Terça-feira, 20 de Julho de 2010

"Todos os dias da semana, das duas às três da tarde, Ponce centrava e Gottardi cabeceava. Todos os dias. Uma vez fomos jogar a Córdoba. Centro de Ponce, golo de Gottardi. Ao dia seguinte ao ler o jornal vejo: “Com um cabeceamento oportuno ganhou o Estudiantes” Oportuno? Há 4 meses que todos os dias, das duas às três, Ponce centra para que o Gottardi cabeceie!”

A frase de Carlos Billardo resume o fundamental que é o trabalho de preparação semanal de uma equipa.

Há adeptos ainda que imaginam que o jogo que presenciam ao fim-de-semana é resultado, muitas vezes, da pura improvisação do momento. Da simbiose especial entre dois jogadores, de um lance arriscado e nunca visto de um jogador ou de uma jogada táctica inédita de um técnico. É tudo isso, mas tabém é muito mais. Futebol é treino. Acima de tudo. Por cima de tudo. No final de tudo.

Desde que o jogo se profissionalizou que o treino passou a ser a base absoluta do jogo. Tudo o que se reflecte em 90 minutos surge depois de horas e horas de aperfeiçoamento. De reforço fisico, de noções tácticas, de rotinas tão simples como saber quando atrasar a bola, quando reter, quando lançar. Pequenos e subtis toques para a bancada que quer ver golos, emoção e sentir o prazer de voltar a casa com a vitória ao seu lado sentada no carro. Mas detalhes que decidam provas, ligas, épocas, vidas. O jogador que não treina, é o jogador que não cresce.

O talento de um futebolista pode ser inato, precoce e imenso. Mas não é por acaso que a maioria dos talentos que povoam as ruas deste Mundo chegam aos clubes, a base da organização desportiva, e são engolidos por um imenso buraco negro. Não foi pelo penalty que falharam no jogo. Foi pelas dezenas que não marcaram nos treinos. Grandes mitos do futebol como Maradona, Pelé ou Cruyff adoravam ficar no terreno de jogo depois do final das sessões e treinar por conta própria. Tinham consciência da sua limitação. Do seu corpo como prisão. O treino dava-lhes a liberdade de explorar outro lado seu, que parecia escondido. O treino dava-lhes uma força suplementar.

 

O grande rival de Billardo na retórica do futebol argentino é César Luis Menotti.

São os dois campeões do Mundo com a albiceleste e são também os dois máximos profetas de duas correntes futebolisticas bem distintas. Mas ambos coincidem, hellas, num ponto. O treino é a base de tudo. Para o campeão do Mundo de 1978 "Uma equipa de futebol é como uma orquestra, quanto mais tempo de ensaio tenha, melhor toca!". Tal como Ponce e Gottardi, que aprenderam até à exaustão um simples movimento que se revelou decisivo, também o treino hoje define a maioria dos jogos. Os jogadores sabem-no, os treinadores sabem-no, até os directivos suspeitam-no. Os adeptos, muitas vezes, vivem na ignorância de saber que aquele remate do meio da rua só existe, porque no treino estava pensado, quando os restantes colegas abriram o espaço, puxaram a marcação e deixaram a via livre. Assim de simples!

Mais do que treinar esquemas tácticas, mais do que reforçar o aspecto fisico, a base do treino é a rotina. O jogador pode comportar-se como um actor no terreno de jogo, respeitando o guião até que um golpe de génio o faz improvisar. Mas o guião tem de estar aí. As compensações estão contabilizadas até ao milimetro. O médio que desce para permitir a subida do lateral. O avançado que flecte para dentro para puxar a marcação. O jogador que aparece ao segundo poste para receber o cruzamento. Tudo isso está idealizado na cabeça do técnico, plasmado no papel rabiscado do balneário e posto em prática pelos jogadores no terreno de jogo.

Os melhores treinadores não são só os que inventam e optimizam os sistemas tácticas. Nem aqueles que melhor sabem motivar os jogadores num momento de stress. São os que controlam a rotina de jogo ao minimo detalhe, os que potenciam os jogadores com base no treino constante. A aparição de Fábio Coentrão é o reflexo do trabalho rotinário imposto por Jorge Jesus, que transformou um extremo mediano num lateral de projecção. O trabalho musculado de Schweinsteiger e as penetrações na área de Thomas Muller não cairam do céu. Foram precisos meses de trabalho para Louis van Gaal conseguir que a sua mecânica funcionasse.

As semanas de pré-temporada são fulcrais para o sucesso desportivo de qualquer projecto desportivo. Não só porque definem a forma fisica que os jogadores irão apresentar nos picos de temporada, mas essencialmente porque é a única oportunidade que os treinadores têm de colocar em prática as suas rotinas. Sem pressão, sem resultados para obter, sem longas viagens para atrapalhar. Estes momentos definem uma época. Quando o capitão sobe ao palco, no final do ano, para receber o troféu, também esse lance foi treinado. É rotina pura. Pelo menos na mente de qualquer treinador.



Miguel Lourenço Pereira às 14:44 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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