Segunda-feira, 23 de Agosto de 2010

Como é possível que um projecto tão sólido se desmorone como um castelo de cartas à primeira brisa? A persistência no erro é o primeiro passo para a derrota e os factos destroçam a mais simples das lógicas. Um pequeno ajuste transformou-se num imenso problema e no meio de tanta confusão, essa pequena alteração foi suficiente para transformar a galinha dos ovos de ouro num novo idolo de pés de barro.

Depois de ser consagrado, de forma unânime, como o guarda-redes do ano, Quim viu o seu treinador dispensá-lo em directo, num programa desportivo. A forma como Jorge Jesus se referiu ao seu ainda guardião deve perseguir agora o técnico da Amadora, noite após noite. O pequeno Quim não tinha o carisma e atitude necessários para transformar-se num guardião que ganha jogos, pontos...titulos. Já durante a época o técnico tinha promovido uma inusitada dança de guarda-redes, entre Julio César (e os seus erros europeus) e Moreira, o eterno subaproveitado. Mas nenhum o tinha convencido, realmente. Nem o jovem contratado há vários anos ao Salgueiros, nem a sua expressa petição pessoal, nem muito menos o titularíssimo da Luz.

Com Quim fora do baralho, as opções no mercado extendiam-se aos pés do recém-consagrado campeão nacional. O feito histórico de devolver o Benfica ao primeiro lugar transformou o competente treinador na nova "galinha dos ovos de ouro" para os encarnados. As suas decisões tornaram-se inquestionáveis.

Dessa forma, poucos foram os que realmente sairam a dar o peito às balas quando o técnico e o seu director desportivo, Rui Costa, anunciaram que o tal guarda-redes com carisma, atitude e capacidade para ganhar titulos era o relativamente desconhecido Roberto. Uma escolha (a terceira em Madrid) que custava o que nenhum guardião, com a excepção do imenso Gianluigi Buffon alguma vez custou. Um preço modesto para tanto talento que tinha, entretanto, passado desapercebido por essa Europa fora onde a posição do número 1 é sempre um caso sério a rever. Afinal, não tinha o Bayern Munchen chegado à final da Champions League com um tal de Hans Jorg-Butt nas redes?

 

Roberto foi sempre um erro de casting, já aqui o dissemos.

Nem faz parte da geração de elite de porteros espanhóis, nem sequer é um nome consensual entre os seus. A sua chegada, rodeada de pompa e circunstância, a uma equipa a quem muitos tinham otorgado o papel de dominador absoluto do futebol luso para os próximos anos. O projecto milionário encarnado tinha, depois de quatro anos, dado os seus frutos e, nas palavras do seu treinador, a Champions League era um objectivo tão real como o "Bicampeonato". Para isso, para essa ambição europeia, a mesma que destroçou o Benfica pós-Erikson e pós-1994, trocou-se o seguro pelo duvidoso. Um erro, sem dúvida. Um erro crasso que os primeiros jogos do ano, a valer ou não, foram desmontando.

A insegurança do espanhol é evidente, a sua incapacidade para comunicar-se com os colegas do sector notória. No entanto, os erros técnicos que evidenciou na pré-temporada e no jogo de sábado, na Madeira, são mais preocupantes do que qualquer problema de comunicação. Demonstram uma inépcia que atormentam alguns guardiões por essa Europa fora, como vimos o ano passado, repetidamente, com o polaco Lukas Fabianski. A diferença é que nenhum deles foi um recorde de transferência nem uma aposta tão pessoal de dois homens que gostam de reforçar a sua eterna fome insaciável pela glória.

Numa equipa já de por si debilitada pelas transferências do pulmão e da alma criativa da versão-campeã, contar com um guarda-redes que só transmite intranquilidade é um risco que o Benfica não pode correr. Roberto não é o único erro de Jorge Jesus na planificação da época em que esperava a sua consagração europeia. Gaitán, um jogador sem espaço no modelo de jogo do ano passado e na variação táctica em 4-3-3 que Jara poderá obrigar a tornar-se realidade, é outro problema sem solução à vista. Tal como o débil sector defensivo, onde a primeira linha não tem soluções à altura (que dizer de Sidnei ou César Peixoto) ou a fraca forma fisica e mental de jogadores que foram pilares no conjunto campeão, como o espanhol Javi Garcia ou a dupla argentina Saviola-Aimar. A fome de titulos para alguns está aparentemente mais saciada que para outros e o crime de cair no laxismo desportivo sempre foi o hara-kiri do conjunto encarnado desde que o FC Porto lhe arrebatou em meados dos anos 80 a supremacia do futebol luso.

Jorge Jesus vive na eterna encruzilhada do medo. Medo a falhar, a demonstrar que também erra, ao optar por preterir Roberto e voltar a lançar as suas duas apostas falhadas em 2009/2010. Ou medo a continuar a insistir no erro inicial, arriscando-se a novos sobressaltos e tropeções na corrida aos titulos que ainda discute. O erro tem um poder destructivo. No caso deste SL Benfica, o poder de destroçar a ilusão de que uma equipa campeão não se torna na bitola por onde se mede a qualidade da noite para o dia. No meio disto tudo, o infortúnio de Quim parece uma gota no oceano de desespero do idolo de pés de barro.



Miguel Lourenço Pereira às 09:28 | link do post | comentar

8 comentários:
De Anónimo a 23 de Agosto de 2010 às 14:54
Caro Miguel,

Mais uma vez estou de acordo contigo, na generalidade do post!

Mais do que comentar a incapacidade técnica que o Roberto tem para o cargo (que até agora me parece óbvia), prefiro tentar descobrir o que levou a direcção do Benfica a escorraçar do clube o guarda-redes com menor média de golos sofridos no campeonato, pelo SLB nos últimos (pelo menos) 10 anos, e ainda por cima a custo zero.

Até posso tentar perceber que Jesus prefira guarda-redes altos que se saibam impor entre os postes, mas dispensar um guarda-redes campeão, através da televisão, sem (mais uma vez) contrapartidas económicas parece-me um erro leviano e estúpido de mais para ser verdade.

Mais uma vez, faço um elogio ao teu blogue, pelos temas sempre relevantes que colocas em discussão e pela permanente actualização.
Não concordo, com muitas das tuas opiniões, mas pelo menos procuras argumentá-las segundo a tua visão das coisas e sem nunca recorreres a insultos.

Ao contrário de outros blogues, que postam uma vez por semana (quando postam) para defender cegamente que o Liedson é mau, só porque, segundo os seus sapientíssimos padrões de análise, marca apenas a equipas fracas e invariavelmente com sorte, o teu blogue é sempre actual e aberto ao debate mesmo quando a tua noção da realidade é contrariada por outros!

Abraço
Pedro


De Miguel Lourenço Pereira a 23 de Agosto de 2010 às 15:29
Viva Pedro,

Bem vindo sejas sempre.

O caso Roberto é um espelho fiel do que é o Benfica quando ganha. Uma equipa que perdeu a hegemonia do futebol portugues mas continua com ambiçoes de uma projeçao europeia, capaz de desfazer-se de jogadores chave em prole de algo mais mediático. Passou com a equipa de Toni em 1994 e com a ultima versao do Erikson finalista europeu. É um clube que nao honra a quem o serve bem (como sempre foi o caso de Quim) e no espirito do qual Rui Costa e Jesus já entraram, abdicando da parcela desportiva pelo peso mediático de outro nome que não o sempre impopular baixinho.

Mas com esta questao de Roberto as pessoas sao distraidas de uma realidade que para JJ e RC devia ser mais preocupante. Um plantel indifenido, sem soltura táctica, sem mecanismos e soluçoes que continua a jogar como se estivesse na pré-época, sem soluçoes à vista e sem capacidade goleadora. O ano passado a entrada do Benfica na época foi o que lhe valeu todos os elogios que mereceu, desinflando-se ao longo do ano. Agora é precisamente o oposto, uma entrada de gatinho e muitas sombras. Para tapá-las, nada melhor que centrar as atençoes no guarda-redes enquanto nao chegam os reforços que talvez nunca venham a aterrar na Luz.

Quanto aos outros blogs que mencionas, confesso que não sei quem decidiu "castrar" o Liedson mas todas as opiniões, quando bem sustentadas, são válidas. Já para ter a abertura de mente para debatê-las é preciso algo mais.

um abraço


De Ricardo a 23 de Agosto de 2010 às 20:20
Podiam ter ido buscar o Eduardo, o Bracalli (a quem o Saviola pediu no sábado passado para deixar entrar uma bola) ou o Peiser , mas preferiram gastar 8M num guarda redes sem currículo nenhum... Acho muito bem. Estas contratações em Espanha cheiram-me a esturro. Ir buscar o 3º guarda redes do Atl . Madrid por 8 M, o Salvio e uns meninos da cantera do Real Madrid por fortunas ainda vai dar muito que falar. Espero que o Vale e Azevedo tenha um quarto a mais na sua mansão.
Quanto ao resto da companhia do SLB ... a "VITAMINA" não dura para sempre.


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Agosto de 2010 às 09:12
Ricardo,

O Benfica sempre teve a tradição de complicar o que é simples. A escolha do guarda-redes espanhol obedece a muito mais do que critérios desportivos, isso está mais do que claro. A diferença, com relaçao ao ano passado, é que isso pode passar factura no final do ano e sem titulos para celebrar muitos podem começar a fazer perguntas até agora guardadas na gaveta.

um abraço


De Tiago a 24 de Agosto de 2010 às 00:25
Olá,

http://footinmyheart.blogspot.com/

Se concordar podemos fazer uma troca de links

Com os melhores cumprimentos,

Tiago Nogueira


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Agosto de 2010 às 09:12
Viva Tiago,

Bem vindo ao Em Jogo. A troca de links está confirmada.

um abraço e boa sorte


De guedesnet a 24 de Agosto de 2010 às 11:35
Não tivesse havido TUNEIS, o FCPORTO tinha sido campeão... e agora ninguém falava do ROBERTO.
saudações


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Agosto de 2010 às 11:47
A época passada ficou demasiado marcado por casos extra-desportivos (dentro e fora dos relvados), mas o FC Porto e o SC Braga, cada um à sua maneira, deram vários tiros no pé que os inabilitaram de vencer o sprint final.

O Braga perdendo pontos vitais a meio da época, o FC Porto com o péssimo planteamento da temporada e a clara falta de atitude que condenou a equipa contra rivais muito inferiores.

Um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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