Sexta-feira, 3 de Setembro de 2010

Pediu uma vez que o deixassem sonhar mas a memória atraiçoou-o e reservou-lhe um final que não se merecia. José Torres, o eterno "Bom Gigante", figura chave do futebol luso, faleceu hoje aos 71 anos, depois de uma longa e perdida luta contra o Alzheimer. Passou pela era dourada do futebol luso como uma das suas máximas estrelas acabando por testemunhar o final de um dos maiores pesadelos da história do futebol português.

Uns recordarão o Torres técnico, e as suas esperançosas declarações previas à viagem de Estugarda que garantiu o histórico regresso de Portugal a um Mundial. Outros lembram-se dele no primeiro Campeonato do Mundo de Portugal, dos seus golos, assistências e gestos técnicos primorosos. Em qualquer caso, Torres foi uma figura impar.

O ponta de lança que o SL Benfica contratou em 1959 ao Torres Novas fez parte da equipa encarnada que dominou por completo o futebol português nos anos 60. A sua altura (media 2 metros e 3 cm) garantiu-lhe o apelido que o eternizaria, mas a verdade é que durante três anos foi presença mais assidua na equipa de reservas do que no onze tipo daa equipa treinada por Bella Guttman. Depois do triunfo europeu de Berna, Torres passou a ser figura chave na estrutura ofensiva encarnada, rendendo a pouco e pouco o histórico José Águas. Ao lado de Eusébio, António Simões e José Augusto, compôs a mágica dianteira que venceu seis ligas nacionais em oito anos e chegou a três finais da Taça dos Campeões Europeus, todas perdidas. Na sua primeira época como titular absoluto apontou 26 golos, o que lhe valeu então a Bota de Prata, prémio que não voltaria a vencer apesar de ter estado perto dos números atingidos pelo seu parceiro de ataque, Eusébio.

Em 1963 Torres foi pela primeira vez chamado à selecção nacional, onde rapidamente reeditou o quarteto ofensivo que maravilhava o estádio da Luz. Com essa linha atacante Portugal chegou a Inglaterra e tornou-se no conjunto revelação do torneio. Durante a prova Torres sagrar-se-ia como o segundo melhor marcador da equipa portuguesa, com 3 golos, só atrás de Eusébio. No final da década de 60, com as chegadas de Toni e Artur Jorge, começou a revolução geracional que ditaria o final da etapa do "Bom Gigante" na Luz. Determinado a demonstrar a sua valia, o dianteiro rumou ao Vitória de Setúbal, então orientado por Fernando Vaz.

 

Em 1971 chegou ao Sado onde disputou quatro épocas com os sadinos, conseguindo aí as suas últimas convocatórias para a equipa das Quinas, despedindo-se num Portugal-Bulgária de 1973, curiosamente no mesmo dia que os seus eternos parceiros, Simões e Eusébio. Depois da aventura em Setúbal, Torres retirou-se definitivamente do futebol ao serviço do Estoril-Praia, em 1980. Aí arrancou igualmente a sua carreira como treinador principal.

Orientou o Estrela da Amadora, Varzim e Boavista antes de ser chamado, surpreendentemente, em 1984 para o cargo de seleccionador nacional. A Federação Portuguesa de Futebol procurava um técnico de baixo perfil depois dos graves problemas vividos pelo quadriuvirato composto por Toni, Morais, José Augusto e Cabrita durante o Europeu de França. A escolha do simpático Torres tinha como principal propósito, desanuviar as tensas relações entre a FPF e os jogadores, e entre os atletas do Benfica e FC Porto. Um trabalho nada fácil que teve de ser compaginado com a dura qualificação para o Mundial de 1986. Depois de vários resultados adversos, Portugal beneficiou da sorte, com a derrota da Suécia diante da Checoslováquia o que levou o técnico a proferir a célebre frase "deixem-me sonhar" à partida para Estugarda. Portugal precisava de ganhar à já apurada RF Alemanha e assim o fez, com um remate monumental de Carlos Manuel. Conseguido o apuramento, voltaram os problemas. Em Fevereiro de 1986 começa a gestar-se o que viria a ser a base do caso Saltillo, circunstância em que o seleccionador nunca soube impor a sua voz. Falhou como o mediador que a FPF e os jogadores precisavam e falhou depois no terreno de jogo. Após a vitória inaugural contra a Inglaterra, num jogo em que Portugal foi claramente inferior, e das declarações explosivas de Paulo Futre, o seleccionador perdeu o controlo da situação e Portugal viu-se superado por Polónia e Marrocos. À chegada a Lisboa a equipa federativa não lhe perdoou a falta de apoio no conflito com os jogadores e Torres foi despedido.

A partir daí a sua carreira tornou-se errática até que abandonou, definitivamente, o futebol quando lhe foi diagnosticado um principio de Alzheimer que marcou profundamente os seus últimos anos de vida. A morte de um dos melhores pontas-de-lança do futebol marca assim o dia que deveria significar um renascimento da equipa nacional por quem tanto lutou. Quanto a José Torres, o jogador e o técnico, há muito que garantiu o imortal lugar na história do nosso futebol. Como poucos lograram antes dele.



Miguel Lourenço Pereira às 12:22 | link do post | comentar

2 comentários:
De Pedro a 7 de Setembro de 2010 às 01:34
Quem me dera o ter visto jogar.


De Miguel Lourenço Pereira a 7 de Setembro de 2010 às 08:28
Um desses pontas-de-lança com um faro impressionante que demonstrou no Setubal que não era fruto apenas da notável geraçao benfiquista de que fez parte.

Foi o complemento perfeito da velocidade de Simoes, do oportunismo de José Augusto e da omnipresença de Eusébio.

um abraço


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