Sábado, 23 de Maio de 2009

A vida é feita de altos e baixos. O futebol não poderia ser diferente. Mas há casos e casos e a época 2008/2009 vai certamente ficar para a história. Nunca se tinha vivido um arranque de época tão entusiasmante, com equipas vindas praticamente do nada a tomar de assalto os primeiros postos. E agora, a um dia do final da época na maioria das ligas europeias, podemos constatar que foi sol de pouca dura, que a realidade é crua e que quanto mais alto se sobe, mais alta é a queda. O que é novidade é que tenha sido um fenómeno simultâneo em quase todas as ligas. De todas as equipas sensações da primeira volta – e houve-as para todos os gostos e feitios – nenhuma sobreviveu ao dobrar de ano e algumas quantas acabam a época com a corda na garganta. Quem disse que o futebol era imprevisível? 

Comecemos por este pequeno país à beira mar plantado.

Face ao arranque penoso do tricampeão e dos pontos perdidos, aqui e ali, pelos crónicos candidatos, do nada emergiu um líder surpreendente, que fez eco por toda a Europa. Na época anterior o estádio do Mar tinha vivido a ilusão da subida de divisão e o drama da permanência até ao fim. As expectativas para esta temporada não eram diferentes, mas de repente aí estavam, os bebés de Matosinhos, a vencer a grandes e a pequenos, em casa e fora. E o Leixões era líder. Pela primeira vez na sua história. Liderava a Superliga com uma equipa super-eficaz. Braga era o maestro de um onze orquestrado com a eficácia e simplicidade de José Mota, que desde Beto nas redes ao avançado Wesley, tinha uma equipa de ganhadores. Durante o frio e chuvoso Outono o Leixões pôde mais que os outros e manteve-se firme. Vergou o campeão em casa e fez sofrer águias e leões. Até que chegou o Natal. Começou o marcador a ficar vazio, de golos, de emoção, de esperança. A liderança perdeu-se, o segundo lugar também. Começou a queda livre. A venda do elemento chave não ajudou, mas isto de ser pequeno tem destas coisas. E agora aí está, depois de derrotas surpreendentes, o ambicioso Leixões, no sexto lugar, que nem é má posição para quem temia descer, mas que em nada tem a ver – em ponto e jogo – com a equipa que arrancou o sonho aos milhares de adeptos que inundavam o Mar…
 
Aqui ao lado fenómeno similar. Enquanto Barcelona e Madrid enchiam capas, duas pequenas equipas, Valladolid e Málaga, começavam a trepar timidamente na classificação até estar em lugares de glória, improváveis a principio. Sonhou-se com o hino da Champions em Pucela e La Rosaleda. No final a época é larga e carrasca e a Europa, e não só a dos milionários, ficou de fora das contas. Os empates e derrotas foram atrapalhando os sonhos, e no fim de contas serão os mesmos a beber da fonte do dinheiro uefeiro. Aos pequenos restam-lhe as pequenas referencias nesse livro esquecido que é a história. 

Em Itália e Inglaterra o fenómeno foi ainda mais acentuado, já que as grande sensações da época começaram a sonhar alto e terminam o ano com um pé no poço.

O regresso da Napoli era algo que milhares de fãs nostálgicos do beautiful game ansiavam. O clube de Careca, Alemão e Maradona, o símbolo do sul de Itália contra o norte industrial e os clubes da capital, tinha descido aos infernos, mudado de nome e subido a pulso. Na primeira época na Série A regressou à UEFA e tinha criado um projecto ambicioso que o levasse a outros palcos. Os mesmos de há vinte anos atrás. A época começou de bom augúrio, e com as quedas de AC Milan, AS Roma e Juventus, os napolitanos subiam na classificação, lado a lado com Fiorentina, AS Lazio e Genoa no ataque ao intocável Inter. Da magia napolitana rapidamente se passou ao desespero. No espaço de três meses a equipa caiu mais de dez posições na tabela e está agora a apenas três postos da linha de água. Será salva, mais tarde ou cedo, mas no limite. Algo impensável para os que já sonhavam com o regresso do Scudetto.
 
Em Inglaterra os tigres de Hull tinham chegado directamente da Coca Cola Championship e ninguém apostava um cêntimo por eles. Parecia terem já carimbado o bilhete de volta, até que começaram a ganhar em tudo o que é campo, e do nada viam-se em lugar de Champions. Muita fruta para uma terra e um clube tão verde ainda nestas histórias. O Hull ainda se aguentou nos postos europeus um bom par de meses, sabendo que os cães que lhe mordiam os pés tinham mais poder de fogo para estas coisas. Quando a realidade desceu à terra os jogadores perderam a aura mágica e começaram a fazer o que se esperava: perder em tudo o que é campo. Hoje o Hull City tem meio pé fora da Premier. Disputa com Newcastle e Middlesborough a descida de divisão. Joga com o Man Utd e tem sorte que a equipa de Ferguson esteja com a cabeça em Roma. Mas pode não ser suficiente. E o conto de fadas terminaria como uma história de terror.

 

Resta-nos nesta história o caso mais singular entre todos. E também o mais elucidativo, que disto de brincar aos campeões não é para todos. Devia, mas não é. Na Alemanha surgiu do nada um clube de uma cidade minúscula, que com o dinheiro do seu presidente, um milionário antigo jogador da entidade, foi subindo a pulso de divisão. Contratando jogadores desconhecidos, o TSG 1899 Hoffenheim irrompeu na Bundesliga como um trovão. Os golos de Vedad Ibisevic e os passes de Carlos Eduardo foram rasgando as defesas contrárias, e depressa o pequeno clube subiu ao primeiro lugar. E foi mesmo campeão de Inverno, feito histórico nestas terras e ainda para mais com esta concorrência. Quando voltou o campeonato, já sem a estrela da casa, os adeptos azuis voltaram à realidade. A equipa durante uns dois meses ainda lutou por estrear-se na Europa, mas foi caindo na classificação à medida que outros iam trepando. Como o Wolfsburgo, que percebeu que o importante não é começar bem, é acabar melhor. A equipa do oeste alemão dificilmente irá à próxima Taça UEFA. Mas pelo menos deixou o aviso. Para o ano não se surpreendam.

 

 Depois do que vimos este ano ficam duas coisas claras. Começar bem não significa terminar lá em cima e que ser pequeno, para algumas coisas, ainda conta. Especialmente se há que correr dez meses sem parar.



Miguel Lourenço Pereira às 00:18 | link do post | comentar

1 comentário:
De Bruno Pinto a 23 de Maio de 2009 às 01:28
Magnífico blog com fabulosos textos.


Comentar post

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
ManostaxxGerador Automatico de ideias para topicos...
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO