Segunda-feira, 12 de Julho de 2010

Depois de décadas de desilusões, Espanha acertou contas com a história. Mais importante, saldou as dúvidas que tinha consigo mesma. Num jogo pobre, como a maioria dos encontros do Mundial, os espanhóis fizeram prevalecer a sua mentalidade colectiva sobre a incapacidade dos holandeses de contrariar o seu modelo de jogo. Um titulo mundial pertence a quem o merece. Espanha fez por merecê-lo, principalmente porque obrigou os rivais a abdicarem da sua identidade. Foi a chave de uma campanha histórica que coroa uma das mais espantosas gerações da história do futebol.

O drama envolto no remate cruzado de Andrés Iniesta atirou para a borda da loucura a 48 milhões de espanhóis.

Pela primeira vez, e depois de tantos, mas tantos tropeções, La Roja fintou o destino aziago e marcou o golo da sua vida. Como durante todo o Mundial, um golo bastou. Um golo nos últimos minutos do prolongamento. Um golo depois de muitas dúvidas e sofrimento. Assim foi a evolução de uma equipa que começou o Mundial a perder e que nunca ganhou de forma convincente. O Mundial não é ganho necessariamente pelo melhor. É ganho que por quem o merece. Espanha mereceu-o mesmo sem nunca ter sido a equipa espectacular dos últimos anos. Perdeu em eficácia e espectáculo o que ganhou em fortaleza mental e capacidade de sofrimento. Uma equipa que vale por todos. Uma equipa onde cada jogador é fulcral. Na noite de ontem, uma vez mais, honras repartidas. O génio de Casillas salvou a equipa. A raça de Iniesta, rematou a história. Pelo meio fica a impressão de que este é um dos mais completos plantéis campeões do Mundo de sempre. Dos 23 convocados, só três (Albiol, Valdés e Reina) não jogaram. E todos os outros foram peças nucleares na estratégia de Del Bosque. Ontem Torres e Fabregas, suplentes, armaram o golo de Iniesta. Um banco determinante foi sempre fulcral para o sucesso desta equipa. Ontem, no Soccer City, não foi diferente.

Espanha jogou igual a si mesma. Com a bola nos pés, adormecendo o jogo do rival, que rapidamente abdicou da sua estratégia para seguir o caminho oposto da Alemanha. Se o bom futebol dos germânicos se transformou num jogo medroso, o bom futebol dos holandeses deu passo ao jogo duro, violento até, que já tinham apresentado em 2006 contra Portugal. Se a arbitragem de Howard Webb mediu o fracasso da FIFA nesse apartado durante toda a prova, a falta de classe da Holanda, determinou o desenrolar do encontro. A Laranja Mecânica preocupou-se sempre mais com o não deixar jogar, esperando um rasgo de génio de Arjen Robben. Por duas vezes o extremo esteve perto de entrar na história. Acabou por sofrer o mesmo amargo destinod e Cruyff ou Resenbrink. Embatar contra o muro da derrota.

 

Num jogo pobre, sem a chispa mundialista que tanto falta fez durante o último mês, a Espanha aguentou fileiras. E venceu bem.

A vitória desta selecção é justa, nem que seja pelo facto de consagrar a maior geração da história do desporto espanhol. Este colectivo mereceu o triunfo. Mudaram a mentalidade do jogador espanhol, mudaram o modelo de jogo da equipa e mudaram também o olhar que o mundo tem deles. As genuínas lágrimas de Iker Casillas, o santo de serviço, ou a dedicatória sentida de Iniesta, são espelho do espantoso ambiente que rodeia o relvado. A melhor geração da história espanhola culmina assim dois anos históricos, sumando ao Europeu o triunfo no Mundial. Algo que antes só as melhores gerações da Alemanha (72 e 74) e França (98 e 2000) tinham logrado.

O triunfo termina também com uma divida antiga. A Espanha era a única grande potência que ainda não tinha a estrelinha de campeã na lapela. Holanda, Rússia ou Portugal não podem ambicionar estar no mesmo patamar de um país com uma das ligas mais poderosas do Mundo, com uma população de quase 50 milhões e uma indústria desportiva preparada até ao mais minimo detalhe. Se os árbitros, o azar ou a incompetência dos jogadores tinham ditado sentença em edições anteriores, desta feita tudo o que podia correr bem, correu melhor. Del Bosque demonstrou que o trabalho de Aragonés acentou mais na escolha do colectivo do que no génio táctico. Foi um pastor de homens, não um general. E soube desaparecer quando percebeu que o palco tinha de ser de quem o realmente merecia. Se há técnicos que sabem que são os artifices do triunfo, também os há que têm consciência de que são apenas uns afortunados. Vicente del Bosque conhece bem o grupo a que pertence. A noite de ontem, com mais posse de bola, mais remates, mais ocasiões e mais sofrimento, foi toda da equipa espanhola. O triunfo acabou por se tornar apenas numa mera formalidade, que não deixou de vir sem sofrimento. Espanha teve as ajudas arbitrais que todos os campeões precisam. Teve a dose de sorte certa nos momentos certos. Teve os nervos de aço para superar os momentos em que eram suplantados pelos rivais. E força mental para decidir todos os jogos pela minima. Nunca saiu do intervalo a ganhar, mas também nunca entrou a perder. Sofreu dois golos em toda a prova, um recorde. Marcou apenas quatro na fase a eliminar. O suficiente. Pouco para a história, muito para uma equipa esfomeada de titulos.

O Mundial 2010 fecha as portas com a vitória de um campeão anunciado. Durante três semanas o Mundo fez contas e tentou perceber como poderia esta Espanha perder. Não podia. Sofreu, fez sofrer, deslumbrou pouco, marcou menos e não ajudou a levantar o nivel da edição mais pobre em 20 anos. Mas no final sagrou-se campeã do Mundo. Para a história ficam os nomes, os frames, os gritos. A partir de amanhã o titulo já não vale nada. Mas durante hoje Espanha ganhou o direito a parar. É assim que se escreve a história do futebol.


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Miguel Lourenço Pereira às 08:36 | link do post | comentar

1 comentário:
De espanhol a 30 de Abril de 2013 às 23:52
Espanha = ¿Fiesta, Siesta, Iniesta?


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Miguel Lourenço Pereira

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