Quinta-feira, 29 de Julho de 2010

Os italianos popularizaram o "catenaccio", mas a essência do jogo defensivo de contenção e golpe remonta aos ensimentos de um mestre austriaco que viveu os anos dourados do Wunderteam para perceber que há equipas que só se podem travar com uma disciplina extraordinária. Nasceu assim o "ferrolho suiço", a mais polémica aportação táctica da história, obra e graça do maestro Karl Rappan.

Hoje chamam-lhe "estacionar o autocarro". Populariza-se uma forma de jogar que tem mais de 60 anos. O de jogar atrás. Sempre.

Muitos se queixaram que a recém-campeã do Mundo, Espanha, teve de defrontar várias equipas que se fecharam na sua área para aguentar o futebol de trocas de bolas sucessivas dos espanhóis. E curiosamente foi contra a Suiça que a Espanha abriu a prova. E perdeu. Os suiços, fieis à sua herança, souberam mostrar que, passados tantos anos, continuam a ser eles os maestros do ferrolho. Da contenção suprema. Do contra-golpe oportunista, cínico e eficaz.

Os amantes do futebol romântico desprezam os puristas do jogo defensivo. São os que ignoram os grandes defesas ou médios defensivos como alguns dos melhores do Mundo. Apenas porque a sua missão é destruir, evitar o golo. A regra básica do jogo. Até aos anos 50 as defesas eram, muitas das vezes, anárquicas e inofensivas. O jogo disputava mais no miolo, mas com o futebol de extremos, as oportunidades de ambas as partes multiplicavam-se. Os resultados eram outros e habitualmente prevalecia a equipa mais talentosa. Que era também, habitualmente, a mais rica e poderosa. O talento era a arma dos ricos. A defesa tornar-se-ia na arma dos mais pobres.

A mutação táctica do WM para o 4-2-4, durante a década de 50, assistiu a uma reorganização do sector ofensivo onde passaram a actuar, de forma fixa, quatro elementos. Nasceram os laterais, ofensivos ainda na sua génese, e os centrais de marcação passaram a contar com a preciosa ajuda do médio de contenção. Assim se deu um imenso salto qualitativo no jogo da década, com a Hungria, na primeira metade, e o Brasil, na segunda, como principais artifices desta mutação. Equipas de grandes avançados, com grandes defesas. Mas eram equipas balanceadas para a frente, com uma menor preocupação defensiva. Estavam ainda lolnge do modelo apresentado, anos antes, de Karl Rappan. Um homem que chegou para remodelar por completo o futebol mundial.

 

O técnico austriaco nasceu em Viena em 1905. Durante a sua juventude foi praticante amador no Rapid Wien, onde passou praticamente desapercebido. Em 1931 mudou-se para a Suiça, actuando durante cinco anos pelo Servette, onde venceu duas ligas. No final da sua carreira desportiva ficou pelos Alpes suiços. Rappan era um avançado móvel e conhecia bem as debilidades da organização defensiva da maioria das equipas. Nas suas primeiras iniciativas como técnico, no Grashoppers, Rappan começou a desenvolver um modelo táctico que explorava ao máximo o trabalho defensivo. Misturando o WM com o 2-3-5, Rappan defendia que a sua equipa devia posicionar-se toda atrás da linha de meio-campo, esperando pelo rival. Ocupando estrategicamente todos os pontos de ataque do rival, com extremos transformados em falsos laterais, o objectivo era evitar que a bola se aproximasse demasiado da baliza e recuperá-la no miolo, para depois provocar rápidos contra-ataques contra a descompensada equipa rival.

Nascia assim o "Ferrolho Suiço". Um nascimento que lhe trouxe sucesso imediato, quando venceu cinco ligas com o Grasshoppers em oito temporadas. Uma equipa sem nenhum talento individual, mas com uma disciplina férrea. Durante muito tempo o técnico defendeu que o WM, e mais tarde o 4-2-4, dependiam em excesso do talento do inviduo. Para ele isso era o de menos. O que valia era a força do colectivo, que marcava à zona na linha do meio-campo, e ao homem perto da grande área. Os jogadores rivais eram totalmente cercados, os espaços cortados e apesar da posse de bola pertencer quase sempre à equipa mais talentosa, esta pouco ou nada podia fazer com ela. Estava atada. O técnico deslocou um dos avançados para junto dos defesas, e criou assim a base do 5-3-2, quando o 4-2-4 era ainda uma miragem táctica.

 

A grande prova de ferro do sistema surgiu em 1938. Karl Rappan tinha sido nomeado seleccionador suiço, uma equipa sem grande tradição em competições internacionais. As expectativas eram baixas mas já antes do Mundial começar a Suiça tinha batido, de forma surpreendente, a Inglaterra em Basileia.

Até que chegou a poderosa Alemanha nazi, reforçada com alguns dos talentos austriacos do Wunderteam que Rappan tanto apreciava. A equipa germânica, patrocinada por Hitler, era uma das máximas favoritas para vencer o torneio. Mas foi incapaz de penetrar a dupla linha defensiva suiça. O jogo terminou com um 1-1 (o golo suiço marcado num contra-ataque, inevitavelmente) e no jogo de repetição, os suiços impuseram-se por 4-2 contra uma equipa alemã cansada do esforço fisico do dia prévio. Três dias depois a equipa suiça perderia por 2-0 contra a finalista Hungria, mas estava dado o sinal. Rappan voltou ao cargo em vários periodos, incluindo o Mundial de 1954, organizado na própria Suiça. Aí bateu a equipa italiana por 3-1, num duelo que acabou por se tornar na grande inspiração táctica para Nereo Rocca dar a primeira forma ao catenaccio que viria a pautar o modelo organizativo do jogo italiano nas décadas posteriores graças ao trabalho posterior de Herrera. O técnico continou a ganhar titulos na sua Suiça adoptiva e, progressivamente, as suas ideias começaram a conquistar admiradores. No entanto, para os puristas, o seu modelo roçava a blasfémia e as suas equipas eram categorizadas como formações menores. Durante anos foi assim. Hoje ainda é assim. Quando uma equipa aplica o "ferrolho" para defrontar outro conjunto, na esmagadora maioria das vezes uma equipa tecnicamente superior, é criticada de imediato. O futebol está aberto a várias interpretações. Saber defender é tão importante como saber atacar. Foi o que demonstrou a Suiça nesse jogo, em que soube neutralizar o estilo de jogo espanhol, conseguindo o golo num dos poucos lances de ataque que orquestrou. Chegou. Ao largo da prova outras equipas recuperaram o velho ideal suiço, mas sem o mesmo sucesso. Perdem em estética o que, muitas vezes, ganham em eficácia. Graças ao maestro Rappan.

Para muitos incluir Karl Rappan na lista dos melhores treinadores da história é algo impensável. No entanto o austriaco, que também esteve por detrás da invenção da Taça Intertoto nos anos 60, foi talvez o maior entendedor da organização defensiva pura. As suas equipas venciam a esmagadora maioria das vezes, precisamente porque sabiam defender melhor que qualquer outra equipa. O ataque era apenas uma consequência natural do organizado processo defensivo. Hoje o mundo do futebol vive encantado com a filosofia de ataque de Josep Guardiola ou da armada espanhola, criticando sempre técnicos tacticamente mais conservadores, como José Mourinho. Como em tudo, no futebol, tudo é passivel de ser aceite. E apoiado. Mas o génio é inegável. E se há algo que Rappan revelou ser, foi isso mesmo. Um génio visionário. O futebol agradece.



Miguel Lourenço Pereira às 11:33 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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