Quarta-feira, 13 de Outubro de 2010

A euforia programada começa a ganhar forma. Duas vitórias obrigatórias e sem glamour transformam-se em êxitos épicos, dignos de coroação à altura. O Portugal de Paulo Bento mudou muito pouco (ou quase nada) o Portugal de Carlos Queiroz. Mas os resultados e, acima de tudo, a pressão mediática, contribuem para uma lavagem de imagem. Num país onde continuam a existir sempre dois pesos e duas medidas, Portugal continua a sua caminhada, com mais sombras do que luzes, rumo a uma prova onde a sua presença é, ou devia ser, inevitável.

Dois triunfos por 3-1 com duas exibições bem diferentes, nunca a passar da mediania, são suficientes. O país já tem o seu salvador da pátria. Todos podem dormir descansados, sem motivos para preocupações. Exageradamente, como tudo neste país, multiplicam-se as declarações de personalidades que secundam a nomeação de Paulo Bento e elogiam a sua gestão nestes dois primeiros jogos quando o próprio e os seus jogadores admitiram que o seleccionador pouco teve a ver com os dois triunfos frente aos rivais nórdicos. Como seria de esperar, com quinze dias de cargo, Paulo Bento tem tanto a ver com as vitórias lusas como Queiroz teve com as derrotas nos jogos em que a equipa foi orientada por Agostinho Oliveira. O ex-seleccionador pagou do seu bolso a sua viagem à Noruega e foi proibido pela própria FPF de comunicar-se com o banco. A mesma FPF que deveria estar interessada, acima das quezilias pessoas, no sucesso da equipa das Quinas e que agora está à morte com o novo técnico. De tal forma que Gilberto Madaíl está pondera recandidatar-se a um cargo que, há um mês atrás, com o espectro da eliminação bem presente, fez questão de anunciar que não lhe interessava. Dois pesos, duas medidas sem dúvida.

 

Portugal jogou contra a Dinamarca e contra a Islândia com diferenças minimas com base à equipa orientada por Agostinho Oliveira.

João Pereira rendeu Miguel e Silvio, as duas opções nos primeiros jogos, e fez duas exibições sem encher o olho, não comprometendo mas também não entusiasmando. Um posto que deverá pertencer a Bosingwa, quando recuperado, e que foi uma peça nuclear (pela sua ausência) durante todo o 2010, Mundial incluido. Pepe recuou para central e mostrou-se uns furos acima do que Ricardo Carvalho, desastroso nos dois encontros. Como Eduardo, a anos-luz da imagem que deixou no Mundial. No meio-campo surgiu João Moutinho, peça nuclear no FC Porto de Villas-Boas e com uma forma fisica e mental que não tinha em Junho passado. Carlos Martins completou o triângulo com Raul Meireles numa escolha feita para ganhar a galeria. O médio do Benfica é, à largos anos, um jogador sem estatuto de selecção. Suplente habitual no clube encarnado, ganhou protagonismo com os problemas fisicos de Aimar e pelo simples facto de ser dos poucos atletas portugueses do campeão nacional. Paulo Bento, o homem que o dispensou no Sporting por entender (e bem) que Carlos Martins rende menos do que deve, quis mostrar que é o seleccionador de todos. Entregou o posto a um jogador transparente que durante 180 minutos foi um holograma. Nada de novo portanto. Foi em Nani e Cristiano Ronaldo que se viram as principais diferenças com respeito aos dois primeiros jogos. Se Hugo Almeida continua a ser a prova viva de que Portugal e o golo é um casamento conflictivo, os dois extremos exibiram-se uns furos bem acima do habitual. Nani matou o jogo com a Dinamarca. Ronaldo ajudou a resolver o duelo na Islândia. Determinantes como se lhes pede sempre. E que só agora, finalmente, cumprem. Em dois jogos cuja a vitória era, independentemente do seleccionador, o objectivo minimo. E que, mesmo assim, foram conseguidas depois de muito sofrimento. No Dragão foi preciso dois erros infantis da defesa dinamarquesa (que até foi a pior equipa europeia do último Mundial, para quem se esqueceu já). Na Islândia, uma selecção que alinhou sem seis titulares que foram ajudar os sub-21 a estrearem-se no Europeu da categoria, sofreu-se e muito. Depois do golo e da pressão dos nórdicos, acabou por ser Raul Meireles a disparar contra a crise, tal como na Bósnia há um ano atrás. Quem ainda se lembra? Bolas que entram e bolas que saem, no fim está aí a diferença. A qualidade de jogo continua a ser a mesma, demasiado mediocre para uma selecção de alto nível.

No entanto a fálacia está aí e quem quer agarra-a como pode. Queiroz perdeu, logo não serve (mesmo tendo estado afastado dos dois polémicos jogos inaugurais pela própria FPF). Bento ganhou, logicamente é o maior. Mesmo que jogue igual, conte exactamente com os mesmos jogadores e continue a deixar em evidência os problemas estruturais da selecção. Os dois anos de vacas magras do mandato de Queiroz saldaram-se com um Mundial em que Portugal foi nono e uma série de ameaças à estrutura dirigente do futebol português que despoletaram a execução sem piedade do técnico. Neste conto da carochinha, enterrado pela imprensa e pelos opinion-makers, Queiroz será sempre o lobo mau do futebol luso, odiado por dirigentes, jogadores, jornalistas, bloggers e adeptos. Paulo Bento é o novo caçador, o homem que "empolga a nação" a altos voos com jogos mediocres e vitórias sofriveis e de serviços minimos. Portugal continua igual, a precisar de vencer todos os jogos. Continua sem criativo, sem ponta-de-lança e com muitas dúvidas lá atrás. Os mesmos problemas, os mesmos resultados, dois técnicos diferentes. Dois pesos, duas medidas. Até Junho tudo seguirá igual. São assim os contos infantis por cá...



Miguel Lourenço Pereira às 08:46 | link do post | comentar

10 comentários:
De Pedro Almeida a 13 de Outubro de 2010 às 19:58
Boa tarde,

Vou tentar ser curto. Em primeiro lugar não és jornalista e como tal não tens de ser imparcial dai que respeite a tua opinião. Podemos não ser os maiores por causa destes 2 jogos mas fui só eu que achei a nossa prestação no mundial medíocre?

Ok, o Paulo Bento (de quem não sou fã) limitou-se a cumprir a sua obrigação mas não foi com esta Dinamarca (a tal pior selecção europeia do mundial) que perdemos em casa no ultimo apuramento? Sera que a Islandia é assim tao pior que a Armenia que nos vimos "a rasca" para ganhar e empatar?

Paulo Bento nao é um prodigio, mas Queiroz tambem nao o era. Refugiar-se em programas de computador e treinos avançadissimos quando n se tem uma ideia de jogo ou uma capacidade de motivar jogadores para mim são desculpas esfarrapadas. Lamentavel ter sido despedido da maneira que foi, o principal motivo para tal ter acontecido devia ter sido simplesmente a sua incompetencia..

Ah! E já agora, prefiro ter um seleccionador humilde e de poucas palavras que um vaidoso que quando lhe cai a capa probres das mães e das tias das pessoas que o rodeiam.

Cumprimentos


De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Outubro de 2010 às 08:27
Pedro,

Por acaso até sou jornalista, apesar de não exercer de momento mas isso não invalida nada. A objectividade jornalistica é um mito, muito mais no mundo dos weblogs.

A nossa prestação no Mundial foi tudo menos mediocre. Um nono posto, eliminados pela campeã do Mundo por 1-0 e depois de ficar em segundos no chamado "Grupo da Morte", alcunha dada pela imprensa internacional, não pode ser considerado mediocre. Houve exibições fracas e escrevi-o aqui e até falta de coragem em ir mais longe, é verdade. Mas a ponto de chamar isso mediocre. E o que foi o Euro 2008 ou o Mundial 2002 comparados com isso? Épicos??

Esta Dinamarca em atitude não tem nada a ver com a equipa de há dois anos, com qual Portugal até fez o melhor jogo da era pós-Scolari e que acabou por perder por desconcentrações infantis. Esta equipa provou no Mundial ser mais fraca do que deu a entender na qualificação (que o diga a Suécia) e agora, em fase de renovação geracional, continua a anos-luz do que pode vir a ser. Vencer em casa era uma obrigação, tal como era ganhar na Islandia. Tal como era ganhar ao Chipre em casa e vencer na Noruega. A diferença nos quatro jogos esteve, essencialmente, na atitude da equipa. Aí revela-se bem o ambiente que se viveu na selecção provocado pela FPF que cometeu o feito inédito de suspender um seleccionador, seja ele quem for, em vésperas de dois jogos chave. Cada um com o seu karma.

Queiroz nunca foi nem será nenhum prodigio. É um bom coordenador e um vulgar técnico de campo, é verdade. Mas Paulo Bento não é melhor. A critica aqui não está no génio de CQ e na falta dele de PB. Está no trato que é dado a um e a outro. Esses dois pesos e duas medidas que adeptos, imprensa e federaçao aplicaram e que pode servir para tapar agora a bananeira, mas que em Junho servirá de pouco se a "ressuscitada" selecçao repita a atitude dos dois primeiros jogos.

Um abraço


De Pedro Almeida a 15 de Outubro de 2010 às 14:21
Boa tarde,

Sim foi medíocre, foi uma mediocridade em atitude, em planeamento, em ambição... (podia estar aqui o dia todo) O episódio Nani, o recente episódio Deco só realçam ainda mais a nossa fraca prestação. Nono posto? o nono posto tal como o Japão e coreia do sul?

Em relação ao resto do teu comentário.. estou completamente de acordo :)

cumprimentos



De Miguel Lourenço Pereira a 15 de Outubro de 2010 às 14:59
Pedro,

Efectivamente podiamos ficar todo o dia até porque é o tal nono posto à frente da Itália, França e Inglaterra, por exemplo, e no espectro europeu só atras de Espanha, Holanda e Alemanha ;-)

um abraço


De Pedro a 13 de Outubro de 2010 às 21:57
Assino por baixo no que o Pedro Almeida disse.
O PB não é um génio, mas não há milagres na selecção. Não acredito que o mourinho fizesse melhor do que foi feito neste dois jogos.
E enganas-te a dizer que o PB não mudou nada, ele mudou o que quase era preciso ser mudado. Mudou metade da defesa, o meio campo inteiro e foi inteligente ao ponto de não chamar o liedson para o 11.
Na selecção não se treina, selecciona-se, e ele fez as melhores escolhas. Jogamos o que tinhamos que jogar e ganhamos, umas vezes melhor do que outras, porque a Espanha no apuramento tambem não joga sempre bem, e a grande diferença entre esta selecção e a do queiroz é que apesar de não haver goleadas, é nos transmitido a fé que a bola, mais tarde ou mais cedo, vai entrar.
O problema da qualidade de portugal não tem nada haver com PB , tem haver com a formação, por isso, não culpes o homem.


De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Outubro de 2010 às 08:32
Pedro,

Mas se eu sou o primeiro a escrever aqui (a não ser que não tenhas lido) que o problema de Portugal está muito para lá do seleccionador. É um problema dos clubes e da FPF e por isso a crucificaçao de CQ faz ainda menos sentido. Portugal nao tem matéria prima há muito e faça PB o que fizer isso ele não o pode mudar.

Dizes que mudou muito, eu respondo-te de que mudou caras. Mas a fluidez de jogo, o espirito, a contundência e a concentraçao sao praticamente as mesmas. Mudou assim tanto qualitativamente a selecçao em dois jogos em que marcou 2 golos por claros erros defensivos de uma equipa em 2 minutos e outro em que sofreu durante quase um quarto de hora com uma equipa do quarto escalao sem seis titulares? Isso é uma mutaçao?

Acreditar na fé é acreditar num mito que se cria à volta de uma equipa. Também muitos iam com fé para o Mundial da Coreia e depois viu-se como foi não é? E a Espanha até pode sofrer, mas tem uma coisa que Portugal nunca teve: atitude. E isso nao era culpa do Queiroz como nao é do Paulo Bento ou de quem vier.

Portugal pode ainda ganhar o grupo e espero que o faça. Mas o que acho incrível é que continue a haver gente que acredita que a repetiçao dos feitos da passada década podem ser facilmente repetidos. Portugal deixou a elite porque a vaca secou, esteja lá quem esteja. E isso é que é o preocupante. O rosto do seleccionador é-me irrelevante, só não estou para aturar que uns sejam filhos do pai e outros filhos da puta.

um abraço


De SPR a 14 de Outubro de 2010 às 00:57
Lamento dizer, mas nos últimos dias tem sido motivado por alguém que se ri muito à sua custa.

A verdade é que não percebe patavina de futebol, e os disparates que escreveu aqui sobre o Benfica na época passada e Espanha no Mundial são agora reproduzidos para a Selecção.

Dou-lhe um conselho: não dê opiniões sobre futebol e limite-se a escrever sobre factos. Isto se não quiser ser ridicularizado, claro...


De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Outubro de 2010 às 08:20
Caro SPR,

Não ridiculariza quem quer, só quem pode ;-)


De Ricardo a 16 de Outubro de 2010 às 18:02
Com as devidas distâncias e diferenças, PB pegou no nosso típico 4-3-3 e aproximou o nosso estilo de jogo com o do Barcelona. Temos uma defesa segura e rotinada (uns furos abaixo do que se fez no mundial é certo), os alas a subirem bastante para apoiar os médios interiores e libertar os extremos para diagonais combinando com a referência do ataque. Explora-se mais a troca de bola em movimentos verticais com triangulações e aberturas em diagonal. O Raul Meireles ao descer para trinco proporciona uma saída de bola orientada para o ataque e o João Moutinho e Carlos Martins como pivots mais moveis permite inverter o triângulo em situações de ataque e de defesa. Para além disso dão maior consistência tanto ao ataque como à defesa e libertam os extremos para se aventurarem em acções mais ofensivas. O pressing é sempre alto, o que possibilita remates de ressaca dos pivots. É uma equipa muito mais ofensiva e consistente, com mais alegria. Ainda há trabalho para fazer mas PB pegou numa equipa sem vida e transformou-a numa equipa com vontade.


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Outubro de 2010 às 08:46
Ricardo,

Se houve algo no Mundial que funcionou bastante bem foi o sector defensivo. Só sofremos 1 golo e PB realmente o que se limitou a fazer foi a manter a "rotina" criada por Mourinho em Madrid (que no Mundial passado não havia, até porque Pepe estava entre algodões) e substituir um jogador em fim de carreira (PF) por um lateral mediano (JP). Nada mais.

Quanto ao ambiente, é claro que se nota a mudança. Como é que vai existir bom ambiente quando todas as pessoas de um país querem a cabeça de um individuo que é responsável pela selecçao. Qual a cabeça dos jogadores na Noruega ou contra o Chipre sem saber quem é que os treina ou treinará realmente? Isso sim é que nao faz sentido. A vontade surge com a clareza de ideias. Há um ano, na Bósnia, houve muita vontade.

Quanto aos apontamentos técnicos, RM já jogou nessa posiçao no FCP sem convencer (nao é o seu lugar natural) ele que até foi dos melhores no Mundial no posto agora desempenhado por JM, em grande forma fisica e mental. CM nao traz nada absolutamente de novo e o ataque é o mesmo, com a excepçao de Nani, lesionado. Quanto às movimentações, não diferem muito das anteriores e nada têm a ver com as do Barcelona, que muitas vezes se transmuta num 3-4-3 ou num 4-4-2 conforme o jogo decorre, algo que Portugal não sabe nem pode fazer porque não tem jogadores para tal.

um abraço


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