Segunda-feira, 8 de Novembro de 2010

O "reinado" do SL Benfica durou bem menos do que o esperado. Um vendaval de futebol e golos restableceu o status quo nacional e ditou, a vinte jogos do fim, o anunciado desfecho do campeonato. Dez pontos de avanço com uma vantagem no confronto directo inultrapassável dita sentença e ponto final. A raiva de uma equipa formada para vencer destroçou um conjunto que parece uma imitação barata da equipa que, há um ano, dava cartas. Os números, esses, falam por si. Um verdadeiro "Fantasporto"!

5-0.

Um número que define uma época e que ficará como espelho de uma mutação rápida e natural nos designios de uma liga entregue a um campeão anunciado depois de dez jornadas demoníacas. André Villas-Boas, o rosto por detrás desta mudança genética que recupera um ADN antigo e perdido no meio dos titulos da era Jesualdo, avisa que nada está ainda decidido. É o seu papel, o marujo tranquilo num longo oceano que desperta poucas dúvidas. Invencível com dez jogos decorridos, um goal-average inalcançável e uma atitude irrepreensível, o FC Porto sabe bem que este titulo não tem como lhe escapar. É uma autoridade insultante que destroi os sonhos de uma nova era de domínio encarnado, imagem propagada há um ano, quando Jorge Jesus era Deus na terra e as bancadas da Luz se enchiam com naturalidade para seguir goleada atrás de goleada. E se o Benfica arrepiou caminho e emendou a palmatória depois de um inicio desastroso, com cinco vitórias seguidas, a verdade é que a qualidade de jogo da equipa campeã com o conjunto da época passada é diametralmente oposto. Sem Ramires, sem Di Maria e sem ideias. Mais do que os dois elos fundamentais do onze encarnado, Jorge Jesus sofre do mal que atinge muitos dos treinadores campeões. Incapacidade total de gerar uma nova fórmula ganhadora, de insuflar os comandados de confiança e de espirito colectivo. Sem valores de grupo e sem qualidade individual, a goleada ontem sofrida num Dragão imponente, até parece natural. Não deixam de ser números escandalosos, mas que podiam ter sido mais. E ninguém se admiraria. No recinto portuense apresentou-se uma equipa de profissionais e um conjunto que roçava o amadorismo. Sem garra nem espirito, a águia foi facilmente depenada e levada para um churrasco à brasileira com Hulk como chefe de culinária.

 

O brasileiro anda indomável desde que a Liga Sagres 2009/2010 foi decidida no túnel do estádio da Luz.

O seu regresso ao onze portuense permitiu a excelente segunda volta do onze de Jesualdo (com vitória na Taça de Portugal incluída) e o espantoso arranque de época do "rookie" Villas Boas. Depois da vitória na Supertaça ficou a sensação de que Porto e Benfica corriam em direcções opostas. Os azuis confirmariam a subida de produção e com três meses de época não sabem o que é perder em nenhuma competição. Os encarnados, pelo contrário, repetem a ideia deixada após a época 2004/2005. Um titulo do Benfica é um oásis num oceano azul, relemebrando, e muito, o que sucedia ao Sporting da década de 60 e 70, às mãos do dominador conjunto liderado então por Eusébio da Silva Ferreira. Ontem, nem o "pantera negra" teria evitado a humilhação de sair do recinto do rival com uma das mais pesadas derrotas do seu historial.

Se já no ano passado o FC Porto tinha emendado a péssima época com uma vitória sobre o campeão por proclamar, agora ficou bem acente que o titulo é coisa decidida e que basta saber se a vantagem demolidora de dez pontos tem margem de ampliação até ao final da primeira ronda. Com o apuramento europeu igualmente confirmado, o FC Porto tem até Fevereiro todas as condições para fechar o campeonato e sonhar com voos mais altos na Europa, relembrando a carreira da equipa orientada por José Mourinho em 2002/2003 com direito a champagne e sevilhanas.

Sem Fernando, o FC Porto mostrou-se igual de contundente no miolo, nunca deixando respirar o centro de campo encarnado. Guarin, Belluschi e Moutinho formaram um trio incansável, determinante nas recuperações de bola longe do quarteto defensivo imperial de Rolando e companhia. E fulcrais para a velocidade do tridente goleador. Hulk foi soberano, destroçando a defesa rival com um grip inalcançável. Dele saiu o passe para o 1-0 de Varela e dois golos mais para fechar a festa. Pelo meio o colombiano Falcao juntou-se à festa com um toque de calcanhar a emular o genial Madjer capaz de levantar o estádio e a torre dos Clérigos uns metros do chão. Os cinco golos foram o detalhe de uma noite futebolisticamente impecável para os azuis. O Benfica pouco futebol aportou ao duelo e rapidamente perdeu a cabeça (mais tarde perderia igualmente Luisão como poderia ter perdido Coentrão ou Maxi Pereira) com Jesus incapaz de colocar em práctica qualquer ideia com cabeça, tronco e membros. O técnico era o rosto da impotência. Ao seu lado, o novato AVB, a cara da satisfação plena. A licção estava dada.

Vencedor hegemónico dos dois confrontos directos contra o mais directo rival e com os encontros mais duros do campeonato atrás das costas é dificil prever qual será o limite deste FC Porto com faixa de campeão já encomendada. Não são os dez pontos de avanço que lhe dão o direito a festejar mas sim a superioridade futebolistica incontestado e há muito não vista, espelho directo de um clube com sede de titulos e fome de vingança. Numa equipa onde a maioria dos jogadores não sabe o que é ser campeã, a fome é o motor. Resta saber se um ano de sucesso será suficiente para saciar o conjunto montado por Villas-Boas ou se na capital podem começar a preocupar-se a sério. Porque no Porto os titulos não costumam ser fenómenos isolados e quando chega um, chegam logo três ou quatro. Ou cinco! 



Miguel Lourenço Pereira às 08:18 | link do post | comentar

14 comentários:
De Ricardo a 8 de Novembro de 2010 às 21:00
O Benfica no final do jogo não voltou para Lisboa pela A1 como se esperava, mas sim pela A5 e durante o jogo fez das TRIPAS coração.
Ouvi dizer que a 5àSéc. mostrou-se disponível para ser o patrocinador principal do Benfica.
Adorei ver a galinha entrar dentro da área do Roberto. Devia ser algum familiar que o quis cumprimentar.
Também gostei de ver o benfiquistas no final do jogo. São uns grandes desportistas. Não só perderam como no fim ainda se ofereceram para remodelar os assentos do estádio.
Parece que o Luís Filipe Vieira ontem passou a conhecer o Hulk.


De Pedro Serra a 8 de Novembro de 2010 às 21:05
Em "A Bola", o jornal oficioso do Benfica, Jorge Jesus passou de exterminador implacável a "mestre da invenção". Nada como o futebol prova que "atrás de tempos vêm tempos".


De Ricardo a 9 de Novembro de 2010 às 01:57
Toda a comunicação social se centrou no Benfica e em especial nas decisões do Jorge Jesus. É o primeiro sintoma de que a imprensa se afina pelo mesmo diapasão dos adeptos e simpatizantes do Benfica. É por demais evidente (com o título do jornal A Bola) que a comunicação social se sente atingida como qualquer outro adepto do Benfica e que num momento de humilhação se vira para as opções do seu treinador e paralelamente diminui o mérito da equipa adversária. Para aqueles menos esclarecidos e menos bem intencionados, era sobre isto que Vítor Baía se pronunciava aquando da sua última conferência de imprensa. Mesmo perante uma vitória categórica sobre um rival directo que ainda ostenta o título de campeão o destaque vai para o Benfica. E é também essa dualidade que dá força e garra aos adeptos, dirigentes, equipa técnica e jogadores do FC Porto que a sentem na pele. mas há coisas que nunca hão de mudar.


De Miguel Lourenço Pereira a 10 de Novembro de 2010 às 15:37
Pedro,

Nada como fazer capas a atacar os responsáveis da debacle em vez de elogiar os responsáveis pela goleada. É preciso saber que em Portugal valoriza-se sempre o bota-abaixismo em vez de se valorizar quem tem mérito provado.

um abraço


De José Lemos a 10 de Novembro de 2010 às 17:37
Miguel como vai?

Demorei, mas descobri as suas cores :)

Cumprimentos,
José Lemos


De Miguel Lourenço Pereira a 11 de Novembro de 2010 às 09:11
Olá José, bem vindo sejas.

A minha cor ou a do sr Rogério Gonçalves que tanto se alegrou pelo "Fanta5porto" antes do seu próprio duelo particular com um rival directo ;-)

De qualquer dos modos, haverá mérito nisso. Em tudo aliás.

um grande abraço

Miguel


De José Lemos a 11 de Novembro de 2010 às 14:01

Naval e Benfica adversários directos Miguel? Não vou entrar por aí.
Tenho por hábito discutir futebol, como estou na vida, com respeito por todas as cores. Nunca me ocorreria dizer que Naval é adversário directo de Benfica ou Sporting, com excepção de, perdoe-me, numa conversa de café sem sentido, ou numa galhofa.

Pensei que poderíamos discutir o jogo, passo por cá numa próxima, provavelmente para discutir futebol internacional, quem sabe após o jogo entre os fantásticos Barcelona e Real Madrid.

Cumprimentos e bons textos :)


De Miguel Lourenço Pereira a 11 de Novembro de 2010 às 15:00
José,

Não falava da Naval, mas sim do Sporting-V. Guimaraes e quando disse Rogério Gonçalves o que realmente queria dizer era Rogério Alves e a atitude que teve relativamente à derrota do Benfica. Um gag vamos!

E podemos discutir este e todos os jogos, como sempre, sem clubismos à mistura porque se "descubriste" agora a "cor" é porque certamente essa "cor" nunca me toldou o raciocinio para critica e elogio ;_)

um abraço


De José Lemos a 11 de Novembro de 2010 às 22:45

Também não julgo o Vitória de Guimarães e o Sporting serem adversários directos. Principalmente um Vitória que defende ao homem.

Perdooe-me a sinceridade Miguel: não tenho acompanhado o Em Jogo. Ando um pouco afastado de tudo isto. Estive a ler rapidamente os seus últimos textos 'nacionais' e não me parece estar com a clareza de análise que lhe reconhecia. Antes, um raciocínio demasiado ofensivo para com Sporting e Benfica. Minha opinião.
Assim como estive cá para o defender quando o referiram num outro blog (apesar de também eu não concordar com o seu texto), permite-me apontar isto também.
Afinal, fomos quase 'colegas de trabalho efectivo'.

A propósito, como vai o projecto?



De Miguel Lourenço Pereira a 12 de Novembro de 2010 às 09:53
José,

Qualquer equipa que luta taco a taco por uma posição é um rival directo durante a época, nem que não o seja a nivel de prestigio ou titulos. Pensar o contrário acho que é uma falta de respeito para com os adeptos vimaranenses porque apesar da estratégia assumida por M. Machado, não deixam de ser, à 10 jornada, o 2nd de facto.

Quanto à tua opinião, é respeitável, mas permite-me discordar. O raciocinio é coerente com a postura colocada pelos dois clubes, pela forma como orientam as suas politicas desportivas e a temporada em curso, tal como o fui no passado com um FC Porto de serviços minimos.

O projecto, como deves saber, está paralizado sine die. Até melhores momentos.

um abraço


De José Lemos a 13 de Novembro de 2010 às 16:34

Miguel,
não esperava concordância :) o ano passado, pelo que fui vendo, havia críticas sim em relação ao Porto (como as há este ano, e em relação ao Benfica e justas) mas via sempre algum respeito para com os azuis e brancos, o que me é mais difícil constatar actualmente, para com os encarnados.

Não deixo eu de faltar ao respeito ao Vitória de Guimarães, simplesmente, e porque tenho um parâmetro claramente definido, não julgo que clubes adversários com aspirações diferentes quer historicamente, quer no início da época, sejam adversários directos, por igualdade pontual, decorrido que está um terço do campeonato.
Vi aliás, e relembrar-te-ás certamente, salvo erro do Sporting de Espinho, que há cerca de 10 épocas (mais precisão menos precisão, não vou agora consultar o google) era 2º ou 3º classificado na virada de volta, e acabou por descer. Nessa altura, e mesmo estando o Espinho à frente de Benfica e Sporting, nunca os considerei adversários directos.
Isto, estando longe de afirmar que o Vitória vá descer ou algo semelhante.

Quanto ao projecto, de facto não sabia, e é pena, porque, tal como disse na época, era algo com imensas condições para avançar, desde que se fizesse alguma adaptação ao 'meio-envolvente'

abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 15 de Novembro de 2010 às 11:09
José,

O Vitória de Guimarães não é o Sp. Espinho. Sei que tens uma simpatia pelo Sporting e pela grandeza dos titulos é complicado pensar que há hoje equipas com projectos desportivos tão bem ou melhor estruturados que os do Sporting, mas tanto o Braga como o Vitória, pelo feito nas últimas épocas, no arranque do campeonato partem com aspirações europeias firmes que é, hoje em dia, o máximo que os leões podem aspirar.

Pessoalmente um rival directo é alguém que disputa uma posiçao final na classificaçao, e actualmente a luta é pelo 3 e 4 posto, e aí Braga, Vitória e Sporting estão desportivamente ao mesmo nivel.

Um abraço


De José Lemos a 15 de Novembro de 2010 às 16:31
Miguel,
nem o Vitória é o Espinho, nem o Sporting é o Vitória.

Aliás, se observares as classificações, nem que sejam as dos últimos 10 anos (em que o Sporting venceu apenas um título), percebes a diferença.
Diferença essa q se quisermos alargar um pouco mais a comparação, se acentua ainda mais.
E garanto-te que a minha simpatia pelo Sporting, n é superior à simpatia que nutro por exemplo, pelo Vitória ;)

Em Portugal há um espectro classificativo que se pode acentuar. Admito que o espectro do Sporting nas últimas duas épocas (desde que Bettencourt está no poder) se situe entre o 2º e o 4º. O do Vitória situa-se entre o 3º e o 6º. É o que os projectos desportivos exigem. E nesse sentido, é verdade que o Vitória é um adversário do Sporting, se os leões se contentarem com o 3º ou 4º lugar. Se quiserem o 2º, e não deixam de todo, de ter condições para o alcançar, os adversários serão outros.



De Miguel Lourenço Pereira a 15 de Novembro de 2010 às 20:51
Jose,

nisto estamos de acordo, um Sporting com expectativas baixas está condenado a ter o vitória, braga ou nacional como rivais directos durante muito tempo. Uma equipa bem estruturada desportivamente naturalmente está noutro patamar, mas ha quatro anos que isso nao sucede, daí a minha associação de ideias.

um abraço


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