Quinta-feira, 9 de Dezembro de 2010

Um é possívelmente o melhor jogador do Mundo. Outro é o quase unanimemente considerado como o número um. E há um terceiro, o que marcou o golo mais importante do ano. Para a dupla organização FIFA-France Football esses são os três homens que merecem optar ao renovado Ballon D´Or FIFA. Uma nomeação que poderia não oferecer discussão não fosse uma clara traição ao conceito que está por detrás deste e de todos os prémios: o conceito temporal.

 

 

 

Xavi, Messi e Iniesta.

Os três expoentes máximos do adorado Barcelona de Josep Guardiola fazem história e ocupam os três primeiros postos do Ballon D´Or 2010. Algo que só o intocável AC Milan de Arrigo Sachi logrou por duas vezes, em 1988 e 1989, com a salvaguarda de que, nessa época, só se podiam votar a atletas europeus (e daí a ausência de um tal Maradona). Pela terceira vez, os três finalistas são colegas de equipa. Um prémio que funciona como mérito colectivo para um ideário futebolistico, o do Barça de Cruyff, e para o trabalho de formação de La Masia com três embaixadores especiais: o catalão local, o espanhol recrutado quando novo e o estrangeiro pescado do outro lado do grande charco. A base de trabalho de uma fábrica de formação que é, indubitavelmente, o melhor exemplo a seguir depois do sucesso das escolas do Ajax, Sporting, Manchester ou...do eterno rival de Madrid.

No entanto esta tripla nomeação não deixa de ser um erro, um grave erro. Para os próprios pressupostos morais que estão por detrás do troféu atribuido este ano em conjunto pela revista francesa, que o inaugurou em 1955, e pela FIFA que teve o seu próprio prémio paralelo nos últimos vinte anos, sem que nunca tenha existido grande discrepância. Não se pode questionar o génio de Xavi, o talento de Messi e o espirito incisivo de Iniesta. São jogadores de top e estão certamente na lista dos melhores de qualquer um. É dificil fugir a essa evidência. Mas, muito provavelmente, nenhum deles merecia este pódio, quanto mais o trofeu, entregue numa cerimónia especial a principios de Janeiro. Porquê?

 

O Ballon D´Or (como era o FIFA Award e como é qualquer prémio) reporta-se a um ano natural, nem sequer a uma temporada desportiva. Estamos a falar do ano 2010, desses 365 dias em concreto. Não se atribui, ou não se devia atribuir, um troféu baseando-se exclusivamente no talento inato de cada atleta. O mais natural seria manter o mesmo pódio anos sem fim. Não. Da mesma forma que Ronaldinho venceu em 2005 e no ano seguinte desapareceu do mapa injustamente, apenas porque o Brasil desiludiu no Mundial da Alemanha, voltamos a assistir a um fenómeno de selecção contra-natura para com as bases do conceito do troféu criado por Gabriel Hanot. O melhor de 2010 podia ter sido qualquer jogador, menos o tridente nomeado. Um tridente que não apresentou méritos desportivos que suplantassem outros candidatos mais lógicos, tendo por base o critério anual. Um critério que foi esquecido, como tantas vezes sucede, pelo peso mediático (Messi) e pelo peso do Mundial de Futebol (Xavi e Iniesta), por cima de qualquer mérito individual de um atleta que não partilha nem o mesmo patamar da ribalta nem o mesmo peso de um triunfo colectivo.

Cannavaro em 2006, Ronaldo em 2002, Rossi em 1982 são apenas alguns exemplos de vencedores pontuais, jogadores que devem à sua performance num só mês o troféu que se reporta a um longo ano desportivo. Os italianos tiveram anos desportivos para esquecer (a Juventus de Cannavaro seria despromovida na secretaria da mesma forma que Rossi esteve inabilitado até dias de arrancar o Mundial de Espanha 82). O brasileiro, genio como era, tivera um ano frouxo vindo de uma grave lesão com o Inter (e antes de se mudar para Madrid). Os três são exemplos do peso do Mundial e nesse aspecto seria de prever que os espanhóis tivessem uma merecida presença no pódio do troféu. Mas se o próprio Iniesta confessou que 2010 foi o seu pior ano, devido às lesões acumuladas, salvo apenas pelo golo certeiro nos instantes finais do prolongamento da final contra a Holanda (pode um golo ser tão importante para um prémio anual individual?) já Xavi esteve uns furos abaixo do que é habitual durante todo o Mundial da África do Sul, apesar de se ter mantido a um alto nível na sua época com o Barça. Na armada espanhola mundialista o principal destaque esteve, provavelmente, no tridente Casillas-Busquets-Villa. O primeiro parou o possível e impossível e garantiu que o campeão do Mundo com menos golos sofridos (e marcados) aguentasse até ao fim a corrida rumo à história. O segundo revelou-se imprescindível e foi um polvo no meio campo espanhol, a defender e a atacar. E o terceiro, já se sabe, desatascou com os seus golos situações complicadas in extremis. Mas o poder mediático do Barça (e o talento genuino dos nomeados) falou mais alto que a lógica.

 

E se Messi está nomeado por decreto, e isso já se sabe que sucede sempre com jogadores do seu talento, por muito que o ano não tenha sido coroado com os principais trofeus a que optava (ficou-se pela Liga Espanhola e pela Bota de Ouro com números, verdade seja dita, estratosféricos), resta ver quem são os grandes prejudicados por esta nomeação colectiva à excelente escola blaugrana.

A ausência mais notada será, sem dúvida, a de Wesley Sneijder.

O holandês não tem o poder mediático dos seus rivais e isso joga contra nestas alturas, mais do que ele próprio poderia imaginar quando se declarou como favorito ao troféu. E deveria ter sido. Vencedor de um triplete histórico com o Inter e finalista vencido do Mundial de Futebol, sempre sendo o melhor das suas equipas, o holandês é hoje um jogador especial, com uma importância no sistema de jogo orange e neruazurri fundamental. Assistiu, marcou, fez jogar e foi constante ao longo de todo o ano. O seu triunfo seria o do individuo, o do atleta a superar os seus próprios limites pessoais durante um ano. A sua ausência é uma mensagem clara. Este prémio tem código de conducta próprio.

Também de fora ficam Diego Fórlan e Bastian Schweinsteiger. Sucede-lhes o mesmo que ao holandês. Mediaticamente perdem com o tridente culé. Se Iniesta marcou um golo importante durante 365 dias e pouco mais, o uruguaio fez história em 2010. Primeiro com o Atlético de Madrid, marcando e assistindo na final da Europe League, Copa del Rey e Supertaça Europeia, três noites que fizeram do clube colchonero um dos mais titulados do ano europeu. Se isso não fosse pouco, Fórlan pegou às costas no modesto Uruguai e levou-o a um histórico quarto posto, o melhor lugar desde 1970 do país que venceu já dois Mundiais e que é um histórico adormecido do mundo do beautiful game. Ao mesmo tempo foi galadorado pela própria FIFA como Bola de Ouro do Mundial. Tarefa hérculea que não foi tida em consideração  pelos jornalistas, capitães e seleccionadores nacionais, reféns do poder mediático do super-Barça. O alemão partilhou um pouco a trajectória com Sneijder, e perdeu para ele a final da Champions League. Na Alemanha foi fulcral para a época espantosa do Bayern e no Mundial com a sua Alemanha foi possivelmente o melhor jogador até às meias-finais da prova. Nada disso valeu, porque o tal golo de Iniesta, o regate diário de Messi e o olhar cerebral de Xavi parecem valer a dobrar.

 

 

 

Iniesta vencerá segundo a imprensa e suplantará o melhor jogador espanhol da história, por ironia das ironais. É curioso que Xavi, omnipresente nos pódios nos últimso três anos, seja agora relegado por um colega inferior, apenas pelo detalhe de um só tento. Como se Materazzi tivesse ganho a Cannavaro o Ballon D´Or de 2006. O argentino Messi vai marcar presença pelo quarto ano consecutivo no pódio, no terceiro posto. É a posição de honra daquele que muitos consideram o Melhor do Mundo. O pódio paralelo Sneijder-Fórlan-Schweinsteiger ficará apenas na mente daqueles que acreditam que o futebol é algo mais que marketing e poder mediático. Não conta muito, é certo. Mas há quem tenha os conceitos trocados. Pena é que sejam aqueles com o poder para fazer a diferença.

 

PS: Quanto ao prémio de técnicos volta a repetir-se a mesma sensação. O vencedor provável será Vicente del Bosque, por ter ganho um Mundial onde a Espanha mostrou estar longe do nível apresentado há dois anos por Luis Aragonés. O técnico do Barcelona, Josep Guardiola, suplantou o holandês Louis van Gaal nos nomeados e deverá suplantar também a sua particular nemesis, José Mourinho, o homem que ganhou todas as provas onde entrou. Os critérios continuam errados. Já sabemos porquê!



Miguel Lourenço Pereira às 10:07 | link do post | comentar

9 comentários:
De Joao K. a 9 de Dezembro de 2010 às 12:17
Excelente análise. O futebol hoje em dia não passa de Marketing.

PS: Esqueceste-te de fazer uma referencia À fantástica época do Robben.


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Dezembro de 2010 às 13:00
João,

Obrigado e concordo em absoluto contigo. O Robben foi excelente mas preferi destacar um holandês, Wesley Sneijder, e um do Bayern, o Schweinsteiger. Mas ninguém pode esquecer o melhor ano do Arjen desde 2005.

um abraço


De Constantino a 9 de Dezembro de 2010 às 12:29
Mais um excelente texto com o qual concordo em 99,9%. Peço desculpa mas se me permite uma pequena correcção de pormenor: o vencedor da Copa del Rey não foi o Atletico, mas sim o Sevilla. É só um pequeno pormenor que em nada altera o cerne do texto.

Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Dezembro de 2010 às 14:07
Constantino,

Tens toda a razão, lembro-me perfeitamente do jogo e o que realmente queria apontar era que tinha estado em 3 finais. E como dizes, o importante é a época individual espantosa que teve.

É preciso ver que não se coloca em causa nunca o valor do trio de nomeados, que é incomparável. Xavi devia ter vencido ja o Ballon D´Or em 2009, Messi ganhará dois ou três certamente e Iniesta é um génio, inferior aos demais, mas um génio.

O que critico é no fundo um volte face ao que passou em 2008. Nesse ano Cristiano Ronaldo ganhou tudo menos o Europeu onde jogou a melhor Espanha da história e venceu os prémios individuais por cima de Xavi e Torres. E nem foi tão longe no Euro como o Sneijder logrou no Mundial. Mas claro, como o holandês não é uma estrela mediática, aqui o Mundial já vale quando interessa.

Tal como o caso dos treinadores, com Del Bosque a vencer uma equipa já feita enquanto que Mourinho, vencedor absoluto com um conjunto à partida de segunda linha e Guardiola, com o culminar de um estilo, ficam atrás. Não se pode entender isso nunca.

um abraço


De Pedro a 10 de Dezembro de 2010 às 01:36
É a vergonha das vergonha. E o que me custa é as pessoas se basearem nos vencedores destes prémios quando, numa conversa de café , nos defendemos de argumentos ao afirmar que este ou outro foi nomeado o melhor por uma organização sem qualidade.
Para mim, na história não houve ninguém que revolucionou de forma tão carismática e tão competitiva como o Mou (sei que houve treinadores de um nível astral, mas os resultados de Mou falam por si) e Cristiano Ronaldo é um dos melhor do mundo - não é o n.º 1, mas também não há um um. O Messi é outro dos melhores do mundo, e depois há aqueles que vão-se colando temporariamente a estas duas estrelas e que, merecidamente, deveriam ser reconhecidos e premiados. Adoro o xavi , gosto do inesta mas o vencedor devia ser sneijder. Robben foi fantástico, só lhe falta marketing e menos lesões. Os critérios são feitos por interesse, e estes casos polémicos publicados ultimamente mostram o quão podre é o futebol e tudo que envolva muito dinheiro.
Desabafo:Quando, em conversas, se baseiam em prémios para dizerem que este ou aquele era o melhor não consigo parar de rir, como aqueles fanáticos que veneram Pele quando havia, para mim, um maior génio em campo como Garrincha . Hoje não sei quem é/era mais bêbado , se o jogador ou os adeptos de futebol.


De Miguel Lourenço Pereira a 10 de Dezembro de 2010 às 08:25
Pedro,

Garrincha era um génio endiabrado e decidiu o Mundial de 62 como Pelé decidiu o de 58. Mas depois estagnou-se e o Botafogo nunca chegou ao nivel do Santos, como colectivo muito mais forte. O próprio Pelé depois de 66 estava em queda e foi o imenso Mundial de 70 que, já a cores, o endeusou definitivamente. Garrincha não chegou tão longe e ficou a perder na comparação.

Estamos a falar de prémios, logo de interesses. Premiar a escola holandesa já não está de moda e Sneijder e Robben não são atletas mediáticos. Nem Fórlan ou Schweinsteiger. Esse é o problema. Hoje há uma necessidade de coroar o modelo do Barça seja como for e esta tripla nomeação é mais um exemplo dessa politica. Aconteceu nos anos 80 com o AC Milan o mesmo, mas a competência além de ser menor estava restringida a atletas europeus (excluindo Maradona, Careca, Valderrama, et ali).

Quem quiser acreditar que Iniesta é o melhor jogador do Mundo está no seu direito. Mas que o diga sem pensar em prémios como este porque senão faz uma fraca defesa do seu "idolo", um grande jogador também a meu ver mas sobrevalorizado nesta época em concreto.

um abraço


De CRG a 10 de Dezembro de 2010 às 16:29
Caro Miguel,

Apesar de concordar com o artigo, devo dizer que é uma questão que não me suscita grande interesse, faz-me bastante mais confusão os critérios usados na escolha do organizador do mundial, que já foram dissecados neste blog.

É claro que este tipo de escolhas (esta obsessão pelas listas tem aumentando ao longo dos tempos a um ritmo estonteante, desde as 100 melhores músicas até aos melhores ministros de finanças, enfim) são sempre arbitrárias e dependentes de marketing, por exemplo basta pensar como o CR7 era considerado sempre o melhor jogador em campo no último mundial.

E é indiferente se a escolha recai sobre o melhor jogador do mundo ou o óscar de melhor filme o marketing tem um peso enorme.

Por outro lado, mesmo tendo em conta os critérios aqui referidos faz-me sempre confusão que num jogo tão colectivo seja possível escolher o melhor jogador do ano. Por esta razão, salvo raras excepções, o escolhido joga do meio campo para a frente e aqui também entra o tal marketing e o impacto mediático.

Se mesmo num desporto tão individual como o ténis há uma discussão sobre quem será o melhor jogador actual, será possível no futebol conseguir-se ter uma opinião unânime? Parece-me que não. Por isso é que olho para esta votação como um fait diver, que serve apenas para falarmos de futebol, o jogado, o que parecendo que não, nos tempos que correm, não é nada mau.

Abraço



De Miguel Lourenço Pereira a 10 de Dezembro de 2010 às 16:33
É naturalmente um fait-diver e isso não deixa de ser a mais pura das realidades. Mas o poder mediático tem o condão de definir a história. Os titulos fazem, muitas vezes, nomes que no futuro suplantam outros sem méritos para tal, pura e simplesmente porque ostentam este ou aquele titulo na lapela.

Muitos no futuro só conhecerão o que se passou em 2010 pelos prémios, colectivos e individuais, e isso é sempre um espelho da realidade, distorcionado como pode ser qualquer um.

um abraço


De Ricardo a 10 de Dezembro de 2010 às 21:20
Estes prémios são uma autêntica imbecilidade. É estupidificar os adeptos de futebol. Nenhuma posição defensiva recebe este prémio. Será que os guarda-redes e os defesas são meros adereços num jogo de futebol?


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