Terça-feira, 14 de Setembro de 2010

Os ciclos da história repetem-se com uma intensidade asfixiante para o ritmo de vida caótico que levamos. A eterna luta entre a ordem e o caos pautam a realidade desportiva do futebol português num equilibrio dificil de manter durante largos mandatos de tempo. No arranque da nova época a inversão dos papéis restaurou um conceito há muito assimilidade de que a ordem veste de azul enquanto o vermelho mergulha, uma vez mais, no caos.

Ameaças, dúvidas, desespero. Imagens pouco condizentes com uma equipa campeã.

Uma equipa que há meses coroava, com mérito, um titulo merecido mas de logro díficil. Depois de meses onde o conjunto orientado por Jorge Jesus, novo profeta da Luz, oscilou entre a máquina avassaladora de fazer golos e a cínica equipa que aguentou os potenciais tropeções que havia pelo caminho, a consagração parecia inevitável. E a estrepitosa queda do eterno rival, num ano onde os problemas disciplinares e organizativos foram constantes pedras nos sapatos que Jesualdo Ferreira e os seus nunca souberam descalçar, parecia anunciar uma mudança nos ventos da ordem e do caos de uma liga que há vinte e cinco anos aparece dominada por uma cor azul que tinge qualquer rival, rapidamente uma mancha desbotada no fundo do horizonte. Essa mudança de ciclo prevista, anunciada e lógica esbarrou com o velho dito da história que se repete, do eterno deja-vu que marca o futebol luso em particular durante anos e anos de problemas por resolver. As vendas milionárias (com metade dos rendimentos a servirem para pagar o inusitado fundo criado para garantir os investimentos que parecem não funcionar) e a postura da equipa técnica encarnada começaram o serviço. As fracas prestações no terreno de jogo por parte dos jogadores - os campeões e as apostas pessoais da direcção - fizeram o resto.

O campeão nacional, um pouco à imagem da equipa de 2005/2006, arranca um novo ano dando a ideia de que o titulo foi apenas um oásis numa série de politicas e problemas sem solução. Em nada se assemelha este Benfica a um conjunto campeão, com erros de palmatória que habitualmente não escapam sem perdão. Sem ter de se dividir em duas frentes - como os seus rivais directos, em máxima rotação há um mês - os encarnados já deixaram escapar nove pontos. Três derrotas num campeonato a 30 rondas e nenhuma dela num duelo com um rival directo. Pontos perdidos com Maritimo, Rio Ave e Vitoria de Guimarães, as equipas que definem, muitas vezes, campeões e vencidos. Um atraso de nove pontos para o primeiro posto transforma uma longa maratona numa subida inclinada de montanha, um Tourmalet para a equipa orientada por um desorientado Jesus, incapaz de acertar com o sistema, o onze, a motivação e a resposta incisiva que os seus adeptos, legitimamente, esperam. O ataque à arbitragem, o habitual em qualquer clube luso, e as ameças da equipa directiva demonstram bem que o condicionamento das instituições continua a ser uma via possível para a obtenção dos objectivos. Um aviso para um futuro não muito distante.

 

Longe do caos, a tranquilidade.

A Norte, como é hábito, respiram-se outros ares passado que parece estar o divórcio dos adeptos com a equipa e o técnico que estiveram por detrás de um Tetracampeonato histórico. A injustiça no futebol é assim e depois de um ano a seco - ou quase - o FC Porto renasce, uma vez mais, das cinzas e volta a trepar o seu particular Himalaia para colocar-se no ponto mais alto da tabela.

Um arranque imaculado, com quatro vitórias contundentes, a que se pode sumar ainda um apuramento europeu e um primeiro troféu num jogo que parece a brincar mas que é bem mais sério do que se possa imaginar. Um arranque que faz lembrar o feito de Mourinho, em 2003, com a particular diferença de que, até aí, o clube azul começou engasgado com um empate caseiro e só depois teve de puxar dos galões para derrotar o Boavista e assumir a rota do titulo. Tal como então sucedeu com os axadrezados, também agora o Braga surgiu cedo ao confronto com os dragões e acabou neutralizado depois de um jogo épico, quase indigno da realidade seca e insoça que é o futebol português. Num confronto entre iguais, os azuis e branco levaram vantagem graças, sobretudo, ao reencontro da equipa com a ordem.

André Villas-Boas, técnico emergente e contestado aos primeiros dias de mandato, acima de tudo pela sua notória e evidente inexperiência, deu uma bofetada de luva branca das antigas e confirmou o quão certeira se revelou a aposta pessoal de Pinto da Costa, talvez o seu canto do cisne num duelo de escolhas de técnicos onde a balança pende notavelmente para o lado dos acertos. O actual treinador, anterior adjunto de José Mourinho, o homem que definiu um antes e um depois na história do clube azul e branco e do conceito de técnico a nivel global, entendeu que o problema do FC Porto não estava, ao contrário do eterno rival, na estrutura senão na desordem. Uma desordem criada por vários factores mas que podia ser corrigida com uns breves ajustes. Com um plantel virado para o ataque e onde a defesa continua a ser a grande interrogação - e o jogo com o Braga confirmou-o - André Villas-Boas afinou a máquina com a mesma destreza de Jim Clark e o seu Lotus verde e amarelo. Organizou o meio-campo, abriu a frente de ataque e ganhou o duelo mental. Hulk, Varela, Moutinho, Belluschi, Fernando e Falcao não emergem como jogadores novos tacticamente mas sim com uma mentalidade refrescada, com uma liberdade criativa que o espartilho da época passada muitas vezes não permitia. Essa aparente desordem anárquica é fulcral para a ordem táctica colectiva que permite ganhar batalhas individuais e duelos de grupo e assim desiquilibrar a balança. Como sucedeu com Pedroto, Artur Jorge, Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António OliveiraJosé Mourinho, a ordem acenta num principio base e expande-se no terreno. Os resultados são uma mera confirmação da evidência.

O que se perspectivava como um duelo a dois até ao fim pode rapidamente transformar-se numa corrida isolada e até aborrecida de um clube que soube detectar, como um anti-virus, onde estava o problema e solucioná-lo sem grandes problemas. Ao contrário, na desordenada Luz, os gritos de alarme ecoam desde o principio deste parto dificil que pode acabar em gestação prematura. Já se sabe que em tudo na vida, o mais fácil é chegar ao topo. O dificil é manter-se por aí a ponto de se tornar num paradigma da ordem. Villas-Boas demonstra que já encontrou a tecla para reordenar o status do futebol português. Enquanto isso, Jesus vai pregando no deserto. Mergulhado no seu particular caos. 



Miguel Lourenço Pereira às 08:54 | link do post | comentar

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