Quinta-feira, 1 de Julho de 2010

 

"Maybe, after all, he is just the soccer world's most expensive fraud"

 

Grahame Jones, LA Times

 

No final do Portugal vs Espanha, que dictou o afastamento da equipa das Quinas do Mundial, todos os olhos estavam no derrotado.

As camaras pouco queriam filmar a festa dos espanhóis, os campeões europeus em titulo. O importante era captar o olhar do jogador mais caro do Mundo, aquele que gosta de dizer que é o "primeiro, segundo e terceiro" melhor jogador do Mundo. Aquele que capitaneava a equipa das Quinas numa noite que podia ter passado do drama ao extase facilmente. Revelando o seu já constante péssimo perder, Cristiano Ronaldo insultou os assistentes de camâra da FIFA e cuspiu-lhes como faria, quase uma hora depois, ao rosto dos portugueses e do seu seleccionador, ao dizer que as respostas da derrota, que não fiasco, e da sua exibição não eram com ele. Eram com "o Queiroz".

 

Cristiano Ronaldo emerge como o grande derrotado pessoal deste Mundial.

Certamente não perdeu sozinho. Carlos Queiroz tem a sua culpa no cartório, em alguns lances chave, desde o não arriscar frente ao Brasil quando sabia que o apuramento estava confirmado, até à escolha de Ricardo Costa como marcador directo de David Villa. Também é preciso refrescar a memória de quem se lembra de ver Simão Sabrosa em campo. Especialmente no lance do golo espanhol. Ou as trapalhadas constantes de Danny, ou os passes errados de Tiago frente a Brasil e Espanha. Todos eles contribuiram, de certa forma, à eliminação de Portugal. Mas nenhum deles era o capitão de equipa. E nenhum deles era o "melhor do Mundo", rótulo com que o extremo chegou ao Mundial, nesse duelo com Messi que dura já três anos, com vantagem clara para o argentino nos últimos dois. O seu rosto de desalento dizia tudo. Depois de um ano em branco com o Real Madrid (outra vez Messi, outra vez os espanhóis) também a selecção o afastava dos titulos colectivos, porta para os titulos pessoais. O que lhe interessa realmente. De tal forma que até Carlos Queiroz, o seu principal valedor e homem por detrás da sua nomeação como capitão - e responsável por este excesso de ronaldismo na selecção - reforçou isso na conferência prévia ao jogo. O importante não parecia ser Portugal passar, mas sim que o CR7 vencesse qualquer coisinha. Para o puto não ficar chateado, va lá.

Futebolisticamente o extremo dos 100 milhões não existiu no torneio.

Queixou-se de que a táctica não era do seu agrado. Jogou sozinho na frente mas também jogou a extremo. Não rendeu em nenhuma das posições. Em Madrid jogou nas mesmas posições e soube marcar, soube assistir, soube brilhar. Deve ser um problema com o equipamento.

No jogo inaugural frente à Costa do Marfim, entrou bem durante meia-hora. Depois, prenuncio futuro, escondeu-se do jogo. Frente à Coreia do Norte fez parte da excelente segunda parte colectiva, porque na agonia da primeira meia-hora pouco se lhe viu. Contra o escrete canarinho, no jogo que sabia que era um prato mediático forte, queixou-se mais do trabalho dos colegas e do árbitro do que dos seus remates estapafúrdios a kilómetros de distância de Júlio César. Foi um jogador amador, egoista e debilitado psicologicamente. Prenúncio, hellas, do jogo chave. Desse jogo onde nunca apareceu. Ao contrário de Villa, o homem golo do torneio, os seus remates nunca assustaram as redes espanholas. Foram só quatro, contra dez do dianteiro do Barcelona. Também não assistiu nenhum colega, nem sequer ajudou no processo defensivo. Quando caía, vitima ou não da insensibilidade arbitral, a camara fixava-se no seu olhar de menino a quem lhe roubaram o doce e que espera um novo. Até que ajeita as meias, lentamente, e se decide levantar. Durante esse largo periodo os colegas suam para tapar os buracos que o capitão deixa. Ninguém se queixa, só ele. Os livres, apontados por outros, passam a ser seus, exclusivamente. Não tivessem em campo Bruno Alves, Simão ou Raul Meireles, jogadores que sabem bem o que é marcar de livre directo. Mas que têm o problema de não ter os seus remates como um trademark. "Tomahawk" chama-lhe. Ele saberá. Deve ser a rotação da terra que muda a trajectória do missil. Tevez, Lampard e Honda não pareceram queixar-se. Gente estranha essa.

 

Ao contrário de Leo Messi, Robinho ou Arjen Robben, apenas para citar dois exemplos, o futebol de CR7 estagnou.

É um portento fisico, resultado de um trabalho cuidado digno de um profissional, verdade seja dita. Mas falta-lhe aquele regate improvisado que o fizeram subir do anonimato até às estrelas. Neste Ronaldo já não há a picardia que levou uma equipa de topo a contratá-lo depois de um jogo de apresentação. Nem a capacidade de improvisação que deixou loucos os defesas da Premier League, que nunca tinham visto nada assim nas suas vidas. Esse CR já não existe. O seu jogo agora é puramente vertical. Cristiano Ronaldo, arranque donde arranque, nunca muda o sentido do lance. Nunca improvisa. Nunca surpreende. Vai em frente, vai em diagonal. Vai até ser travado. Tornou-se demasiado fácil anulá-lo. Basta saber dobrá-lo e esperar que o arbitro, ao vê-lo chocar com um muro imutável, não se deixe levar pelo grito de protesto. Ao contrário do holandês, do argentino e do brasileiro, que rodopiam sobre a bola e sobre si mesmos, desconcertando rivais, o número 7 de Portugal parece estático. Remate sem a inteligência de um jogador que conhece a realidade de um relvado. Egoisticamente quer a bola sempre para si, mas é incapaz de entrar num jogo de associação com Messi faz com o colectivo à sua volta. A bola chega aos seus pés e só acaba fora, nas redes ou no pé do rival. Não há uma quarta via.

Durante muito tempo dizia-se que Cristiano baixara a forma porque não tinha parceiros de associação, como Villa tem Xavi, como Messi tem Tevez como Robinho tem Kaká e como Robben tem Sneijder. Desta vez, nem essa desculpa lhe vale. O olhar dos colegas, a cada remate disparatado, diz tudo. Se alguém quer jogar sozinho, esse alguém é ele.

O Mundial de Futebol é o local da consagração dos mitos. Nem todos o ganharam. mas todos os grandes jogadores da história confirmaram os seus mitos nos Mundiais. Pelé e Maradona ganharam Mundiais praticamente sozinhos. Entre a galeria dos "monstros" que o venceram estão também os Charlton, Garrincha, Muller, Beckenbauer, Romario, ZidaneRonaldos. Os Cruyff, Platini, Eusébio, Puskas, Belanov, Elkjaer, Laudrup, Zico, Socrates, Gascoine ou van Basten não os venceram,  mas marcaram profundamente as edições em que participaram. Em dois Mundiais já disputados, o total da prestação de Cristiano Ronaldo resume-se a dois golos (um penalty e um golo acrobático), duas assistências e pouco futebol. Um fracasso.

Fraude. 

O Los Angeles Times, que de futebol não costuma perceber muito, verdade seja dita, não soube dizer menos.

É esse o sentimento que fica depois da prova. Fraude de liderança. Fraude de futebol em campo. Fraude de espirito de equipa. Fraude de gratidão. Ronaldo atacou o homem que o contratou, ajudou a crescer e acabou por fazer capitão. Atacou os colegas ao referir-se sempre a si e nunca ao colectivo durante a prova (se o ketchup, se os MVP´s, se o "jogo sozinho"). Atacou os adeptos ao virar as costas a mais de 10 milhões de pessoas porque tinha "o direito de sofrer sozinho". E atacou o futebol, o futebol que os admiradores que tem nos quatro cantos do Mundo esperavam ver sair dos seus pés. Nem Messi, nem Robben nem Robinho têm feito um grande Mundial. Ninguém o fez. Até se pode discutir e dizer que Rooney, Ribery, Torres e Kaká têm sido bem piores. Mas nenhum pode ser acusado de não deixar tudo em campo, de respeitar o jogo e fazer-se respeitar a si mesmo.

Cristiano Ronaldo pode ter, porque tem, um talento incomensurável. Uma trajectória de sonho e um futuro brilhante. Mas o que não terá é o respeito de quem via nele o lider desta selecção. O jogador que poderia fazer com este Portugal pautado pela mediania (no banco e no relvado) o que fez Eusébio em 1966. Nesse aspecto, e em tantos outros pequenos grandes detalhes, CR7 transmutou-se em CR0. O CR da fraude!

 



Miguel Lourenço Pereira às 15:03 | link do post | comentar

4 comentários:
De ze luis a 2 de Julho de 2010 às 18:11
Arrasador. Mas brilhante, caro amigo. E não há incompatibilidade.

Continuo a discordar quanto à marcação a Villa. Ric. Costa pode ter-lhe condedido metros para se mexer e driblar, mas era o defesa mais indicado para o enfrentar. Não era P. Ferreira, mais lento. Não era, sequer, Miguel, de quem se diz atacar melhor do que defende, logo inabilitando-o à partida e Miguel nem sequer devia estar na selecão e só lá está porque Bosingwa se lesionou. Miguel nem em 2008 lá devia estar, foi uma nódoa e apresentou-se bem gordo.

Sobre CR0, tudo certo. Não direi uma fraude, mas não vale o que pagaram por ele. Disse-o quando mudou de clube. E, então, lembrei que o mágico Zidane confessou, indo para o mesmo clube por menos dinheiro, não valer quanto pagaram por ele. A diferença é mental. Não económica. E tem um custo.

Abraço

nota: cheguei de fora e, pimba, a minha Holanda lá anda, apesar do Luís Freitas Lobo...


De Miguel Lourenço Pereira a 3 de Julho de 2010 às 17:57
Zé Luis,

CR0 é o tipico jogador que renderá mais pelo clube que lhe paga e que lhe projecta a imagem do que pela sua equipa. O mesmo disse o tão valorado agora Figo depois do Mundial de 2002, que Portugal não lhe dava o prestigio do Madrid. E todos se lembram como se portou no jogo com a Inglaterra em 2004 e recusando-se fazer depois a fase de apuramento para reclamar um lugar na fase final. Este vai pelo mesmo caminho. Sem cabeça e com muita lata.

A Holanda está em grande, mas a minha Alemanha está demoníaca, apesar do peso da história...desde 72 que nenhuma Mannschaft tem este estilo. sublime ;-)


De Ricardo a 6 de Julho de 2010 às 02:11
Não me agradou nada a atitude do Ronaldo em campo. Mas também não consigo entrar na critica fácil. Metade de Portugal (um país de invejosos crónicos e beatos) detesta o Ronaldo por ser bem sucedido, ambicioso, por não gostar de perder e por ser franco... ah, e por ser uma fraude. Essa mesma metade depois exige-lhe que faça dribles maravilhosos, passes milimétricos e golos... muitos golos (e se possível milagres). Depois admiram-se que ele fique obcecado em demonstrar que consegue marcar golos e levar a equipa às costas quando esta não está a ganhar. Esses são os mesmos que também não acreditavam na selecção nacional e que achavam que esta nem sequer ia passar dos grupos. Mas assim que Portugal demonstrou ter uma defesa sólida e depois de ter goleado a Coreia do Norte, os cépticos e críticos entraram na onda de euforia e de repente já éramos candidatos a vencer o troféu. Quando caímos perante a campeã da Europa, que tem de longe melhor equipa que Portugal e que nos venceu justamente por causa de uma alteração, o Ronaldo é quem paga as favas e tudo está mal outra vez.
A julgar pelas equipas que ainda se mantêm em prova, o futebol está cheio de fraudes.


De Miguel Lourenço Pereira a 6 de Julho de 2010 às 08:30
Ricardo,

Nem sou uma nem outra metade de Portugal. Cristiano Ronaldo pode ter muitas virtudes e muitos defeitos, mas não fui eu quem proclamou ao mundo ser o 1, 2 e 3 melhor jogador, que declarou querer ganhar todos os mvps da prova, etc...

CR0 é um jogador de imenso talento que estancou. Tal e qual como sucedeu com tantos outros. No R. Madrid não teve problemas em marcar 34 golos em toda a época. Mas nenhum contra defesas de 1 linha. Perdeu a chispa que o fazia diferente, hoje está claramente por detrás de Robben, Sneijder, Messi ou Schweinsteiger.

Certamente que neste Mundial houve várias fraudes. Kaká continua a ser um jogador sem fisico, Ribery um atleta sem presença, Rooney um avançado incapaz de ser um killer...e todos eles se assemelham pela falta de atitude, que é o que faz a diferença. Messi não marcou um golo em todo o torneio, mas a sua atitude foi diametralmente oposta. Mereceu perder, sair quando saiu (até antes), mas ninguém lhe pode apontar o dedo.

Se CR0 não é capaz de lidar com a exigencia, o problema é dele. Se nao se pode exigir a um jogador que faça a diferença, que pegue em equipas vulgares e as leve à história, entao que dizer de Maradona em 86, de Eusebio em 66, de Lato em 74, de Rossi em 82... o futebol está feito desses jogadores. Nem Cruyff, nem Platini, nem Eusebio, nem Di Stefano venceram um Mundial. Mas deram a cara e mataram-se até ao ultimo suspiro. CR0 não.

Portugal mostrou ter uma boa organizaçao defensiva, que é o primeiro passo para a vitória. Mas mostrou ser uma nulidade ofensiva (3 jogos, 0 golos) e aí a responsabilidade nao é dos 7 jogadores que actuavam atrás quase sem sair da linha de meio campo. Podiam perder, mas ao menos faziam-no com dignidade. Houve que o lograsse, houve quem não. Pergunta ao Ronaldo ? ;-)

abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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