Sábado, 18 de Setembro de 2010

Está um avançado em campo apenas para marcar golos? É assim tão redutora a função de um dianteiro? O futebol moderno diz-nos que não e os tempos foram deixando para trás aqueles dianteiros goleadores mas vazios de futebol nos pés. Em Madrid ainda sobrevive um elemento dessa casta, um ser que rema contra a maré da evolução do jogo. Goleador sem eficácia, incapaz de ser apenas mais um, Gonzalo Higuain confirma de jogo para jogo, de ano para ano, que é o verdadeiro paradigma da inutilidade...

Os mais cinicos olham para os números. E os números dizem bem de Gonzalo Higuain. Os números fáceis.

O dianteiro argentino, conhecido como "Pipita" pela alcunha que já davam ao seu pai, um flamanete futebolista argentino dos anos 80 que passou a carreira entre o seu país e França, terra onde nasceu há 22 anos o seu mais jovem rebento, sabe marcar golos. Apontou 27 golos em 32 jogos oficiais disputados na última época. No ano anterior participou em 34 jogos e marcou 22 tentos. E nos seus dois primeiros anos no Bernabeu apontou 10 golos em 43 jogos disputados. Um sinal que nos deixa antever uma clara evolução mas que também não esconde um problema que redondeia o futebol do argentino: a eficácia.

Há jogadores que dão prazer ver jogar. Outros que desperam. Higuain pertence ao segundo grupo.

O seu estilo baseia-se no "eu, a bola e o mundo". Um paradigma que fez escola numa era onde o jogo não era tão competitivo e organizado mas que hoje já não faz sentido. Higuain marca mas não convence. Porque falha mais, muito mais daquilo que realmente concretiza. Há jogadores que jogam verticalmente em direcção à baliza, apostando na velocidade e na associação na busca do golo. Outros que gostam de jogar de costas para o guarda-redes e entrar no espirito colectivo de ataque. Higuain é um jogador perdido nas duas definições. Gosta de estar de costas para receber e gosta de seguir uma linha vertical para marcar. Mas faz tudo só. Exasperadamente só.

 

Se José Mourinho é um técnico que gosta de manter um estilo ao que sempre é fiel, uma das principais caracteristicas das suas equipas está no uso de um avançado colectivo. Já sabemos a importância do bloco para o setubalense, mas nessa definição o avançado tem um papel primordial. É o primeiro a defender e o primeiro a atacar um lance. É a ancora para toda a circulação de bola do sector médio e muitas vezes o eximio assistente dos extremos e médios centros que procuram o necessário desiquilibrio ofensivo. Também são verdadeiros killers, homens capazes de decidir jogos com um golpe de génio, um coelho sacado da cartola, quando mais nada funciona.

Foi assim com Derlei, a sua primeira experiência em Leiria que funcionou tão bem que acabou transladada ao Porto. O brasileiro marcava e dava a marcar, defendia e nunca desistia. Um modelo que Drogba aperfeiçoou no Chelsea, tornando-se no imenso jogador que é hoje. E que o mais cínico Milito explorou até aos limites nesse jogo vertical e colectivo que acabou com a consagração do Inter em Madrid, onde o argentino abriu o livro e fez o que mais ninguém em campo conseguiu. Marcar. Duas vezes.

Higuain (e Benzema) não encaixa nesse perfil. Não encaixa aliás no perfil do avançado moderno. Não só porque nunca joga para a equipa mas, principalmente, porque joga mal quando joga para si. É o dianteiro do futebol espanhol (e talvez europeu) com menor média de acertos de golo a remates efectuados. É o elemento mais rematador da sua equipa (até por cima do igualmente desesperante Cristiano Ronaldo), mas raros são os lances aproveitados. Grande parte dos seus golos acabam por vir de ressaltos ou pequenas emendas à boca da baliza. Como sucedeu no duelo contra o Ajax. E outras vezes sem fim.

Higuain ataca o lance com ferocidade mas, assim que se faz com a bola nos pés, o resto do Mundo desaparece. É impensável vê-lo a seguir o exemplo de Villa, Messi, Etoo, Drogba, Torres, Fórlan, Rooney, Muller e companhia, que procuram rapidamente o toque, a tabela, a desmarcação do colega na progressão para a baliza contrária. Higuain não larga a bola, corre, dribla, tenta a finta, tenta o golpe, tenta o remate. Raras vezes acerta. Muitas vezes destroi um lance de superioridade numérica. Um conceito básico que para o argentino não existe quando tem a bola a roçar a chuteira. Os seus números como assistente numa equipa predominantemente ofensiva como é o Real Madrid são assustadores. Em quatro temporadas não chegam às quinze assistências para golo. E quando falamos em marcar em grandes jogos, a realidade é clara. Higuain tem 3 golos em quatro edições de Champions League (frente ao Zurich e Ajax) e ainda não sabe o que é marcar ao Barcelona. Um avançado de low profile. Demasiado.

 

Há jogadores que não procuram o futebol colectivo.

Homens como Mario Jardel, o histórico goleador de FC Porto, Galatassaray e Sporting, nunca apoiavam o carroussel de ataque das suas equipas, que eram feitas à sua medida. Mas esses, para sobreviver, têm de apresentar um ratio de eficácia elevado. Como foi o caso. No entanto são elementos incapazes de dar o salto a outras realidades. Jardel nunca sobreviveria numa grande liga, onde todos atacam e defendem. E nunca foi uma opção para o escrete canarinho, por muitos golos que marcasse. E como ele, dezenas de dianteiros.

O argentino Higuain beneficia de uma crónica falta de concorrência. Na Argentina funciona como o homem certo no lugar certo para aproveitar o trabalho árduo de Tevez e Messi, os reais motores de ataque da equipa. No Santiago Bernabeu não tem concorrência. As lesões de Raul e Ruud van Nistelrooy abriram-lhe a titularidade. A implosão de Karim Benzema fez o resto. A decisão de Florentino Perez de não dar a Mourinho o avançado que realmente precisa, funcionou como a cereja no topo do bolo. Hoje Higuain sabe que joga porque não há ninguém para jogar na sua posição. Pensa que, ao marcar mais, legitima a sua posição. Engana-se.

Mourinho é um homem de ideias fixas e nesse aspecto sabe que tem um problema. Um problema para que ambiciona ganhar algo importante. Uma equipa com um duo ofensivo composto por Higuain e Benzema, dois verdadeiros paradigmas de inutilidade táctica e colectiva (no caso do francês agudizado por um problema de adaptação pessoal a lo Anelka) é uma equipa com pouco poder de fogo. E menor ritmo ofensivo.

Se Di Maria, Ronaldo, Ozil, Canales e Leon criam, Higuain deveria ser capaz de marcar. Mas o argentino nem entra no jogo criativo, nem resolve os jogos quando se lhe pede. Marca sim, mas marca pouco. E esse é o seu calcanhar de Aquiles. O simbolo máximo da inutilidade

Para o técnico português um avançado tem de fazer muito mais do que marcar golos. Tem de saber prender os defesas, libertar os colegas, sofrer na pele o jogo do rival e defender a posição até à morte. Um jogador macio, egoista e obcecado com a baliza não encaixa nesse perfil. É um jogador inutil. Para o seu natural desespero é com esse jogador que tem de atacar a época. Que tem de responder às altas expectativas levantadas à sua chegada à Casa Blanca. É com esse paradigma de inutilidade que é Gonzalo Higuain que José Mourinho tem que vencer. Se o fizer, o mérito será a dobrar. Por mudar o dianteiro ou por sobreviver ao seu hara-kiri semanal que dura largos 90 minutos...



Miguel Lourenço Pereira às 12:02 | link do post | comentar

2 comentários:
De Cristina a 24 de Setembro de 2010 às 12:15
Já sabes o que penso, preferia jogar com um manco...
bj


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Setembro de 2010 às 12:32
Se ás vezes o manco parece ele...


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Miguel Lourenço Pereira

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