Quinta-feira, 16 de Setembro de 2010

Nos jogos mediáticos que dão o pão aos milhares de jornalistas desportivos que sobrevivem para lá dos 90 minutos, a voz dos treinadores é fulcral para abrir ou fechar uma polémica sem sentido. Há os técnicos que apostam nesta guerra diária para manter os seus soldados firmes e outros que optam por responder em campo. Guardiola, talvez pela primeira vez, passou a linha e optou por entrar no confronto mediático. Acabou-se a "inocência" em Can Barça.

Quando irrompeu em Barcelona poucos davam algo, o que fosse, pelo sucesso de um treinador de 37 anos que tinha sido um brilhante jogador mas que no banco apenas passara uma época ao serviço da filial azulgrana. Três anos passaram e hoje esse mesmo treinador, Josep Guardiola, é uma das referências máximas nos bancos europeus. O seu Barcelona recuperou o fulgor do Dream Team de Johan Cruyff e a magia vertical do conjunto orientado por Frank Rijkaard. Aperfeiçoou o método e criou escola. Serviu como a base da equipa espanhola que se sagrou campeã europeia e mundial e criou um novo paradigma de jogo bonito.

Para lá dos seus indiscutiveis méritos tácticos - especialmente na relação de transições defesa-ataque onde explorou a defesa alta graças ao talento de Pique e à velocidade de Alves, sobretudo este, e Abidal - o catalão de Sant Pedor ganhou também a merecida reputação de gentleman dos bancos. Ao contrário dos seus rivais directos sempre procurou afastar-se de debates estéreis, desses que vendem jornais, criam egos, facilitam as campanhas de marketing mas que, para o jogo em si, têm pouca ou nenhuma importância. Escapou às discussões sobre Ronaldinho, vendido antes da sua chegada, e lidou com um silêncio sepulcral com a falta de "feeling" que teve com o camaronês Samuel Eto´o. Mimou sempre os seus jogadores, productos muitos deles da cantera que orientou, mas com uma profunda dose de realismo que não dava margem para grandes debates. E quando teve de defrontar-se nos jogos mentais dos rivais, predominantemente com José Mourinho, sempre se manteve à margem dos truques e dardos que poderiam ter beliscado a sua imagem quase esfingica. Mas o inocente Guardiola é já um rastro perdido do passado.

 

Para alguns é a presença de Mourinho - amigo mas eterno rival, nas disputas de paradigmas, métodos de trabalho e no duelo de génios criativos - que contribui para este novo Guardiola, mais arisco e menos conciliador. Para outros é a mudança na equipa directiva. Homem de confiança de Joan Laporta, a quem disse num principio que "no tendrás cojones" para o elevar a técnico principal do Camp Nou (falhada a contratação de...Mourinho) o técnico terá agora de trabalhar com uma nova direcção. Sem o seu amigo Txiki Begiristain como director-desportivo (substituido por outro velho colega, Andoni Zubizarreta), Guardiola sente-se mais distante do que nunca da direcção presidida por Sandro Rossell, o homem forte da Nike na Europa, valedor da chegada de Etoo e Ronaldinho e um homem que procura sempre o beneficio económico antes de qualquer coisa. A não-contratação de Cesc Fabregas, petição expressa do técnico, foi reflexo da politica de Rossell, de gastar pouco e manter boas relações com clubes patrocinados pela Nike, como é o caso do próprio Arsenal. Presidência essa que se manteve muda e calada durante a guerra de quase um mês que o treinador manteve com Zlatan Ibrahimovic. O sueco deixou de ser opção para Guardiola quando este teve de escolher entre Ibrahimovic e Messi. O primeiro foi relegado ao banco, o segundo ganhou a batuta ofensiva da equipa. Os problemas começaram no burburinho de um balneário composto por catalães e homens de confiança do treinador (Puyol, Xavi, Valdés, Pique, Iniesta, Messi, ...) e saltaram cá para fora quando o agente do avançado sueco começou a atacar pessoalmente o técnico. Guardiola estava isolado e teve de sair na sua própria defensa. E entrou no jogo. Para não mais sair.

O seu erro com Ibrahimovic (depois da saída de Etoo) deixou claro que Guardiola trabalha melhor com os seus homens de confiança do que com as suas apostas no mercado (Henrique, Keirisson, Chrygrinski que o digam). E entre todos, a sua debilidade é Leo Messi. Apesar de saber que conta com Xavi (um upgrade seu superlativo) e Iniesta (o médio avançado perfeito que nos anos 50 e 60 seria uma estrela mundial), a sua opção para número um é o argentino. Com ele no banco, Messi soltou-se da sombra de Ronaldinho e de Etoo, tornou-se no protagonista da orquestra, associou-se com Xavi e Alves e é o santo e senha do clube blaugrana. Uma debilidade tal que levou mesmo Guardiola a abdicar do seu papel neutral, onde se manteve durante dois longos anos com breves declarações repletas de desportivismo, e afirmar categoricamente que Messi "É o maior de todos. O segundo, seja ele qual for, nunca o alcançará". Palavras para quê.

Apesar dos inúmeros candidatos a "segundo", desde os flamantes holandeses Robben e Sneijder aos geniais espanhóis Xavi e Iniesta, supondo que Messi é, realmente, o primeiro, a ninguém lhe escapa que esta frase tem um destinatário: Cristiano Ronaldo. E com ele, José Mourinho.

Guardiola sempre escapou do duelo verbal com a entidade madrileña. Foi respeituoso com Schuster, Ramos e Pellegrini como poucos em Espanha souberam sê-lo. Nunca comentou as prestações de jogadores rivais nem os comparou directamente com os seus. Nem nas atribuições de prémios individuais, nem na antevisão de duelos directos. Mas agora, cercado por uma imprensa impactada com um José Mourinho mais cordial do que imaginavam, Guardiola teve a necessidade de reinvindicar o jogo do seu astro, e com ele, o do colectivo que orienta. Declarar Messi como o indiscutível número 1 - inalcançavel, intocável - é também atirar mais lenha à fogueira do eterno debate entre o argentino e o português. Um debate que agora perde força, essencialmente porque o novo número 7 do Real Madrid há muito que perdeu o ritmo e capacidade de surpreender que fizeram dele uma estrela em Old Trafford. Entre ambos é evidente que, hoje por hoje, Messi é mais completo, mais certeiro e mais constante. A Ronaldo falta-lhe a capacidade de surpreender, de improvisar e a regularidade que fez dele o número um indiscutivel em 2008. Mas se Messi está por diante de Ronaldo, a verdade é que o Mundial da África do Sul demonstrou que o argentino é um melhor interprete quando a orquestra que o rodeia (Pedro, Xavi, Busquets, Iniesta e agora também Villa) o potencia como um notável solista. Com uma equipa feita à sua medida - ao contrário dos seus "rivais", a sua superioridade perde força.

Mesmo perante essa evidência, a opção de Guardiola espelha, essencialmente, o final da tranquilidade em Can Barça. Adivinha-se um ano quente, com um ambiente de cortar à faca, entre Mourinho e Guardiola, entre Madrid e Barcelona. No meio dessa luta, dois artistas que se expressam melhor em campo que fora dele, são eleitos porta-estandartes dessa luta. Nem Messi reclamou para si esse protagonismo, nem Cristiano Ronaldo abriu um debate que não faz sentido. E quando todos imaginavam que sairia de Mourinho o primeiro dardo envenenado, eis que surge Guardiola como o "vilão desbocado", a abdicar dos seus principios de "gentleman", para ganhar o foco mediático. O técnico catalão ganhou a pulso o direito de exprimir a sua opinião como uma autoridade, mas a redundância do seu discurso implica, acima de tudo, um grito de guerra contra o eterno rival. Um grito disfarçado que vem em consequência de uma clara mudança de atitude desde o arranque da nova época.

 

O Barcelona continua a ser a avassaladora máquina de fazer futebol que tem marcado os últimos três anos do planeta futebol. Uma equipa que criou um paradigma de jogo, uma equipa que conta com um onze tipo perto da perfeição e que é orientado por um treinador que, apesar de não ser revolucionário, é alguém que soube interpretar com acerto a mutação genética que este Barça necessitiva. Mas o discurso de superioridade que chega de Barcelona deixa adivinhar que a humildade e o racionalismo que pautaram os dois primeiros anos do consulado de Guardiola têm os dias contados. O Barça de Guardiola (e de Messi, e de Xavi, e de Iniesta, e de Villa, e de....) quer-se agora acima dos demais. Mas no campo já se provou que a sua superioridade natural é contrariável. Nas conferências de imprensa, há uma guerra paralela que vai começar agora e que se estenderá até Junho. Sem inocência. E sem piedade.

 



Miguel Lourenço Pereira às 05:11 | link do post | comentar

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