptam a circunstâncias pontuais. Todos os técnicos no activo com sucesso são filhos do italiano. Sem excepção. O sucesso do Pep Team face ao Dream Team reside, essencialmente, nessa simbiose entre a equipa do italiano e do holandês. O de Mourinho está na sua força de caracter, na forma como comando os seus exércitos. Tacticamente as suas equipas não inovam, mas seguem à perfeição as ordens do general. A frieza e disciplina táctica do FC Porto, Chelsea e Inter entrarão, certamente, na história tanto como o espirito livre e criativo de blaugranas e gunners, a antitese desportiva da década ao trabalho defendido pelo português.

Mourinho mistura o que de melhor tem o Manager no conceito britânico do termo. Tem a mentalidade aguda de Helenio Herrera, o espirito critico de Brian Clough, o sentimento emotivo de Bill Shankly e a franqueza de Rinus Michels. E usa-o para proveito próprio algo que o futebol de hoje entende pouco, nessa obsessão constante pelo poder do colectivo. Homens livres como o luso perdem mediaticamente para o grande público na comparação com os homens de clubes. Tal como Clough, que antes de chegar ao Nottingham, onde ficou duas décadas, também Mourinho procura o melhor laboratório para as suas experiências. Xavi certamente saberá que o técnico inglês, bicampeão europeu, faz parte da história apesar do seu Forrest não ter tido a mesma qualidade de bola que o Liverpool de um Bob Paisley do qual poucos se lembram. O futebol e a história também são producto do caracter ganhador. Pelé teve mais caracter do que Garrincha, Beckenbauer e Cruyff tiveram-no mais que Muller e Resenbrink. Na tentativa de valorizar a máquina de futebol de Guardiola, o médio catalão - que seria o justo ganhador do Ballon D´Or 2010, na ausência de Sneijder - procura desvalorizar um trabalho intocável futebolisticamente de um técnico que, sabe, como poucos, que o futebol pode-se jogar de mil maneiras diferentes, enquanto que em Can Barça parece que só um modelo funciona.

 

 

 

Na história há lugar para todos, só que uns chegam cobertos de ouro e outros entram pelas traseiras. Xavi sabe que ele entrará pela porta grande como um simbolo de uma filosofia, sem nunca ter experimentado outros palcos, outras realidades, outros pedaços da história. O que também devia saber é que Mourinho já sobreviveu ao tempo e provou que o seu método funciona, onde quer que vá. E também lá estará, como dizia repetidas vezes o inefável Clough, talvez não como melhor treinador do Mundo, mas certamente como o do topo.



Miguel Lourenço Pereira às 11:46 | link do post | comentar

4 comentários:
De mascarado a 30 de Dezembro de 2010 às 23:36
Cara não entendo muito de futebol, mais acho que tem razão


De Miguel Lourenço Pereira a 31 de Dezembro de 2010 às 14:06
Obrigado pelo comentario e pela visita ;-)

Feliz Ano


De Centro de Jogo a 1 de Janeiro de 2011 às 22:25
Muito Bom. Grande texto. Parabéns.

http://centrodejogo.blogspot.com


De Miguel Lourenço Pereira a 3 de Janeiro de 2011 às 10:55
Obrigado e parabens pelo blog!

um abraço


Comentar post

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Ya existe Avenida Eusebio, Estadio da Luz; NO EXIS...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO