Quinta-feira, 9 de Setembro de 2010

Na crónica ao estado depressiva da selecção lusa, o jornalista do Público, Hugo Daniel Sousa, comparou com precisão o actual estado da equipa das Quinas com o quadro "O Grito" de Edward Munch. Um estádio de psicose interna que caminha a passos largos para o precipicio. Mais do que resultados, o que está em causa é toda a estruturação do futebol português que começa a pagar agora pecados capitais muito antigos.

Na mesma semana em que o Sindicato de Jogadores divulga um estudo que se limita a confirmar uma realidade que tem mais de uma década, a expressão máxima do futebol nacional, a selecção AA, completou a sua pior jornada internacional de apuramento em largos anos. Um ponto conquistado contra duas equipas acessíveis para um conjunto que aspira a tudo é um retrocesso aos dias da calculadora aberta desde as primeiras rondas. Um cenário do qual Portugal não se vai livrar tão cedo. Em Novembro a equipa das Quinas pode estar praticamente fora do próximo Europeu de Futebol caso não consiga inverter o suícidio colectivo entre o empate disparatado face ao Chipre e a derrota cinzenta na Noruega. Um encontro com o rival directo (aparentemente) e um duelo na fria e perigosa Islândia serão fulcrais (já) para determinar o futuro de Portugal. Falhar a primeira prova internacional em 12 anos (e seis edições, entre Europeus e Mundiais) seria o culminar efectivo do final da era de ouro do futebol nacional. Uma realidade há muito acabada mas que imprensa, equipa federativa e corpo técnico teimam em querer eternizar sem que estejam reunidas as condições para que Portugal se possa sentir como uma equipa de primeiro plano internacional como foi, legitimamente, durante a última década, onde atingiu uma final e duas semi-finais de provas internacionais, num registo apenas superado na Europa pela Alemanha e igualado pela Holanda. As derrotas na fase de apuramento são apenas o espelho de uma realidade podre, negra e aparentemente sem solução que tem vindo a minar o futebol português à vários anos. A caça às bruxas levantada contra Carlos Queiroz, precisamente o homem contratado para inverter o processo, depois da "vaca" ter deixado de dar leite, é mais um sinal de que as perspectivas de futuro continuam a ser uma miragem para os principais agentes desportivos lusos.

 

Portugal é um país vendedor que compra em demasia.

Nos últimos anos os jogadores portugueses têm abandonado a liga nacional em busca de melhor sorte. Às vendas milionárias logradas essencialmente por FC Porto e SL Benfica (e em menor dimensão, Sporting), juntam-se os jogadores de pequena expressão que procuram em países como a Roménia, Suiça, Chipre, Noruega, Escócia, Rússia ou Holanda as oportunidades que os clubes locais não estão dispostos a conceder. Essa razia está acompanhada pelo aumento impressionante da importação de jogadores, muitas vezes de valor inferior, que transformou a liga portuguesa na terceira da Europa com mais estrangeiros, numa percentagem superior à metade. O plantel dos grandes é o exemplo perfeito dessa dicotomia mas até mesmo os clubes conhecidos pelo seu passado na formação há muito que abandonaram a politica do producto interno. Outros, históricos, pagaram caro esse erro caindo em falência ou agonizando em ligas inferiores, um destino que está hoje em dia ao alcance de qualquer clube português, face à incapacidade destes (e da Liga) de gerar receitas.

A redução de equipas da Liga Zon/Sagres para 16 (acompanhada pela Liga Orangina) e o anunciado final da III Divisão, não trouxe nenhuma alteração visivel à competitividade interna, a cair a pique nos últimos 10 anos. Os jogadores portugueses de formação são obrigados a ganhar experiência em equipas com tipologia defensiva e sem ambição, perdendo a oportunidade de actuar nos principais clubes e provas, ao contrário do que sucede com as suas congéneres europeias. Sem espaço nos seus clubes de origem, presos a um campeonato mediocre, a sua evolução estagna quando deveria florescer. Portugal há mais de uma década que abandonou o futuro, a partir do momento em que fechou as portas aos seus próprios jogadores, uma politica seguida pela Federação, pelos principais clubes e pelas equipas técnicas de Humberto Coelho a António Oliveira passando por Luis Filipe Scolari. Essa realidade, aliada ao pequeno campo de recrutação que um país de 10 milhões de pessoas oferece, abriu caminho às naturalizações express e à falta de opções de nível para a selecção principal. Na catastrófica dupla ronda internacional, Agostinho Oliveira utilizou vários elementos que nem sequer são utilizados nos seus clubes, chamando apenas oito jogadores a actuar na liga nacional. Muito pouco. Espelho de uma ideia de "piloto automático" de um projecto suícida capaz de interpor interesses pessoais à qualificação lusa para o próximo Campeonato da Europa.

 

Sem margem de manobra para o presente, o principal labor da FPF deveria ser preparar o futuro.

Bem recentes são os exemplos do suícidio desportivo de uma das grandes potências dos anos 80, a Bélgica. País de curta dimensão, a Bélgica foi figura omnipresente nos grandes torneios internacionais de 1980 a 2002. Desde então caiu na terceira divisão europeia tendo recorrido anos a fio a jogadores veteraníssimos face à incapacidade dos clubes e da respectiva federação de renovar os quadros competitivos. Actualmente a geração jovem belga é uma das mais quotadas do futebol europeu e apesar de ter uma dificil missão em apurar-se num grupo que inclui Alemanha e Turquia, todos são unânimes em considerar os belgas como uma força a ter em consideração nos próximos anos.

A própria Holanda, rainha dos anos 70, teve o seu hiato desportivo de uma década entre a final de 1978 e a conquista do Euro 1988. Tempo de pausa para preparar o futuro que chegou sob a forma de van Basten, Gullit, Rijkaard, Koeman e companhia. No caso português a questão é ainda mais critica porque o final da Geração de Ouro, há muito confirmado, só foi protelado pelo final tardio da Geração Mourinho, onde podemos incluir Ricardo Carvalho, Bruno Alves, Raul Meireles ou Hugo Almeida, todos a cruzar perigosamente a fronteira dos 30. Em dez anos, com as pontuais excepções da formação sportinguista (Cristiano Ronaldo, Nani, Miguel Veloso, João Moutinho, Yannick Djaló) os clubes grandes estancaram em dar novos jogadores ao país e os clubes de média e pequena dimensão desapareceram do mapa. As gerações de 2004 (os Postiga, Lourenço, Zé Castro e companhia) e de 2008 (Bruno Gama, Helder Barbosa, Vieirinha, Manuel Fernandes), são exemplos do falhanço dessa politica. Sem margem de solução imediata.

E no meio de toda esta problemática (a que podiamos juntar a ausência de infra-estruturas para a FPF como uma Cidade Desportiva, a falta de receitas e apoio do público das ligas profissionais e a falta de limitação de jogadores estrangeiros) a equipa federativa e o governo luso preferem tapar o sol com a cabeça de um seleccionador com dois anos de serviço que incluem o cumprimento de todos os serviços minimos esperados nesta circunstância. Uma ironia que preocupa pelo facto de ser um sinal claro de que o futuro será tão negro como o presente.

Queiroz não é um génio da táctica e seria certamente melhor coordenador das selecções (algo que não existiu sequer durante os 15 anos da sua ausência) do que seleccionador. Mas esperar que seja outro técnico a mudar o rumo, quando os problemas são puramente estruturais, é um grave atentado à inteligência do adepto e contribuinte português. Paulo Bento, Manuel Cajuda, Luis Aragonés ou Luis Filipe Scolari não são melhores treinadores do que o actual seleccionador. Nem têm escondido um contentor de jovens e talentosos jogadores lusos capazes de crescer e comer o Mundo. Basta pensar que a superior Espanha que há dois anos domina o futebol internacional é resultado de uma aposta séria de 10 anos na formação e estruturação de um país habituado a desiludir. Nada é imediato. E nada se resolve com uma destituição que, a acontecer, deveria ser acompanhada com uma limpeza geral de todo o projecto federativo, caducado quando a aposta num projecto de quatro anos se desfaz com um insulto e uma derrota face à campeã mundial. Portugal precisa de um projecto com futuro, tentando no presente cumprir objectivos minimos que garantam uma presença regular nas provas internacionais. Mais, é impossível. Mais, é utópico. Mais, é o Conto do Vigário.


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Miguel Lourenço Pereira às 00:01 | link do post | comentar

6 comentários:
De Pedro Costa a 9 de Setembro de 2010 às 23:54
Encontrei este texto por acaso, mas em nada me arrependo de o ter lido. Partilho em grande parte da tua opinião Miguel. A meu ver o grande problema do futebol portugues está na Liga que temos. Quando se procedeu à redução de 18 para 16 equipas eu disse que ia ser o princípio do fim. Basta olhar para outras ligas europeias que tenham 16 equipas e ver a sua qualidade e competitividade. Nos últimos anos em que tivemos 18 equipas, tivemos o Porto de Mourinho a conquistar a Europa, o Benfica a ir aos quartos de final da Champions e o Sporting à final da Tça UEFA. Desde que temos 16 equipas, os nossos clubes tem sido anualmente cilindrados na Europa, basta lembrar o Benfica com o Liverpool e com o Olympiacos, o Sporting com o Bayern, o Porto com o Arsenal e com o Liverpool. O Braga é a única equipa portuguesa que tem crescido ultimamente. Além disso, jogamos menos, temos mais paragens e a maneira que se arranjou de compensar essas paragens é confusa e pouco equitativa (refiro-me à taça da Liga). Pergunto eu porque é que certas medidas de controlo financeiro dos clubes que temos agora não se implementaram antes aquando das 18 equipas? Resultava na mesma! Enfim... São os dirigente miseráveis que temos à frente do futebol. Outro mal da nossa liga é não limitar o número de estrangeiro por 11 inicial. Cada equipa devia ser obrigada a jogar com pelos menos 3 ou 4 portugueses e ter obrigatoriamente no banco pelo menos um jogador sub-21. Penso que já seria uma contribuição para o combate à "brasileirização" do futebol nacional. Custa-me ver esta situação e ninguém fazer nada. Mas para mim há coisas demasiado óbvias e não entendo como é que ninguém não ve! Isto tudo que eu acabei de referir é mais do que evidente, não entendo como é que mais ninguém ve! E assim vai definhando o futebol em Portugal...


De Ricardo a 10 de Setembro de 2010 às 03:29
1º - horários dos jogos: somos o país da Europa com maior nº de dias com sol por ano e continuamos a fazer jogos ao fim da tarde e à noite em vez de implementar-mos o sistema britânico. Clubes poupam na iluminação e atraem mais adeptos ao estádios;
2º - preços dos bilhetes demasiado caros para o poder de compra e para o espectáculo apresentado;
3º - clima incendiado por dirigentes que contribuem para a crescente insegurança nos estádios;
4º - zero (0) aposta na formação;
5º - dirigismo corrupto e oportunista;
6º - métodos utilizados na formação fracos e obsoletos;
7º - estrutura (FPF, CD, Liga, etc,) incompetente, fraca e sem um plano a longo prazo traçado.


De Pedro a 10 de Setembro de 2010 às 15:51
Assino por baixo do artigo, e de ambos os comentários. Se os dirigentes soubessem gerir os clubes, não precisavam de explorar os direitos televisivos. Bastava juntar o que o Sporting faz ao chamar jovens e o que o Porto lucra a vender jogadores. Não é difícil. Se gastam tanto na formação que tirem proveito, e deixem de estragar a beleza do futebol e a qualidade do futebol nacional. Sejam autênticos e não se juntem às politicas internacionais.


De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Setembro de 2010 às 11:37
Estou totalmente de acordo com todos os comentários que foram aqui colocados, mas quando temos uma liga onde uma equipa, por perder 3 jogos, se arroga o direito de reclamar direitos especiais ameaçando inclusive boicotar competições coordenadas por uma direcção por eles eleita e ameañando "esvaziar" os recintos onde joga fora, para quê pensar o futebol português? Se com isso - e com o impacto mediático que se lhe dá - está tudo dito.

um abraço


De Ricardo a 15 de Setembro de 2010 às 02:35
O FCP ao menos limitava-se a fazer blackout.


De Miguel Lourenço Pereira a 15 de Setembro de 2010 às 12:08
O nivel de despero à 4 jornada é que tem contornos hilariantes.


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