Terça-feira, 5 de Outubro de 2010

Nos principios do Reno emerge a beleza de Mainz, cidade fulcral na evolução histórica da Alemanha moderna e uma eterna desconhecida para o viajante distraído. Artisticamente célebre, politicamente fundamental, Mainz nunca foi um centro desportivo por excelência. Até que a lebre decidiu sair da toca num sprint imprevisível e entusiasmante. Alguém é capaz de lhe seguir o ritmo?

A história recente da Bundesliga há muito que parece fazer lembrar a fábula da lebre e da tartaruga.

Uma equipa surpresa, com quem ninguém conta, desponta num arranque espectacular para sagrar-se (ou quase) campeão de Inverno quando a liga pára para dar passo à neve, ao gelo e ao frio bem germânico. Mas no final, quando a Primavera vai lá no alto e o sol desponta antes e com mais força, lá surge a eterna tartaruga, nome seguro e consagrado, para arrebatar o troféu. Tem sido invariavelmente assim. Leverkusen e Hoffenheim foram as últimas lebres. Bayern Munchen e Wolfsburg as seguras e sábias tartarugas. À falta de sete meses para acabar o ano já se encontrou o casting perfeito para a primeira. Falta saber quem quer partilhar o titulo de cabeça de cartaz deste filme particular.

Em Mainz todos deliram com o arranque histórico da equipa. Histórico. São 7 vitórias nos primeiros 7 encontros, um registo único na vida cinquentenária da liga germânica. Registo logrado por um clube de uma cidade bela e mágica mas sem qualquer importância no universo fussball que domina a vida alemã. Um clube sem nenhum titulo nacional em 105 anos de história. Mas com uma geração que quer contornar os erros do passado. De nonos na passada época o FSV Mainz passou a lider indiscutivel daquela que é, cada vez mais, a terceira liga europeia.

Uma cavalgada heróica com várias vitimas de luxo pelo caminho. O vice-campeão europeu (1-2 em pleno Allianz), o Werder Bremen (0-2), o Wolfsburg (3-4), o Stuttgart (2-0)...Quase nada! 

 

Lewis Holtby, de quem já aqui falamos, é a estrela desta equipa de descartados.

Não é por acaso que o quinteto de luxo que tem mantido a equipa no topo, sem conhecer o sabor da derrota, é composto exclusivamente por jogadores emprestados por outros clubes. Equipa modesta de orçamento curto, o FSV Mainz soube montar um plantel equilibrado e muito, muito barato. Ao lado do extremo convertido em artesão central do jogo do Mainz, estão ainda Andreas Ivanschitz, internacional austriaco emprestado pelo Panatinaikhos, o igualmente austriaco Christian Fuchs (emprestado pelo Bochum), o avançado dinamarquês Morten Rasmussen (pertence ao Celtic Glasgow) e Malik Fathi, alemão dos quadros do Spartak Moscow. Seiva nova, mentalidade nova, resultados novos.

O técnico Thomas Tuchell, um jovem promissor de 37 anos que chegou das camadas jovens do Augsburg, em ainda uma base de trabalho sólida da regular época passada acente em Noveski (o seguro capitão), o nigeriano Haruna Babangida, a promessa hungara Adam Szalai e o checo Jan Simak. Um conjunto que vale pelo colectivo mas que aposta na frescura e arrojo de um ataque jovem e temerário.

18 golos marcados e 7 sofridos são um registo impressionante para um quinto da prova já decorrido. A equipa lidera a prova com mais três pontos que o segundo, o Borussia de Dortmund, e mais oito que o terceiro, o Hannover. Dos crónicos candidatos nem se fala. São 13 pontos de vantagem sobre as tartarugas do Bayern Munchen e Werder Bremen, 11 mais que o Wolfsburg e Hamburg e 9 mais que o Leverkusen. E quase todos eles com a licção aprendida do confronto directo com os O-Five, alcunha de guerra de uma equipa preparada para dar mil batalhas.

Um sprint de lebre demoníaco que estes pesos pesados terão dificuldade em acompanhar se não houver rapidamente uma mudança de tendência. De um lado e de outro.

A Bundesliga já nos ensinou que um rápido arranque nem sempre quer dizer que haverá final feliz. Mas a emoção e a surpresa que o jovem conjunto do sudoeste alemão deu a uma prova marcada pela queda abrupta dos favoritos (Schalke 04 e Stuttgart, por exemplo, são os últimos) e pelo espectáculo ofensivo de Holtby e companhia que antevêm uma luta sem quartel até ao final. A rapidez do contra-golpe, a frescura da visão de jogo e a falta de receio à frente das redes têm sido as chaves desta equação. Resta saber até quando as pernas da lebre aguentarão. Algum dia a tartaruga terá de perder.



Miguel Lourenço Pereira às 12:51 | link do post | comentar

4 comentários:
De João Koolwijk a 5 de Outubro de 2010 às 13:32
Desde já, parabéns pelo optmo blog, no que trata ao desporto rei, talvez o melhor da blogosfera.

Quanto ao assunto supra mencionado, acompanho a Bundesliga com muita regularidade e tenho acompanhado este fenómeno, Mainz, com particular atenção. O que me salta à vista é a maneira descontraída como encaram as partidas, daí surge por conseguinte uma boa fluidez de jogo, isto só pode acontecer numa equipa que não tem pressão dos adeptos nem dos média, pelo menos por enquanto...

Quanto à equipa em si, destaca-se uma dupla de centrais bastante personalizada e impetuoso (Noveski e Bo Svenson), um defesa esquerdo com muita manobra ofensiva(Fuchs), os carregadores de piano, Karhan, Polansi, os talentosos e muito promissores, Holtby e Schurrle e por fim, na frente tem um ataque multi-cultural que que funciona na perfeição, o tunisino Allagui e o húngaro Szalai. Uma equipa que está a ser construida de trás para a frente como mandam as regras, prima por uma defesa sólida, passando por um meio campo que mescla músculo e imaginação e termina num ataque concretizador. Uma equipa a seguir, contudo, quando os índices de pressão começarem a se elevar e as lesões vierem, dúvido que se aguentem lá por cima. E eu estou há espera dum deslize, até porque o meu BvB está aqui para o aproveitar.

Só tenho mais uma coisa a acrescentar, uma opinião pessoal, diga-se, a Bundesliga na última década teve uma evolução assombrosa, mas continua com falta de impacto no panorama europeu, o que não entendo, visto que é a liga que apresenta mais lucros, receitas e PÚBLICOS de todo o velho continente. Não fossem os investimentos milionários dos ingleses em estrelas consagradas há muito que tinham sido ultrapassados, já para nem falar que é muito mais fácil se fazer uma 'estrela' em Inglaterra do que na Alemanha. O poder do futebol inglês vê-se perfeitamente nas grandes provas de selecções, chegam lá com imensas expectativas, mas são defraudadas desde pronto, visto que os seus jogadores são no geral medianos, hiper valorizados pelos média, só conseguem ser os craques que fazem deles num mundo particular, a PREMIER LEAGUE. Depois há o caso da liga espanhola. onde existem 2 equipas e o resto são 18 para encher e cumprir os requisitos que uma liga deve cumprir. Olhando para os números da última temporada, onde vimos um Real acabar em segundo com 96 pontos e 104 golos marcados e um Barcelona acabar com 99 pontos 100 golos marcados podemos observar as aberrantes disparidades entre estes dois e concorrência e quanto a público vê-se muita cadeira vazia até a quando a visita dos grandes a clubes de dimensão pequena. É um campeonato que só atinge este pedestal pela presença de Barcelona e Real Madrid e a sua luta titânica até à posterioridade.

Bem, desculpa este gigante texto, é só a minha modesta opinião. Um abraço e continuação com este grande blog.


De Miguel Lourenço Pereira a 5 de Outubro de 2010 às 16:09
João,

Bem vindo e obrigado pelas palavras.

Partilho totalmente a tua opinião sobre o real valor da Bundesliga, que só perde hoje em dia por questões mediáticas com a Premier e a liga espanhola. Na primeira há muito dinheiro envolvido e um marketing excelente mas a qualidade média das equipas baixa muito na segunda metade. Em Espanha é como dizes, Real vs Barça e o resto, com honráveis e pontuais excepçoes.

A Alemanha tem o equilibrio, a grandeza de algumas instituiçoes, a recente aposta na juventude, os estádios cheios, os horarios convidativos, jogadores de 1 nivel mundial e uma mentalidade positiva. Todas as condiçoes para se assumir como uma liga de top.

Quanto ao Mainz é realmente uma equipa que dá gosto seguir. O Holtby confirma tudo o que de bom tinha deixado antever mas é o trabalho do jovem técnico que tem entusiasmado. Jogadores descartados e sem perfil de primeira linha a jogar com tino na cabeça e magia nos pés, sem medo. Nota 10.

Esperemos a ver até onde chega até porque, como bem dizes, atrás está o renascido Dortmund, que tantas saudades também me traz.

um abraço


De João Koolwijk a 5 de Outubro de 2010 às 18:01
A Bundesliga cresce a olhos vistos, mas continua um pouco à margem dos portugueses, até nas transmissões televisivas é um pouco deixada de lado.

Em termos de adeptos, não há melhor, em termos de equilíbrio, a par, talvez, da francesa, são as mais interessantes das grandes ligas europeias. Basta darmos uma olhadela na classificação actual ou de épocas transactas para perceber isso. Em termos de futebol jogado, está cada vez mais cativante, o velho estigma do jogador germânico ser alto loiro e tosco está completamente ultrapassado, neste momento a Bundesliga é provavelmente o maior viveiro de talentos da Europa, e juntando os estrangeiros aos miúdos alemães ainda transportam mais qualidade para o futebol da Bundesliga. Os clubes tentam-se manter longe dos grandes investimentos e apostar na prata da casa e os resultados da selecção comprovam. Não é por nada que o esqueleto da selecção alemã está dentro de portas.
Na minha modesta opinião, o top ligas europeias, ficava assim:

Primier League
Bundesliga
Serie A/La Liga
La Liga/Serie A
Ligue 1
Eredivisie

Aguardo para ser a sua opinião. Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 6 de Outubro de 2010 às 08:39
Viva João,

Relativamente ao teu top, apenas trocaria a Liga espanhola pela Serie A que continua a ser uma prova rica tacticamente mas que perdeu o ambiente, os fantasistas e o toque de surpresa que a caracterizou nos anos 80 e 90.

Acho a Bundesliga mais equilibrada que a Ligue1 porque o equilibrio frances é mais anárquico, ora um ano no topo, ora um ano a meio da tabela. Na Alemanha há vários clubes com infra-estruturas preparadas para atacar o titulo independentemente da conjuntura do momento. BM, BD, BL, WB, WLF, ST, S04 são, todos eles, conjuntos com legitimas ambições no arranque de cada temporada, quase metade do plantel do campeonato.

O público é fascinante, a qualidade dos jogadores imensa (basta ver o dominio recente da Mannschaft nas provas inferiores) e o equilibrio apaixonante. É a liga a seguir neste momento.

um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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